"Angola ainda tem fome". Amnistia Internacional sobre o legado "muito pobre" de José Eduardo dos Santos

8 jul, 20:20
José Eduardo dos Santos (Tiago Petinga, Lusa)

Organização lembra episódios concretos e fala em repressão de direitos políticos e cívicos, além de questões culturais

“Repressão”. É desta forma que a Amnistia Internacional se refere aos 38 anos de José Eduardo dos Santos como presidente de Angola, um legado que chegou ao fim em 2017, numa vida que terminou esta sexta-feira, depois da confirmação da morte do antigo chefe de Estado, que estava há vários dias internado numa clínica em Barcelona.

À CNN Portugal, o diretor-executivo da Amnistia Internacional Portugal começa por lamentar a morte do antigo estadista, mas lembrou de seguida os vários direitos que foram negados aos cidadãos angolanos naquele período. “É um balanço negativo, muito pobre”, diz Pedro Neto, recordando que o antigo presidente esteve presente na guerra civil angolana.

“Exerceu sempre o cargo sem eleições até 2012, quando as eleições foram muito duvidosas”, acrescenta, recordando que estava em Angola na altura da campanha, tendo testemunhado várias situações duvidosas como a oferta de eletrodomésticos por parte do partido de José Eduardo dos Santos à população, incluindo em locais onde não havia eletricidade.

Pedro Neto aponta ainda o “medo de falar” da população, que “quem o fizesse ia preso” e dando mesmo os exemplos de vários “prisioneiros de consciência” como Marcos Mavungo, que foram perseguidos e reprimidos em Cabinda, território onde “continuam detenções arbitrárias e a tortura”.

Mas o responsável recorda também a detenção de Luaty Beirão, preso na rua quando estava a ler um livro, mencionando aquilo que considera ter sido uma “repressão atroz nesse tempo”.

Em paralelo Pedro Neto sublinha o problema da fome, que “ainda não se resolveu”, apesar de ser um “país tão rico e com tantos recursos naturais”.

“José Eduardo dos Santos e a família enriqueceram com essa governação e com esses recursos que são do país, mas o povo continuou a ter muitas necessidades. Angola ainda tem fome”, afirma, esperando que João Lourenço faça um trabalho melhor.

Questionado sobre a ida do Presidente da República de Portugal ao funeral de Estado de José Eduardo dos Santos, Pedro Neto compreende um “momento protocolar” por parte da Presidência, mas não sem deixar um apelo a Marcelo Rebelo de Sousa: “Que não deixe de falar de direitos humanos, como sabemos que o faz.”

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