opinião
Jornalista

Sócrates tem toda a razão, claro que tem!!!

18 mai, 15:36
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Há pouco mais de três anos escrevi um texto em que já dava toda a razão, todinha mesmo (juro pelo que há de mais sagrado), ao antigo primeiro-ministro. Neste momento, é ainda mais indesmentível (será isso possível?!) de que José Sócrates continua a ser uma vítima dos persecutórios sistemas judicial e mediático que querem, vá-se lá saber porquê, que um tribunal avalie e decida se foram cometidos ou não um conjunto de crimes sem que estes acabem por prescrever. Inacreditável esta afronta aos direitos e garantias de qualquer cidadão, é apenas o que vos digo.

Sim, Sócrates tem razão, claro que tem, onde já se viu querer julgar alguém depois de uma investigação criminal, uma acusação feita pelo Ministério Público e uma (duas?) pronúncia de um tribunal? É algo certamente inconcebível até porque todo o processo até ao coletivo que o está a tentar julgar (e também aí, claro, já todos sabemos como são as perguntas da juíza Susana Seca) esteve cheio de mãozinhas (in)visíveis que atuaram para vilipendiar um cidadão e, logo alguém, que sempre esteve acima de toda a suspeita. Aliás, agora, até um douto procurador do Ministério Público veio reconhecer que é evidente o “assassinato de carácter” que Sócrates sofreu. Não pelo Estado, claro, nem pensar, mas por uma corja de jornalistas que insistiu em publicar notícias sobre o único ex-primeiro-ministro português detido por crimes de corrupção em toda a democracia portuguesa.

Sim, Sócrates tem razão, toda mesmo e, sejamos justos, o acutilante procurador António Beirão também, pois é realmente inacreditável que os media tenham publicado dezenas, centenas, milhares de notícias sobre um insigne político detido e as suas eventuais ligações a um circuito nacional e internacional de offshores, testas de ferro e negócios obscuros que envolveram até a mais importante empresa controlada pelo Estado? E sempre notícias com pormenores de alegados crimes cometidos (alguns) há mais de 20 anos e que, 13 anos depois do início das investigações, ninguém garante que não prescrevam. Certamente tão manhosa campanha mediática difamatória não sucederia em países como a França, onde o caso Sarkozy não passou de uns fogachos noticiosos em jornais de segunda categoria, para já não falar de que não existiram comentários ao pontapé nos media e das redes sociais e até de fotos do antigo governante a ir para o tribunal, a sair de casa e a entrar na prisão.  Ou mesmo em Israel, onde todos sabemos que os processos que visam Netanyahu andam por lá em bolandas judiciais, mas sem qualquer aparato mediático. Ou no Brasil, ora com Lula, ora com Bolsonaro, e sem uma capinha de jornal.

Sim, Sócrates tem razão, toda mesmo, até porque o procurador Beirão sabe que "ninguém tem dúvida" da deriva abutre dos jornalistas - “campanha mediática que reconhecidamente liquidou moralmente o autor” -, ainda que quase nada se possa fazer para mudar este estado de coisas pois o Estado "não controla os 'media', nem pode controlar".

Sim, Sócrates tem razão, toda mesmo (e já sabemos que o procurador Beirão é um iluminado que o acompanha nas agruras terrenas), pois, por cá, são fáceis os atentados de carácter, as campanhas sujas e negras, as motivações políticas escondidas e os expressivos e abundantes comunicados da Procuradoria-Geral da República. Comunicados, vejam bem?! É assim tão difícil perceber o que deve ser feito? Investigar em sigilo, deter em sigilo, soltar em sigilo, acusar em sigilo, pronunciar em sigilo e julgar em sigilo. Sim, sem nenhuma reprodução de dados, informações e documentos até a uma sentença em primeira instância. Ou quiçá quando o Tribunal Constitucional vier colocar ordem na rebaldaria jurídica. E mesmo assim é de ponderar o que o povo pode saber, não vá alinhar em populismos desvairados, como parece seu timbre nestes tempos.

Sim, Sócrates tem razão, toda mesmo, ele até nem deseja tudo isto, este arrastar das coisas, esta espada que o Estado lhe coloca em cima, e sempre sem que avance o que quer que seja. Dizem que o homem é simplesmente cínico e amoral, mas alguém devia pensar um bocadinho na justiça que temos: por um lado, não permite uma defesa justa a quem não consegue arranjar advogado que o queira, por outro, já viram o tempo que demora uma queixa contra o Estado num tribunal administrativo? E depois ainda tem de se ouvir os conselhos do procurador Beirão dizendo-nos que se deve ir reclamar para outra freguesia os 200 mil euros exigidos ao Estado? Sim, vilipendiados deste país, olhem para os jornalistas. Nos últimos anos, são tantos os casos que deviam merecer reparação. Veja-se o que sucedeu a Ricardo Salgado e àquela gente boa do BES/GES, ao Duarte Lima e àquela gente boa do BPN, ao Álvaro Sobrinho e àquela gente boa da elite angolana, ao Armando Vara e àquela gente boa do Face Oculta, ao Isaltino Morais e ao taxista que titulava contas na Suíça, ao Oliveira Costa e àquela gente boa da SLN, ao João Rendeiro e àquela gente boa que contra todos os entraves montou um banco privado para pequenas e médias fortunas, ao Silva Carvalho e àquela gente boa das secretas que não gostavam (e bem) de jornalistas. E a tantas, mas tantas outras vítimas dadas à estampa em publicações torpes.

