Sócrates diz estar "cansado das mentiras" de Campos e Cunha e exalta-se ao falar da nomeação de Armando Vara para a CGD

9 set 2025, 13:20
José Sócrates volta a tribunal (Lusa)

Antigo primeiro-ministro aproveitou ainda a sessão desta terça-feira para apresentar as razões da demissão de Campos e Cunha da pasta das Finanças, apenas três meses depois te ter tomado posse no seu governo

José Sócrates voltou a marcar presença na nona sessão do seu julgamento no âmbito da Operação Marquês, onde usou fortes declarações quando questionado sobre a nomeação de Armando Vara para a administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD).

“Eu nunca, nunca, indiquei nem sugeri ninguém para a Caixa Geral de Depósitos. Levantei objeções quando o ministro das Finanças me apresentou o nome de Armando Vara. Nunca sugeria o seu nome”, defendeu de forma exaltada logo no início da sessão, recordando ainda que, à data, considerou a nomeação precipitada, tendo em conta que o mesmo tinha saído do governo recentemente.

“Achei que era muito cedo, depois da forma como Armando Vara saiu do Governo em 1999. Estamos a falar de uma coisa que se passou há 20 anos, estamos a julgar uma coisa que se passou há 20 anos. (…) Isto é de uma violência.”

O ex-primeiro-ministro recordou uma chamada feita pelo então ministro responsável pela tutela da Caixa, Teixeira dos Santos, em que ambos decidiram avançar com a nomeação. “A seguir ligou-me o Teixeira dos Santos a dizer que já tinha pensado e mantinha o nome do Armando Vara porque confiava nele. Eu disse que não se discutia mais o assunto: se achas isso, o poder significa a responsabilidade, e ele disse-me: olha, se houver algum problema político, manda para mim.”

O antigo líder socialista reforçou ainda ser “amigo de Armando Vara”, sublinhando que “mau seria se não fosse assim”, mas defendeu que a acusação sobre uma alegada relação de confiança e conluio em operações como Vale do Lobo não se sustenta. “A acusação indica que nomeei Armando Vara já com pensamentos criminosos e a pensar em Vale do Lobo. Mas as atas em que foram distribuídos os pelouros são de agosto de 2005 e janeiro de 2006. E este ponto destrói a acusação por inteiro.”

De forma a vincar uma distância com Vara no período em que este membro da CGD, Sócrates, perante a juíza Susana Seca, afirmou que apenas manteve encontros “por uma ou duas vezes” com o administrador. “Encontramo-nos apenas uma ou duas vezes. Não sabia da vida de Armando Vara nem ele da minha. Não falámos sobre como andava a Caixa, se andava bem, se andava mal”. A supervisão mais próxima, acrescentou, “estava a cargo do então secretário de Estado do Tesouro, Carlos Costa Pina”.

Campo e Cunha, "o incapaz" que "faltou à verdade em tudo"

O julgamento voltou a aquecer quando se falou de Luís Campos e Cunha, antigo ministro das Finanças do Governo de Sócrates. “É muito importante referir este ponto, porque eu cansei-me das mentiras deste senhor. Este senhor esteve três meses no Governo. E ao fim de três meses saiu do Governo e, passado um ano, já estava na atividade preferida deste tipo de pessoas que, depois de o Partido Socialista nos ter dado destaque social, se dedicam apenas a atacar, a maldizer e a denegrir tudo o que o PS diz.”

Sobre a demissão de Campos e Cunha, Sócrates apresentou aquilo que considerou ser as verdadeiras razões. “Eu já tive a ocasião de dizer, acho que na última sessão, que eu demiti Campos e Cunha. Não foi ele quem se demitiu, fui eu.” A decisão, explicou, surgiu no contexto de divergências sobre a reforma da lei relativa ao acúmulo de função e pensão. “Havia pessoas que acumulavam a função e a pensão. E nós fizemos a lei de um terço. Pensamos que era uma coisa justa e razoável. Ele achava que merecia aquilo tudo e não queria perder nada. Foi essa a explicação da demissão.”

Ainda sobre o Campos e Cunha, recordou uma “grande discussão no Conselho de Ministros”, devido a “reservas” levantadas pelo antigo governante ao plano para o TGV, que inicialmente o aprovou, mas que acabou por criticar num artigo escrito no jornal Público. 

“Era domingo, sei porque estava no cinema e disseram-me que ele [Campos e Cunha] tinha escrito um artigo levantando objeções a um plano que ele próprio tinha aprovado. (…) Disse-lhe depois: isto não é para meninos de coro que fazem birra à primeira critica”.

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