Filhos mais velhos de José Eduardo dos Santos aceitam funeral nacional, mas só depois das eleições. E querem ser perdoados

Agência Lusa , FMC
19 jul, 10:45
José Eduardo dos Santos

Isabel, Zenu, Tchizé, Joess e Coreon Dú assinam a carta, na qual pedem ainda um mausoléu para acolher os restos mortais do pai

Os filhos mais velhos do ex-presidente angolano José Eduardo dos Santos comprometeram-se esta terça-feira a colaborar na realização de um funeral nacional, mas após as eleições de 24 de agosto. E querem também ser perdoados pela justiça.

Numa carta subscrita por cinco dos seus descendentes - Isabel, José Filomeno “Zenu”, Welwitschea “Tchizé”, Joess e José Eduardo Paulino “Coreon Dú”, os filhos do antigo presidente expressam “profunda gratidão ao povo de Angola” e a todos os que partilham a sua tristeza, pedindo respeito pelo luto.

“Seja qual for o resultado das próximas eleições, no futuro, nós, a família, junto das instituições e do presidente eleito, colaboraremos na união da Nação e a organizar com tempo necessário as condições para homenagem e o funeral nacional do Pai da Nação, o nosso pai, Eng. José Eduardo dos Santos, para que um dia este em dignidade e respeito descanse em paz na terra dos seus antepassados”, prometem os filhos mais velhos, na carta, pedindo ainda um mausoléu para os restos mortais.

“Nós, os filhos do Eng. José Eduardo dos Santos, apelamos a todos a respeitarem os nossos costumes, os nossos valores ancestrais e as nossas crenças religiosas. O nosso pai tem esse direito e ninguém o pode contestar”, apelam, salientando que na tradição africana o tempo de luto é “um tempo de reflexão e reconciliação”.

A família de José Eduardo dos Santos, que faleceu no passado dia 8 de julho em Barcelona, e o governo angolano estão envolvidos numa disputa judicial quanto à entrega e trasladação do corpo de ex-chefe de Estado, que tem oito filhos, de cinco mulheres.

De um lado, estão os cinco irmãos mais velhos que, nesta carta, rejeitam celebrar as exéquias antes das eleições em Angola, onde correm processos judiciais contra Isabel dos Santos; do outro está a viúva e mãe de três outros filhos de José Eduardo dos Santos, Ana Paula dos Santos, que estava afastada do marido há alguns anos, ressurgindo a seu lado nos últimos meses.

Ana Paula dos Santos foi a interlocutora do executivo quando o marido se encontrava internado na clínica de Barcelona, onde acabou por falecer, e é apoiada pelo governo angolano que pretende fazer um funeral de Estado em Luanda, mas viu chegar ao fim os sete dias que decretou para o luto nacional sem a presença do corpo no velório, estando dependente da decisão dos tribunais espanhóis.

Filhos pedem amnistia geral e fim dos processos judiciais

Os filhos mais velhos dizem também que “chegou o momento de pedir desculpa” e pôr fim aos processos judiciais, defendendo uma lei de amnistia geral.

Alguns dos filhos de José Eduardo dos Santos, nomeadamente a mais velha, a empresária Isabel dos Santos e o seu irmão José Filomeno dos Santos “Zenu”, bem como colaboradores próximos do ex-presidente, como os generais “Dino” e “Kopelipa” enfrentam processos nos tribunais angolanos, o que no entendimento de alguns analistas é visto como uma justiça seletiva.

O presidente Joao Lourenço, que recebeu o poder das mãos de Eduardo dos Santos e tomou posse em setembro de 2017, elegeu a luta contra a corrupção como a principal bandeira do seu mandato e tem negado a seletividade dos tribunais angolanos, dizendo que o critério é se foram ou não cometidos crimes e que vai continuar a tentar recuperar os ativos do Estado que foram desviados.

Na carta os filhos salientam que José Eduardo dos Santos se retirou voluntariamente dos assuntos públicos, implementando os “mecanismos para uma mudança democrática e pacífica de liderança”.

No entanto, escrevem, “em vez de uma reforma pacífica e merecida, enfrentou silenciosamente ataques que visavam destruir a sua imagem e o seu trabalho político e social”, uma injustiça que “levou à divisão da sociedade e ao enfraquecimento do país”.

“Para restaurar a unidade e a harmonia nacional, chegou o momento de pedir desculpa e de reparar os danos causados ao incansável Arquiteto da Paz [José Eduardo dos Santos]”, sugerem os cinco subscritores da carta.  

Aferem, por isso, que a consolidação do legado político do que apelidam de “Pai da Nação” exige a adoção de uma lei de amnistia geral e o fim dos processos judiciais e institucionais contra muitos angolanos.

“Todos devem ser convidados a participar ativamente e a dar o seu melhor para a construção do seu país, Angola”, escrevem os cinco filhos mais velhos, apelando ao respeito pelo luto e comprometendo-se a colaborar na realização de um funeral nacional após as eleições.

Atualmente, Isabel dos Santos enfrenta processos cíveis e criminais em Angola onde em dezembro de 2019, o Tribunal Provincial de Luanda decretou o arresto preventivo de contas bancárias suas, do seu marido, o congolês Sindika Dokolo (entretanto falecido), e do português Mário da Silva, e de várias empresas nas quais detém participações sociais, por alegados negócios que terão lesado o Estado angolano em valores superiores a cinco mil milhões de dólares (4,87 mil milhões de euros).

A empresária vive fora de Angola há vários anos, tal como a sua irmã Tchizé, ex-deputada do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA, no poder) e detentora de vários negócios em Luanda, cujo mandato foi suspenso em 2019, devido a ausências prolongadas e reiteradas nas reuniões plenárias, que justificou com o facto de ser vítima de perseguição e ameaças de morte.

“Zenu”, ex-presidente do Fundo Soberano de Angola, aguarda em liberdade a decisão sobre o recurso que interpôs para se livrar da sentença de cinco anos de prisão a que foi condenado, em 2020, por burla e defraudação, peculato e tráfico de influências, no âmbito do caso conhecido como "500 milhões de dólares".

Mais recentemente, foram notificados, no mesmo dia em que José Eduardo dos Santos morreu, os generais “Dino” e “Kopelipa” acusados de vários crimes entre os quais os de peculato, associação criminosa e branqueamento de capitais, num processo que envolve várias empresas, entre as quais a petrolífera Sonangol.

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