Sim, há muito que Sócrates tem razão, claro que tem, e nem sequer seria necessário a voz amiga do procurador Beirão. Sócrates teve razão quando se disse vilipendiado porque a Caixa Geral de Depósitos (onde nunca mandou e desmandou através de génios da banca como Armando Vara) cumpriu a lei portuguesa sobre o branqueamento de capitais. A lei preventiva que é obrigatório aplicar em qualquer país que leve a sério os problemas da corrupção e de outros tipos de criminalidade.

Sim, há muito que Sócrates tem razão, claro que tem, quando diz que o Ministério Público perdeu "qualquer sentido de decência" porque investigou alertas bancários sobre pagamentos de um empresário que já foi à falência em França e Espanha e lhe pagou conselhos e o lobbing para a América do Sul e os países africanos de língua oficial portuguesa. Ou quando o MP andou entretido a seguir o rasto do dinheiro do amigalhaço Carlos Santos Silva, que durante anos foi um mãos-largas na distribuição de envelopes com centenas de milhares de euros após telefonemas codificados. Foi também por pura amizade que o empresário deu ao amigo uma moradia de luxo para remodelar ao seu gosto e enquanto vivia como um estudante tardio em Paris. E que, já por tempos mais recentes, usou parte dos milhões devolvidos por ordem judicial para retornar aos negócios imobiliários com familiares do ex-primeiro ministro.

Sim, há muito que Sócrates tem razão, claro que tem, pois nunca se puniu os torpes responsáveis pelas “denúncias caluniosas” que vieram depois de ter deixado de exercer funções públicas. Aliás, já quando vivia em Paris noutros tempos e cirandava no comentário da RTP com intenções de novos voos políticos (quiçá a Presidência da República e seria inteiramente merecido para tão grande figura letrada em Camus, Bertrand Bodie e René Rémond), era apenas a sua vida privada que estava em causa e nenhuma explicação tinha de dar a ninguém.

Sim, há muito que Sócrates tem razão, claro que tem, então logo ele que até foi magnânimo e quis combinar uma visita ao DCIAP para ser ouvido, mas veja-se lá o topete dos investigadores Teixeira & Silva (essa dupla de algozes que andam a perverter o Estado de Direito enquanto investigam meio mundo e recolhem muitos milhões de fugas ao fisco) que o mandaram ir buscar à manga de um avião que vinha de Paris para o interrogarem, antes de o deterem preventivamente com a concordância de um juiz de instrução que não era flor que cheire?

Sim, há muito que Sócrates tem razão, claro que tem, ao acusar o MP, os juízes e o Estado português de "cobardia” e “violência" pelo que teve de sujeitar-se no processo Marquês. Ser durante meses um preso preventivo em Évora ou em casa, valha-me Deus?! E aguentar quatro anos até estar pronta uma das mais complexas acusações da justiça portuguesa, que imputou 189 crimes contra 28 arguidos, 19 pessoas singulares e 9 pessoas coletivas? E ter de andar de recurso em recurso, de contestação em contestação para todas as instâncias e capelinhas possíveis e imaginárias só para fazer valer os seus mais básicos direitos?

Sim, há muito que Sócrates tem razão, claro que tem, quando é por demais evidente que tudo e todos estão contra ele, algo que até lhe têm impedido de conseguir uma defesa justa e capaz. É óbvio que existe uma grande conspiração na sociedade, no Conselho Superior da Magistratura e nos tribunais superiores que impede a justa apreciação dos compêndios de Direito que já foram assinados por um advogado doente e outro que nunca se destacou por aí além.

Sim, há muito que Sócrates tem razão, claro que tem, quando anunciou vezes sem fim que o País tem uma democracia doente, juízes justiceiros e órgãos de informação que vivem de "conluios", logo ele que tentou (com o amigo Vara e outra gente igualmente recomendável) purificar o Estado de direito com intervenções expeditas no jogo dos media amparado pela distribuição da publicidade estatal, o crédito a descoberto da banca e o amparo da poderosa PT e do Taguspark.

Sim, há muito que Sócrates tem razão, porque os media sempre insistiram em ignorá-lo, recusando-lhe tempo de antena e, atente-se em tão maquiavélica demanda, impedindo-o de dizer o que quis, e nos termos amigáveis e educados de sempre, fosse à porta dos tribunais, em comunicados, colunas de opinião ou em entrevistas, sendo até natural que nestas parcas intervenções se lhe deva reconhecer que é natural que não tolere certo tipo de perguntas descabidas que insistem em fazer-lhe.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Colunistas

Mais Colunistas