Sócrates garante que se enganaram em 250 metros sobre ele ter estado com Salgado

2 set 2025, 19:02

estão a seguir um caminho que eu acho desleal

Estou a falar da Lena, do TGV, do Parque Escolar, podemos concordar que sobre isto o MP não quer perguntar nada?

Ex-primeiro-ministro regressou a tribunal: explicou que cansa se falar seis horas, não gostou de pergunta sobre ter conta na CGD e fez ironia com as antenas telefónicas. E a meio da sessão em tribunal aconteceu que a tecnologia falhou

Nos instantes que antecederam a pausa da para almoço, José Sócrates pediu à presidente do coletivo de juízes, Susana Seca, para que a sessão da parte da fosse adiada, alegando que falar durante três hora de manhã e três à tarde é altamente cansativo. A juíza foi perentória em não aceder ao pedido do ex-primeiro-ministro.

A sessão deveria ter sido retomada às 14:15. Por volta dessa hora, Sócrates já estava na sala. Depois chegaram os procuradores e o coletivo de juízes, mas um problema informático impediu a continuação dos trabalhos. O sistema de gravação da sala de audiências não estava a captar imagem e, sem isso, o julgamento não pode avançar porque deixa de existir um registo.

O julgamento só foi retomado por volta das 15:50, uma hora e dez minutos antes do fim previsto para a sessão. A tarde ficou marcada pelas perguntas do procurador-geral-adjunto do Ministério Público Rómulo Mateus e pela exaltação de José Sócrates.

A primeira pergunta foi sobre se o antigo primeiro-ministro tinha uma conta bancária na Caixa Geral de Depósitos. Sócrates não percebeu nem gostou da pergunta. O coletivo de juízes interrompe e questiona se esta conta já tinha sido referida em alguma das anteriores sessões de julgamento.

José Sócrates lá respondeu que não sabia se já tinha sido referida esta conta nas sessões anteriores, mas revela que tem uma conta na CGD - a única que diz ter -, mas não sabe se tem o número referido pelo procurador.

Aproveitando o ímpeto sentido na sala, Sócrates tenta desmontar a estratégia do MP: "O sr. procurador quer fazer perguntas ao lado das minhas declarações e este não é o momento". A pergunta leva mesmo a juíza Susana Seca a alertar que a acusação só pode e deve colocar questões a José Sócrates sobre o que o mesmo já disse nas sessões de julgamento anteriores.

As antenas telefónicas: um erro de 250 metros?

Seguiu-se nova pergunta de Rómulo Mateus: "Voltou lá durante aquela noite?", referindo-se ao alegado jantar a que Sócrates compareceu em casa de Ricardo Salgado e do qual terá saído antes de ter consumido qualquer alimento. 

O ex-primeiro-ministro já havia dito que não chegou a jantar e que tinha abandonado a habitação pouco depois, mas foi a casa de uns amigos no Estoril ainda naquela noite.

Sócrates voltou a não gostar da pergunta, mas ainda assim responde ao procurador. Primeiro negou, depois acrescenta: "Querem provar que estive lá das oito até às tantas da manhã. Não é verdade, estive meia hora lá e fui a outra casa que é muito perto. Deve ser a mesma antena, sei lá".

Sócrates refere-se às antenas telefónicas porque o número de telefone do ex-primeiro-ministro foi identificado por uma antena junto à casa de Salgado já durante a madrugada. O antigo primeiro-ministro, pressionado pela presidente do coletivo de juízes, revelou ainda que a casa de amigos a que se deslocou fica a cerca de 250 metros da casa de Ricardo Salgado.

A pedido do procurador-geral-adjunto Rómulo Mateus é reproduzido na sala de audiência um conjunto de quatro escutas de chamadas telefónicas: ouve-se a secretária do ex-primeiro-ministro, ouve-se a jornalista Fernanda Câncio, mas o tema é sempre o mesmo - o jantar em casa de Ricardo Salgado.

O momento que se seguiu voltou a ser do desagrado de Sócrates. Rómulo Mateus pediu para que fossem reproduzidas quatro escutas telefónicas e mostradas duas conversas através de SMS, em que o tema era inevitavelmente o jantar. O arguido assiste ao momento em silêncio e responde: "Não houve jantar, estive lá meia hora e, estando ali, fui ali ao lado, a casa de uns amigos". O antigo primeiro-ministro acrescenta que o jantar nunca aconteceu porque Henrique Granadeiro não apareceu.

Sócrates lembra que não é por haver um mero convite que um jantar se efetiva - e que, mesmo que tivesse existido, isso não é uma prova evidente da sua proximidade com o antigo dono do BES. "A prova de que não tinha o número de Ricardo Salgado é que, numa das escutas, Ricardo Salgado liga-me e eu não sabia quem era."

Sócrates garante ainda que não sabia sequer onde morava Ricardo Salgado e que só foi a casa do banqueiro para lhe oferecer o livro que acabava de publicar e para sanar alguma animosidade vinda de 2011.

Já visivelmente exaltado e cansado, é o próprio Sócrates quem remete uma pergunta à juíza Susana Seca: "O MP não tem provas para apresentar?. Estão a seguir um caminho que eu acho desleal", acusa, acrescentando: "Estou a falar da Lena, do TGV, do Parque Escolar: podemos concordar que sobre isto o MP não quer perguntar nada?".

Sócrates diz que viveu em Paris durante "um curto período de tempo" com 450 mil euros dados pela mãe. A juíza quis saber se 18 meses sem salário são "um pequeno período"

O tópico muda para os tempos em França e para a dúvida sobre como se sustentava Sócrates sem trabalho numa das mais caras capitais europeias. Enquanto viveu em Paris durante "um curto período de tempo", Sócrates diz que se sustentou com 450 mil euros dados pela mãe após a venda de um apartamento.

Susana Seca questiona se Sócrates "considera 'um pequeno período' 18 meses sem salário". Sócrates justifica que gostaria de ter começado a trabalhar antes de ter entrado para a Octapharma, mas estava à espera de uma proposta de uma empresa estrangeira que não chegou. Continua a explicar os 18 meses em Paris e culmina com: "Depois, em 2014, fui preso, mas isso a sra. juíza sabe".

Por fim, a sessão de julgamento terminou precisamente como começou - com um momento atípico e contrastante com o usual clima na sala. A juíza faz um sucessivo conjunto de perguntas sobre o percurso académico do arguido em Paris. Após a catadupa de perguntas, o ex-primeiro-ministro remata com: "Já lhe disse que fui o melhor aluno?", tal como já havia dito, redito e repetido várias vezes. Solta-se uma gargalhada geral na sala. Susana Seca sorriu, tal como as juízas à sua direita e esquerda. Quem não achou tanta piada foi o procurador-geral-adjunto do Ministério Público Rómulo Mateus.

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