José Carlos Malato assume-se não-binário: "A minha identidade de género e expressão de género não são limitadas ao masculino e feminino"

CNN Portugal , MJC - Atualizada às 8:20 de 02-09-22
1 set, 13:52
José Carlos Malato

Numa publicação no Instagram, o apresentador explica que acredita que todos os seres humanos têm em si a dualidade masculino/feminino

O apresentador de televisão José Carlos Malato usou a sua conta de Instagram para fazer um esclarecimento sobre a sua identidade de género e assumir-se como não binário. "Ser não-binário é uma questão de princípio ativista, pelo menos para mim. Acredito que a dualidade masculino/feminino ou outro está presente nos seres humanos apesar da cultura fascista e da sociedade patriarcal a tentarem esmagar", explica. "Isso significa que a minha identidade de género e expressão de género não são limitadas ao masculino e feminino. Estão para além desse espartilho maniqueísta."

Malato explica que, por exemplo, na linguagem, há situações em que se identifica mais com o género feminino mas noutros prefere usar o masculino. "Esse não-binarismo está até presente nas insondáveis palavras do Papa João Paulo I quando afirma que 'Deus é pai e mãe'", refere.

 

"Género não-binário" é o termo utilizado por quem não se identifica nem com o género feminino, nem com o género masculino. De acordo com a LGBT Foundation, as "pessoas não-binárias podem escolher ser tratado com o pronome ele ou ela ou preferir um pronome de género neutro". 

Várias celebridades têm usado as redes sociais para revelar a sua identidade de género, tal como fizeram Demi Lovato no Twitter, em 2021, e Sara Ramirez no Instagram, em 2020. Os cantores Sam Smith e Janelle Monae também assumiram publicamente que são não-binários, ou seja, que não se encontram na divisão binária de género homem/mulher. 

“A identidade de género é uma autoatribuição, ou seja, diz respeito ao processo subjetivo através do qual uma pessoa designa uma identificação de si, que traduz o conhecimento da sua experiência e vivência em determinada categoria”, esclareceu à CNN Portugal Daniel Seabra, psicólogo clínico e membro colaborativo no CINEICC - Centro de Investigação do Núcleo de Estudos e Intervenção Cognitivo-Comportamental da Universidade de Coimbra. 

A importância de falar deste tema: o combate à desinformação e à discriminação

O apresentador tem consciência de que tem uma voz pública e que, com estas declarações, pode contribuir para dar visibilidade ao não-binarismo e combater a discriminação de género: "O meu ‘não-binarismo-pessoal’ é uma forma de dar representação e visibilidade a todos/todas/todes que sentem/são assim! É o meu dever enquanto megafone que detém algum poder de fala na sociedade portuguesa", defende. E conclui: "É também uma demonstração de empatia com todes os que sentem como eu e um manifesto contra todas as formas de discriminação e violência que muit@s sofrem/sofremos todos os dias! Numa era marcada pelo terrorismo das redes sociais! Ninguém pode ser quem não é. E ser quem se é não prejudica ninguém. E a mais ninguém diz respeito! Disse!".

Segundo o psicólogo Daniel Seabra, que publicou recentemente com Jorge Gato e Daniela Leal o estudo When home is not a safe haven: Effects of the COVID-19 pandemic on LGBTQ adolescents and young adults in Portugal, uma maior visibilidade nos media pode contribuir para que uma criança ou jovem trans ou não-binários tome conhecimento desta realidade e perceba que “não é errada nem patológica, e que não é um desvio e nem tem de ser impeditivo de se ter sucesso”.  

Também a Rede Ex-Aequo, associação de jovens LGBTI e apoiantes, considera importante que figuras públicas, como José Carlos Malato, falem abertamente sobre estas questões: "A não-binariedade é uma questão que, infelizmente, muitos ainda consideram ser discutível em relação à sua "veracidade". A desinformação - intencional ou não - é sempre um entrave à educação da população acerca destes temas", explica à CNN Portugal. 

"É um caso que abre portas: sempre que se fala sobre o tema, este passa a provocar menos estranheza nas pessoas que o escutam. Ter pessoas como José Carlos Malato - que é uma referência fidedigna da televisão portuguesa para várias gerações - a falar sobre o tema é já uma vitória por trazer visibilidade ao assunto; ao assumir-se como tal, o impacto é ainda mais positivo por quebrar os tabus e os estereótipos discriminatórios frequentemente propagados (como por exemplo: 'que pessoas não-binárias são pessoas estranhas', ou 'que não existem', ou 'que pessoas não-binárias têm de ter necessariamente uma expressão de género andrógena', entre outros). José Carlos Malato é uma cara familiar e uma figura estimada pela população portuguesa, provando que a não-binariedade não é um assunto de 'outro mundo', mas que é algo bem próximo de todes e normal na natureza humana. Abrindo portas como esta, aos poucos, vai-se lutando contra a desinformação, criando um país mais educado para a inclusão."

 

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