"Não há nada melhor para reconhecer um arrogante do que outro arrogante", disse Sócrates sobre Belmiro de Azevedo

10 jul, 14:28
José Sócrates em tribunal (Lusa)

Houve outras observações curiosas de Sócrates dentro do tribunal - com uma frase sobre "instintos de simpatia"

José Sócrates voltou igual a si próprio para a quarta sessão de julgamento da Operação Marquês. Começou por afirmar que estava a "fazer o máximo esforço para que os instintos de simpatia estivessem presentes" numa sala onde o choque com a juíza tem sido constante, mas rapidamente se voltou a exaltar com as perguntas do procurador Rui Real.

O ponto de maior exaltação foi mesmo quando o antigo primeiro-ministro foi confrontado com o facto de poder ter sido o responsável pela fusão entre a Oi e a PT, que chegou a estar em cima da mesa. É que José Sócrates quis lembrar que a direita de outrora o chegou a catalogar como o pai dos bloqueios na PT, num momento que serviu para um clássico intempestivo: "Vão chamar pai a outro".

Logo à chegada ao Campus de Justiça, Sócrates foi Sócrates e disse apenas aos jornalistas que, ao fim de 12 anos, esperava que "o Ministério Público apresentasse uma prova, um documento, um testemunho", ou seja, algo de palpável que o pudesse incriminar pelos 22 crimes de que está acusado.

Chegava então a primeira irritação, com os procuradores a questionarem o antigo primeiro-ministro sobre a fusão entre a Oi e a PT. Sócrates garantiu que "não conhecia Oi nenhuma".

"Não posso responder, porque não era ministro das Obras Públicas. Eu nada sabia disso", referiu. "Foi tudo o Ministério das Obras Públicas, só fui informado no final", acrescentou. Ainda assim, realça o antigo primeiro-ministro, “o Estado tinha o direito de ser informado antes e se não fosse ia votar contra”.

Mas deu uma palavrinha ao presidente do Brasil durante uma cimeira? Não, não. O antigo primeiro-ministro voltou negar e realçou que isso seria algo que nem faria sentido, lembrando que “não tinha relações diretas com os acionistas da PT para discutir decisões da PT”.

Momento para nova exaltação. E desta vez o alvo foi o procurador Rui Real que, no entender de Sócrates, tentou avaliar o mérito ou desmérito do seu antigo governo quanto à PT. O antigo primeiro-ministro acusou o representante do Ministério Público (MP) de estar a tentar fazer o papel de deputado da oposição e acrescentou: "Não sei se estamos num julgamento ou no Parlamento, aqui trata-se de crimes. No Parlamento é que avaliamos o mérito das decisões do governo".

Houve ainda tempo para José Sócrates assegurar que nunca conheceu um tal de Francisco Canas, que o MP acredita ser o "transportador" ou "facilitador" de montantes monetários entre o primo José Paulo e o antigo primeiro-ministro.

"Será mesmo que ouvi assim a pergunta: diz aqui, na pronúncia, isto e eu quero saber se é verdade. Primeiro acusa-se e depois pergunta-se?", questionou, já exaltado, referindo ainda: "Nunca recebi nenhum dinheiro do meu primo José Paulo para mim". 

Questionado sobre o telefonema trocado com Ricardo Salgado nas escutas, Sócrates começou por dizer que foi na altura em que o ex-banqueiro foi constituído arguido para, após o intervalo de 10 minutos na sessão, fazer uma retificação - afinal tinha sido atraiçoado pela memória temporal. É que o ex-dono do BES só foi acusado após a dita chamada.

Contudo, foi a deixa para Sócrates confessar que "tem muita admiração" pelo percurso do antigo banqueiro e lembrar que "não é o facto de [de Salgado] ter caído em desgraça" que muda isso. 

"Não sou desses. Levo os valores da amizade em muita consideração", reiterou Sócrates, lembrando que o que quis dizer a Salgado foi passar uma ideia: "Perante o que para aí dizem, há quem tenha ficado com uma boa impressão de si".

Já sobre a OPA da Sonae à PT - que a acusação também acredita que foi bloqueada pelo governo de Sócrates -, o antigo primeiro-ministro falou um pouco do "arrogante" com pingos de "hipocrisia" que é Belmiro de Azevedo.

“A primeira vez que Belmiro de Azevedo se sentou comigo disse-me: 'venho aqui resolver-lhe um problema'”, começou por dizer, criticando a postura do presidente da Sonae.

O antigo primeiro-ministro rematou ainda com: “Não há nada melhor para reconhecer um arrogante do que outro arrogante, mas eu tento controlar-me”.

Em suma, a grande novidade da manhã desta quinta-feira foi a presença na assistência de uma turma da Academia de Verão da Universidade Católica, que teve a oportunidade de testemunhar um julgamento que ficará para a história do país.

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