Ex-presidente do BESI "mantém versão": Salgado disse ter influência sobre Sócrates, mas sobre Governo "já é dedução do tribunal"

19 jun, 23:09

 

 

 

Numa entrevista exclusiva à CNN Portugal, José Maria Ricciardi reitera que o primo Ricardo Salgado o informou sobre a influência na nomeação de Manuel Pinho para ministro da Economia, junto de José Sócrates

Quase um ano depois de ter sido ouvido como testemunha no julgamento do caso BES, no qual alegou ter sido informado por Ricardo Salgado de que este teria influência junto de José Sócrates para nomear Manuel Pinho como ministro da Economia, o ex-presidente do Banco Espírito Santo de Investimento e primo do ex-banqueiro diz agora em entrevista à CNN Portugal que “mantém” a versão.

Questionado sobre a possibilidade de ter havido influência de Salgado junto do governo socialista à data, José Maria Ricciardi responde apenas que “isso já é uma dedução do tribunal”. “Eu limitei-me a dizer aquilo que ouvi, não faço considerações sobre as consequências que o tribunal tirou dessas minhas afirmações”, continua.

A propósito da condenação de Manuel Pinho e Ricardo Salgado a 10 e seis anos de prisão respetivamente, no início deste mês, o economista assume não ter consciência de que o seu testemunho “tinha sido considerado tão importante pela juíza” que redigiu a sentença, mas defende a credibilidade dos tribunais que “fazem sempre justiça”.

Também “foi a Justiça que funcionou” na recuperação do seu património, há pouco mais de um mês, afirma. Recorde-se que Ricciardi e mais cinco ex-gestores do BES e do GES venceram uma batalha judicial contra o Fundo de Recuperação de Créditos – Papel Comercial Espírito Santo Internacional e Rio Forte, que tinha avançado com uma providência cautelar. A decisão da 8.ª Secção do Tribunal da Relação de Lisboa permitiu o levantamento dos bens arrestados preventivamente.  

Sobre as alegadas dificuldades financeiras da família Espírito Santo, o economista reconhece que “já não é o que era”, mas que “comparado com a maioria dos portugueses vivem muito bem”. Admite ainda que desde “os acontecimentos” nunca mais falou com o primo e que atualmente vê a vida “de maneira diferente”: “Não lhe desejo mal nenhum, apesar de estar muito triste com a destruição de um grupo que tinha 150 anos e que primava pela seriedade e pela honestidade. Os investidores acreditavam em nós, não digo de uma forma cega, mas quase.”

Ainda que tenha admitido anteriormente em tribunal que era difícil contestar o primo, nega à CNN Portugal ter sido ameaçado de demissão. Mas reitera que essa esteve em cima da mesa, tendo sido inclusivamente preparado o Conselho de Administração: “A ideia era demitir-me de todos os cargos que eu tinha por justa causa, sem direito a absolutamente nada, nem reformas.” Conta que depois de uma conversa com Ricardo Salgado, “ele retrocedeu” e não o demitiu.

José Maria Ricciardi poderá ser uma das principais testemunhas no julgamento de Ricardo Salgado, que só tem início em setembro, mais de dez anos depois da queda do Banco Espírito Santo. Face à morosidade da Justiça neste processo, o ex-gestor entende que seja “muito complexo”, “com grandes engenharias financeiras” e “muita gente”. “Há quem diga que era melhor fazerem-se processos mais pequenos, mas também há quem diga que as provas estão de tal maneira interligadas que se partirem os processos fica um bocado complicado”, analisa. “Essa equipa de procuradores, mais elementos do Banco de Portugal, da CMVM e da Autoridade Tributária fizeram essa investigação em seis anos, ter demorado mais quatro depois da acusação já não sei dizer porquê.”

Mas dos 65 crimes imputados a Ricardo Salgado – associação criminosa, corrupção ativa, falsificação de documentos, burla qualificada, branqueamento, manipulação de mercado, etc. – mais de 40 podem prescrever até 2025. O ex-presidente do BESI assume que “não tinha noção dessa prescrição”, mas espera “que não se verifique” e volta a defender a Justiça: “Compreendo as dificuldades que um processo deste tamanho ponha ao nosso sistema judicial com os códigos que existem.”

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