Pode permanecer até 16 horas em voo e opera até aos 3.600 metros de altitude: este é o Tekever AR3, o drone português que estava "no radar da Rússia há bastante tempo"

5 ago, 14:49
Tekever AR3 (Tekever)
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

O sistema pode ainda ser equipado com câmaras eletro-ópticas, sensores infravermelhos ouiluminadores laser. Está, desde segunda-feira, no centro das atenções na guerra da Ucrânia

"Um drone de reconhecimento inimigo entrou no nosso setor. Ficámos surpreendidos porque nunca tínhamos visto nada assim antes". Foi desta forma que a Rússia descreveu o "raro" drone português Tekever AR3, abatido perto de Bryansk e que acabou por despertar a curiosidade dos militares russos.

Desenvolvido pela empresa portuguesa Tekever, o AR3 é um sistema aéreo não tripulado concebido para missões de vigilância, reconhecimento e recolha de informações (ISTAR), tanto em ambiente marítimo como terrestre. Destina-se à utilização por forças militares, guardas costeiras e entidades civis.

Segundo a documentação oficial disponibilizada no site do fabricante, pode permanecer até 16 horas em voo, tem alcance de comunicações até 100 quilómetros, pesa 25 quilos à descolagem, transporta até quatro quilos de carga útil, atinge uma velocidade de cruzeiro de cerca de 85 km/h e opera até aos 3.600 metros de altitude.

O sistema pode descolar verticalmente (VTOL) ou através de catapulta, sendo recuperado por aterragem vertical, paraquedas, rede, aterragem sobre a fuselagem ou mesmo na água, consoante a configuração.

O AR3 foi concebido para executar missões de vigilância marítima e terrestre, patrulhamento costeiro, busca e salvamento, monitorização ambiental, vigilância de infraestruturas críticas, apoio às comunicações e correção de tiro de artilharia.

O sistema pode ainda ser equipado com câmaras eletro-ópticas, sensores infravermelhos, iluminadores laser e sistemas de retransmissão de comunicações, permitindo adaptar a carga útil às necessidades de cada operação.

Muito antes de ganhar protagonismo na guerra da Ucrânia, o AR3 já fazia parte dos meios utilizados pelas Forças Armadas Portuguesas, em particular pela Marinha.

Já de olhos postos no futuro, a Tekever refere ainda que a evolução mais recente da plataforma, o AR3 EVO, já foi testada em cenários operacionais reais, destacando maior modularidade, arquitetura "plug-and-play", adaptação rápida a diferentes missões e maior resistência em ambientes operacionais exigentes.

"Tekever está no radar da Rússia há bastante tempo"

Em declarações à CNN Portugal, o tenente-general Marco Serronha considera que a captura deste drone português pela Rússia representa um desafio importante para a empresa nacional, sobretudo ao nível da proteção dos sistemas eletrónicos e das comunicações. 

"A Tekever está no radar da Rússia há bastante tempo. Há cerca de dois anos, as autoridades militares russas chegaram a deixar um aviso à empresa, dando a entender que sabiam onde se localizavam as suas instalações”, começa por lembrar, salientando que esta “foi uma forma de colocar a Tekever sob pressão psicológica, à semelhança do que fazem com várias empresas ocidentais."

Depois de caputado o material, o principal interesse russo passa agora por analisar a tecnologia incorporada no aparelho, segundo Marco Serronha.

"O que vão fazer é investigar aquilo que consideram mais interessante do ponto de vista da aerodinâmica e dos sistemas do payload", referiu, acrescentando que, a partir deste momento, a empresa portuguesa terá de introduzir alterações. "Os russos estão na posse das frequências que são utilizadas para esta instalação do drone", alertou, defendendo que será necessário reforçar os sistemas de comunicações, de cifra e as contramedidas eletrónicas.

À CNN Portugal, o também comentador destacou ainda que a grande vantagem do AR3 reside precisamente na plataforma desenvolvida pela empresa portuguesa. "A Tekever sempre foi conhecida por produzir excelentes plataformas", sublinhou, referindo que o drone combina "pouco peso e pouco sinal eletrónico, mas com grande capacidade de vigilância", explicando ainda que a empresa portuguesa conseguiu reforçar a componente militar da aeronave através da colaboração com parceiros britânicos, estabelecida logo no início da guerra na Ucrânia.

Uma surpresa para os militares

Quase desconhecido fora dos meios militares, o drone português ganhou destaque internacional esta segunda-feira após um episódio registado na guerra na Ucrânia.

Segundo a agência russa Tass, que cita o comandante do batalhão responsável pela operação, a aeronave, quando abatida, apresentava "uma estrutura diferente na cauda e nas asas", tendo sido identificada no local como um drone de reconhecimento português.

"É importante abater os drones de reconhecimento. Em primeiro lugar, traçam rotas para os drones inimigos voarem. Em segundo lugar, estão à procura das nossas posições para poderem atacar lá mais tarde", afirmou "Prizrak", das forças russas.

De acordo com o mesmo responsável, apesar de o motor ter ficado danificado, "a fuselagem, o equipamento de bordo e a maior parte da estrutura permaneceram intactos".

Depois de abatido, o aparelho foi encaminhado para um instituto de investigação russo, onde especialistas irão analisar o seu desenho, especificações técnicas e soluções de engenharia. Ainda segundo a Tass, o AR3 foi detetado pelos radares e perseguido durante cerca de meia hora.

O batalhão explicou que a interceção foi dificultada pelo facto de o drone voar de forma constante a cerca de 2,5 quilómetros de altitude e a uma velocidade entre 90 e 100 km/h.

"Na aproximação final, a bateria do Fox estava a ficar fraca, mas a tripulação conseguiu intercetar e destruir a aeronave de reconhecimento portuguesa", acrescentou o responsável.

Relacionados

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Europa

Mais Europa