Exclusivo: "Tinha 9 anos quando começou a abusar de mim". O relato que chegou ao Bispo José Ornelas

1 out, 20:21

A TVI/CNN Portugal teve acesso a um depoimento chocante de uma alegada vítima de pedofilia por um padre italiano em Moçambique, visado na denúncia enviada há mais de 10 anos ao atual bispo de Leiria-Fátima, Dom José Ornelas, à época chefe máximo da congregação dos dehonianos

“Doía, eu chorava, chorava”. O relato é de uma das vítimas de abusos sexuais por um padre italiano em Moçambique, visado na denúncia enviada há mais de 10 anos ao atual bispo de Leiria-Fátima, Dom José Ornelas Carvalho, à época chefe máximo da congregação dos dehonianos.

“Foi num domingo, foi no quarto dele, ele mandou todos os jovens…vocês estão bem, estão em forma, podem sair. Foi o primeiro dia em que ele me abusou”, afirma o jovem que foi vítima de abusos e que gravou o seu testemunho no leito da morte, o ano passado. É a única vítima que decidiu falar, todas as outras permaneceram em silêncio por medo.

 “Entrei no seminário com 9 anos, aí mesmo foi quando ele começou a abusar de mim sexualmente, quando eu entrei”, continua esta vítima, cuja queixa chegou ao bispo Ornelas de Carvalho.

À TVI/CNN Portugal, João Oliveira, o autor da denúncia ao bispo, confessa que os jovens abusados foram obrigados a tomar uma decisão impossível. “Como é que se pode pedir a uma criança, num sítio em que a escolha é ser abusado sexualmente ou ficar na rua e morrer à fome. Como é que se pode pedir a uma criança destas que tenha a coragem de vir a público dizer que o padre que lhe dá de comer, que o padre lhe oferece a ilusão da escola e a ilusão de um futuro melhor o está a fazer mal”, afirma.

João Oliveira garante que, ao todo, são 40 casos de abusos de menores e sublinha que os contornos são aterradores. “Há um  que descreve, com 9 anos, que foi mantido sem comida, durante dois dias e, depois, chamaram-no para o quarto do padre. Antes de poder comer, teve de ser abusado”.

A primeira queixa chegou ao bispo português, por escrito, em 2011. No entanto, três anos mais tarde, Ornelas Carvalho reiterava, numa entrevista, que não sabia de qualquer denúncia. “Denúncias de abusos menores nessas comunidades, pelo menos no meu tempo de gestão da congregação, a mim não chegaram”, afirmou ao jornal Público, em 2014.

As cartas a que a TVI/CNN Portugal teve acesso, após a denúncia de casos de abusos sexuais na congregação dos dehonianos, são reveladoras daquilo que foi feito. Numa delas, a congregação que foi palco de abusos sexuais responde que agradece “os alertas que você lança sobre qualquer eventual abuso de menores, embora em relação aos nomes por si mencionados, nada de concreto tenha sido notado”.

Ou seja, depois da denúncia, nunca foi referido que as suspeitas tinham sido enviadas às autoridades competentes para investigar denúncias de crime de abusos sexuais. Os casos denunciados ao bispo Ornelas Carvalho terão sido geridos apenas internamente.

Dom José Ornelas alega que a queixa era apenas sobre um padre italiano que pertencia à congregação moçambicana e não à portuguesa. Mas a verdade é que a queixa original fala em mais do que um padre. Um deles, o padre Ilario Verri que pertencia à congregação portuguesa e era diretor da escola no Gurué.

Confrontado pelo autor da denúncia, o padre diz que é tudo baseado em suspeitas e fofocas.Certo é que acabou investigado pela justiça italiana, mas o caso foi arquivado, deixando muitas dúvidas por esclarecer.

Contactado pela TVI/CNN Portugal, o advogado de Padre Ilario Verri afirma que o caso “já acabou. E acabou da melhor maneira para o padre Verri”, mas questionado sobre se as vítimas foram ouvidas em tribunal, diz não saber e não estar disponível para prestar mais informações.

Já em Portugal, o caso passou pelas mãos da Procuradoria-Geral da República. O processo foi arquivado, não porque não tenha sido feita prova, mas porque "os crimes terão ocorrido em Moçambique, onde a lei portuguesa não é aplicável".

Agora, o processo chega ao Ministério Público pela mão de Marcelo Rebelo de Sousa. A procuradoria confirma a receção e diz que tanto o Ministério Público de Braga, como o Departamento de Investigação e Ação Pena de Lisboa estão a analisar.

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