ANÁLISE || A derrota do Benfica frente ao Bayer Leverkusen, esta quarta-feira, fez renascer o medo dos zero pontos na Champions, cenário que os encarnados viveram na época 2017/18. No ano passado, com Lage ao comando, foi bastante diferente. Porquê?
“Já aconteceu isso no passado, com o Rui Vitória. Não é nenhuma novidade neste momento”, diz Maniche, comentador da CNN Portugal. Para o ex-internacional português, a pré-época curta, condição imposta pela participação no Mundial de Clubes, pode ajudar a explicar os maus resultados na prova milionária.
“A pré-época é extremamente importante para reforçar dinâmicas, para fazer experiências, para dar mais ritmo competitivo a todos os jogadores, impulsionar o relacionamento entre pares”, afirma Maniche, que conquistou a Liga dos Campeões em 2004. “O Benfica não teve isso. Teve só dez dias de férias. Depois veio uma série de jogos intensos, com a Supertaça e o acesso à Champions. Os jogos na Liga Portuguesa ainda dão para disfarçar algumas coisas, porque a intensidade e a exigência não são tão grandes como na Champions. Mas quando jogas contra equipas fortes… podem não ter tanta qualidade, mas noutros aspetos são superiores às equipas portuguesas.”
Bruno Andrade, também comentador da CNN Portugal, destaca o planeamento mal conseguido por parte dos encarnados para 2025/26. “Não há planeamento e coerência no trabalho. Porque, mais uma vez, montam um plantel para um treinador, Bruno Lage, que, logo no início da temporada, acaba por ser demitido - assim como já havia acontecido com Roger Schmidt”, diz Bruno Andrade. “Mesmo tendo investido mais de 100 milhões de euros no mercado, o grupo é novamente desequilibrado. Há lacunas gritantes. A culpa, neste caso, é muito mais da estrutura do que propriamente de treinadores e jogadores.”
Os resultados desta época diferem assinalavelmente dos de 24/25, quando o Benfica de Bruno Lage registou quatro vitórias na fase de liga e conseguiu chegar aos oitavos de final. Para Sofia Oliveira, explicar a diferença de resultados é “difícil”.
“Na Champions de 2024/25, o Benfica venceu jogos que podia perfeitamente ter perdido - os três com o Mónaco, por exemplo. Ontem, frente ao Leverkusen, perdeu e podia perfeitamente ter vencido. Analisar os problemas do Benfica, ou de qualquer outra equipa, passa por colocar o resultado de lado e olhar para o que é que o coletivo é mais ou menos capaz de fazer dentro de campo”, diz a comentadora da CNN Portugal, que considera que os encarnados são agora piores do que no tempo de Bruno Lage.
“O Benfica de Bruno Lage era uma equipa que especulava muito com o jogo, preparava-se, acima de tudo, para condicionar a construção do adversário, de forma a roubar a bola e verticalizar imediatamente o jogo - Lukebakio é o novo Aktürkoglu. Não obstante, se o adversário tivesse variabilidade na construção, como foram os casos do Feyennord, do Bolonha ou do Barcelona, a equipa sentia muitas dificuldades, sendo relativamente fácil bater o plano de Lage, invadir o corredor central e chegar às costas dos médios. Por outro lado, contra equipas pouco capazes nesse momento, como foram a Juventus ou o Atlético de Madrid, o Benfica era capaz de castigar em transições rápidas, sentindo sempre dificuldades quando estava em ataque posicional”, detalhou.
“Mudaram-se jogadores, equipa técnica, mas os problemas continuam a ser basicamente os mesmos. Os pontos menos maus e os maus são muito parecidos, só que, como o clube alterou o perfil de bastantes jogadores do 11 base, saltam à vista características individuais distintas. O Benfica é um clube sem rumo, a navegar à vista e isso reflete-se dentro de campo.”
"Honestamente, não surpreende"
Bruno Andrade não isenta totalmente o técnico do Benfica de culpa pelo mau momento europeu. “É muito bem pago. Não é o maior culpado, mas tem parte da culpa, até porque o Benfica dele evoluiu muito pouco face ao Benfica de Bruno Lage. Honestamente, não surpreende. O Mourinho de hoje já não é o Mourinho dos tempos áureos. É dono do mesmo currículo e da mesma história, mas vive hoje noutra realidade. Mas, como disse, a culpa maior do insucesso é da estrutura."
Maniche é mais brando com o duplo vencedor da Champions, que “não montou o plantel do Benfica” e, por isso, não tem um grupo de jogadores à sua imagem.
“O plantel foi planeado para o sistema de jogo, ideia e perfil de Bruno Lage. Até o próprio admitiu que foi ele que ajudou a construir, pela primeira vez, a equipa, o plantel. Talvez se o Mourinho começasse no primeiro dia não escolheria, provavelmente, alguns dos jogadores que o Benfica escolheu, como o lateral esquerdo (Samuel Dahl).”
No entanto, Maniche sublinha que Mourinho “já sabia para onde é que iria”, apesar de não ter “a perceção das dificuldades de quem está lá dentro".
Sofia Oliveira, que considera que o futebol de Mourinho “é limitado há muitos anos e não se coaduna com uma equipa que quer ser dominadora”, aponta o dedo a “quem o escolheu”.
“Quem treina o Benfica arrisca-se sempre a ganhar porque tem ao seu dispor jogadores de qualidade e um campeonato inclinado a favor dos ‘três grandes’. Agora, quem dirige o Benfica tem de definir como é que quer fazê-lo e eu não acho que Bruno Lage ou José Mourinho preencham o perfil certo para encaixar numa equipa que se quer grande”, conclui.