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Quem já fez mais pelo combate à corrupção Dr. Ventura?

16 set 2025, 15:18

Vezes sem conta, o Chega, os seus mais destacados dirigentes e também o líder André Ventura usam a estratégia de diabolizar as empresas de media, os jornalistas e o jornalismo, algo que é também comum, mesmo que não seja inteiramente assumido, pela maior parte dos partidos políticos e da classe política em geral. Mas, com o Chega e outros extremados partidos espalhados pelo mundo, a estratégia e o intuito são perfeitamente claros e audíveis: os media tradicionais e os jornalistas são mais do que um alvo, são algo que convém desprezar, atacar e, porventura, extinguir já que deturpam a realidade e perpetuam o status quo.

O Chega usa ao extremo este confronto com jornais, rádios e televisões como forma de coesão interna e também para conquistar cada vez mais apoiantes, permitindo-se insistir na extraordinária ideia de que os jornalistas fazem parte de uma qualquer elite pensante que renega a vontade do povo, que se afasta daquilo que ele anseia e dos seus direitos omnipresentes. Tudo conceitos e práticas inauditas esquecendo que a quase totalidade dos jornalistas é o retrato fiel desse “povo português”, em termos sociais e socioeconómicos.

Longe do estatuto dos privilegiados que se apregoa por aí, os jornalistas são genericamente um grupo profissional com salários muito baixos (ao nível dos caixas de supermercados ou das empregadas de limpeza), com trabalhos por turnos e longas jornadas diárias e sem qualquer retribuição extra. São empregados por conta de outrem (ou freelancers e/ou com contratos precários) sujeitos a condições laborais bastante adversas num setor em crise (o mínimo que se pode dizer) e que lhes exige formação superior e até especializada. Além disso, todo o seu trabalho é escrutinado à lupa, pois é sujeito a verificações internas e contraditório externo e, não raras vezes, objeto de retaliações cíveis, criminais e outras que colocam em causa até a integridade pessoal do jornalista.

Dr. André Ventura, foram estes jornalistas elitistas que nos últimos “50 anos de corrupção”, como gosta o seu partido de apregoar dizendo-se o novo arauto do “Limpar Portugal”, investigaram e publicaram – e, muitas vezes, sujeitos a enormes pressões até nos próprios órgãos de informação – os grandes casos que levaram à queda de políticos de todos os quadrantes, que revelaram as histórias das fortunas escondidas de um sem número de empresários, que denunciaram abusos nos serviços de informações, no meio militar e na magistratura e nas polícias, que divulgaram a pertença a sociedades secretas ou discretas e trouxeram para a agenda nacional os abusos sociais ocorridos até em instituições tuteladas pelo próprio Estado.

Dr. Ventura, os seus anúncios de combate e “tolerância zero para a corrupção” são louváveis (como já o fizeram e fazem outros partidos políticos), mas nesse combate à criminalidade económico-financeira não há lições que possam ser dadas aos jornalistas por qualquer partido político. Todos os casos judiciais que o Chega usa para fazer propaganda tiveram na base notícias escritas por jornalistas. Foram os jornalistas que investigaram os esquemas financeiros de Macau, os sacos azuis dos ministérios, as tentativas de controlo da comunicação social, as mil e uma artimanhas dos clubes de futebol, os paraísos fiscais e o poder do dinheiro obscuro angolano, a criminalidade clientelar nas autarquias e os financiamentos bancários sem garantias, as redes de influência na maçonaria e na Opus Dei, as práticas nebulosas do setor bancário e dos donos disto tudo.

Foram os jornalistas que trouxeram a público o mundo das portas giratórias, que combateram os múltiplos obstáculos até legais à transparência, que conseguiram a confiança de um sem número de fontes e delatores que tudo tinham a perder. Foram os jornalistas que acabaram ameaçados, perseguidos (alguns até despedidos) e processados em muitos milhões de euros por publicarem dados comprovados e fatuais que, mesmo não sendo criminalmente relevantes, foram fundamentais para todos os cidadãos (inclusive o Dr. Ventura quando era comentador de futebol e não sabia muito bem em que partido militar) poderem estar informados. E assim exercerem, ou não, um juízo crítico sobre pessoas, empresas e outras entidades. Em Portugal e lá fora.

Todos sabemos que o discurso antimedia ou antijornalistas tornou-se moda e grassa nas redes sociais impulsionado por intuitos diversos, mas quase todos pouco louváveis em termos de uma democracia que se preze. Porque uma democracia liberal assenta na força das instituições de contrapoder e não no poder absoluto da moralidade e dos virtuosos que tolhem direitos em nome do povo para aniquilar quem pensa de forma diferente. E, nisso, nem sequer é a maioria do voto que deve ditar o silenciamento de quem está do outro lado.

Em todo o caso, o combate à criminalidade económico-financeira é um imperativo para o qual somos todos poucos. Será sempre bom ter mais políticos neste combate, mas políticos que não se limitam a medidas sobre o aumento de penas e prazos de prescrição de crimes ou a atirar borda fora os simpatizantes ou militantes especialistas em furtos de malas em aeroportos ou objetos em casas e igrejas. A prova será quando a corrupção tocar no topo do partido ou lá próximo, seja nas futuras autarquias ou até no governo, porque é inevitável que o poder traga abusos de monta. Aí se verá realmente como agirá quem usa como arma de arremesso a verdade, mesmo quando mente de forma despudorada. Aí se verá como agirá quem hoje já recusa o fact-cheking e ataca o jornalismo e o trabalho dos jornalistas acusando-os de serem um empecilho à limpeza de Portugal. Nessa altura, tenho a certeza que o jornalismo e os jornalistas continuarão a ser muito necessários.

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