José Eduardo Santos terá ficado 16 horas sem comer e não foi assistido após paragem respiratória: estas são as acusações de Tchizé dos Santos

9 jul, 15:57

Em comunicado, a equipa de advogados da filha de José Eduardo dos Santos apresenta as "evidências" que demonstram o modo negligente como o pai foi tratado nos últimos meses pela mulher, Ana Paula, acusando-a ainda de impor a sua presença quando o antigo presidente já estava bastante doente

Tchizé dos Santos, filha do antigo presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, não tem dúvidas de que a morte do seu pai foi "favorecida" pela atuação da sua última mulher, Ana Paula, pelo médico que o acompanhava, e por "outras figuras próximas do governo angolano". Num comunicado divulgado este sábado pela sua equipa de advogados, Tchizé acusa Ana Paula de se ter mudado "coercivamente" para casa de Dos Santos, cinco anos após a separação, e de não lhe prestado os devidos cuidados médicos - houve uma vez, inclusivamente, em que ele terá ficado 16 horas sem comer e outra vez não foi assistido quando sofreu uma paragem respiratória, acusa o documento. 

Foram estas "evidências" que levaram a que no dia 4 de julho  a filha de José Eduardo dos Santos tivesse apresentado queixa às autoridades espanholas pelos crimes de tentativa de homicídio, omissão do dever de assistência, lesões por negligência grave e divulgação de segredos por pessoas próximas ao pai. 

O regresso de Ana Paula e o médico de "confiança"

Desde que José Eduardo dos Santos estabeleceu sua residência em Barcelona, ​​​​"viveu permanentemente na companhia de pessoal médico e de enfermagem e outras pessoas que cuidavam das tarefas de limpeza e culinária. Por sua vez, os filhos visitavam-nos com frequência, para que nunca estivesse sozinho", começa por explicar Tchizé.

Já a mulher, Ana Paula, "não visitou Dos Santos em Barcelona desde sua separação em 2017 até abril de 2022. Nem tentou visitá-lo ou se preocupou com sua saúde quando Dos Santos foi submetido a uma cirurgia de emergência no centro médico Teknon em 2019, nem durante os seus internamentos no Dubai em 2020 e 2021", lê-se no comunicado. Além disso, o antigo presidente angolano, "apesar do seu grave estado de saúde, impediu Ana Paula de entrar na sua residência em Angola durante o natal de 2021", recusando assim qualquer tentativa de reconciliação entre os dois.

Já o médico que acompanhava José Eduardo dos Santos, referido no documento apenas como "doutor Afonso", que vivia numa residência a poucos metros do José Eduardo dos Santos, era considerado de confiança pelo antigo presidente. "No entanto, soube-se que é um alto funcionário do exército angolano, e que é pago pelo atual governo de Angola, como o próprio ministro angolano afirmou perante os meios de comunicação internacionais à entrada do Hospital Teknon".

Em setembro de 2021, Dos Santos regressou a Angola e, nessa altura, "por razões inexplicáveis ​​e de uma forma totalmente inédita e surpreendente", diz a família, "piorou consideravelmente, tornando-se um velho completamente incapacitado, incapaz de se defender sozinho, necessitando de cadeira de rodas para se deslocar e permanentemente em necessidade de ajuda". Consequentemente, o ex-líder teve de regressar a Barcelona em Março de 2022 para continuar com o tratamento. "É inexplicável que o seu médico pessoal que o deveria ter acompanhado não protegeu a situação, aparentemente o Dr. Afonso estava coincidentemente com a sua família em Portugal apesar de ser obrigado a visitar a casa de Dos Santos diariamente. O diagnóstico oficial do Dr. Afonso foi anorexia nervosa, diagnóstico que os médicos de Barcelona descartaram", descreve o comunicado.

Apenas um mês depois do seu regresso a Barcelona, ​​em abril de 2022, Ana Paula visitou o marido e, após cinco anos de afastamento, acabou por se mudar para a sua residência. "A entrada da sra. Ana Paula na casa de Dos Santos foi imposta coercivamente e foi desde que Ana Paula chegou a Barcelona e se instalou na casa de Dos Santos que a sua saúde piorou gravemente, com as suas capacidades físicas, mas também a sua habilidades cognitivas e volitivas, a serem cada vez mais afetadas, até que ele acabou em terapia intensiva no Hospital Teknon".

Negligência ou propositada falta de cuidado?

Desde a chegada de Ana Paula, as visitas dos filhos de Dos Santos e o seu acesso aos dados médicos foram restringidos. A mulher instalou-se na casa do antigo presidente com os filhos, a nora, o genro, os netos e todo o seu pessoal de serviço, "garantindo assim o isolamento de José Eduardo dos Santos da restante família". lê-se no comunicado.

Além disso, a ainda mulher reduziu o tratamento de fisioterapia muscular e respiratória do marido e cancelou as visitas da equipa médica espanhola nos dias 4 e 12 de maio, no momento mais delicado da saúde de Dos Santos.

Finalmente, a filha de José Eduardo dos Santos refere a ligação próxima de Ana Paula ao atual presidente angolano, João Lourenço, a quem passava informações sobre o estado de saúde do antigo presidente.

"Em Maio, a Presidência angolana, através do dr. Afonso, publicou uma nota supostamente assinada por Dos Santos, na qual afirmava que apenas o seu médico pessoal estava habilitado a falar da sua saúde (...). No entanto, a assinatura de Dos Santos na referida declaração é quase ilegível. Além disso, naquela época, o Sr. Dos Santos estava em um estado de saúde muito debilitado (na verdade, ele não conseguia nem comer sozinho), fato que indica não só que ele poderia não ter entendido o conteúdo do documento assinado, mas também que a dita assinatura teria sido falsificada pelo Dr. Afonso".

Finalmente, os familiares que puderam visitá-lo desde o final de abril de 2022 alertaram para situações de falta de cuidados a José Eduardo dos Santos. A filha revela que ele não estava a ser alimentado de acordo com os protocolos médicos e apesar do seu estado extremamente magro chegou a estar 16 horas sem comer.

"Os familiares estiveram presentes durante episódios de extrema dificuldade respiratória, em que Dos Santos não foi levado ao hospital, nem foi visitado pessoalmente pelo Dr. Afonso", acusam.
 
"Em 23 de junho de 2022,  Dos Santos sofreu uma paragem respiratória, supostamente enquanto estava sozinho na casa de banho e um dos seus cuidadores esperava-o do lado de fora. Ana Paula estava em casa. A paragem respiratória levou à paragem cardíaca. A paragem cardíaca resultou na morte encefálica de Dos Santos. Este resultado é uma indicação de que a paragem respiratória foi muito mais longa do que o relatado aos serviços médicos espanhóis. O pessoal de serviço afirmou que Dos Santos apresentava um quadro grave de insuficiência respiratória desde o dia anterior. Apesar disso, Dos Santos não foi transferido para o hospital nem foi assistido no domicílio."

Após este incidente, Ana Paula "manifestou o seu claro interesse em se assumir como esposa legítima de Dos Santos para tomar a decisão de desligar os suportes de vida que o mantinham vivo e transferir o seu corpo para Angola, apesar de não ter nenhum direito em Espanha por estar separada de facto por cinco anos e o casamento não estar registado em Espanha. Isso, aliás, contraria a opinião da filha queixosa e de seus irmãos".

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