Ameaças, algumas de morte, no digital. Intimidações e agressões em contexto de rua e reportagem. Assédio e bullying no interior das próprias redações. Um trabalho académico denuncia que 76% dos jornalistas já terá sofrido algum tipo de violência. A situação parece estar hoje em dia “normalizada”, entre os profissionais e na sociedade, isto apesar de a lei criminalizar os ataques aos jornalistas, que são crime público desde 2018. A internet veio agravar tudo
Jornalista, mulher, ainda jovem, década e meia a trabalhar. Encostaram-lhe uma pistola à cabeça:
— Queriam o meu computador portátil e a minha carteira de jornalista. Era claramente um aviso — relata.
Este é um dos episódios contados, todos sob condição de anonimato, mas representativos, no estudo “Quem Quer Ser Jornalista? Exposição dos jornalistas à violência no trabalho”, publicado em novembro e da autoria da investigadora Rita Araújo, do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho. Diz-nos a investigadora e a investigação que 76% dos jornalistas entrevistados já sofreu algum tipo de violência, física ou verbal, “online ou offline”, no decorrer do seu trabalho.
Apesar de a violência contra jornalistas ser crime público desde 2018 e de a Constituição garantir o direito à liberdade de expressão, informação e imprensa, a verdade é que com o apogeu das redes sociais e o extremar de posições políticas no discurso público, o jornalismo e os jornalistas encontram-se hoje especialmente “vulneráveis a situações hostis”, pode ler-se ainda no trabalho académico.
Portugal, segundo os Repórteres Sem Fronteiras, tem uma imprensa “robusta”. E ocupa hoje o 7º lugar no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa. Também segundo o “Digital News Report” do Reuters Institute, a liberdade de imprensa continuar a ser um “elemento fundamental da democracia portuguesa”. O trabalho da investigadora da Universidade do Minho, contudo, e pela primeira vez, expõe o risco da profissão em Portugal e diz que a violência “soma-se ao já extenso esforço emocional exigido aos jornalistas” e à precariedade profissional dos mesmos. Em risco parece estar a instituição jornalismo e a própria democracia, “que enfraquece ao silenciarem-se jornalistas”.
Ainda segundo este trabalho, as mulheres jornalistas sofrem um “duplo fardo”, sendo maior para elas a violência verbal e física, precisamente pela condição feminina, com formas mais severas de assédio — como ameaças de violação.
No entanto, da parte de jornalistas homens e jornalistas mulheres, explica a autora da investigação, “parece haver a normalização de certas atitudes contra jornalistas”. Também existe aquela mesma “normalização” fora, na sociedade. Dentro, na redação, alguns jornalistas entrevistados garantem já ter em algum momento sofrido “violência psicológica, através de intimidações ou bullying”, com implicações na saúde mental.
A violência contra jornalistas, como refere este estudo de Rita Araújo, já não está só “associada a zonas de guerra e regimes autoritários”, acontece nas democracias consolidadas e acontece em Portugal. O fenómeno da intimidação sempre terá ocorrido, mas hoje no digital (pela proximidade entre jornalistas e audiências) há um terreno fértil à intimidação, discurso populista e à censura. E muitos jornalistas fazem já, lê-se no trabalho académico, para evitar ser alvo de ataques, “autocensura".
"Violência contra jornalistas não é uma coisa de países subdesenvolvidos ou de regimes totalitários"
Porque sentiu a necessidade de realizar este trabalho, esta investigação académica?
Este estudo até vem na sequência de um estudo anterior, que fizemos [Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade] durante a pandemia, sobre o esforço emocional dos jornalistas. Ou seja, durante a pandemia, eu e outros colegas fizemos um inquérito aos jornalistas onde pela primeira vez perguntámos se, durante a pandemia, sentiam que tinha havido da parte deles, e durante o trabalho, um esforço emocional superior ao habitual. E as respostas dos jornalistas disseram de forma esmagadora que sim, que houve esse esforço. E a partir daí, decidi que era altura de explorar melhor o que é que isto queria dizer. Fui tentar perceber de onde é que vinha este esforço emocional. Portanto, quais eram os fatores com os quais os jornalistas se confrontavam na prática diária que contribuíam para esta carga emocional durante o trabalho. E um deles é, de facto, a questão da violência, que considero que é perigosa para o próprio jornalismo, para a democracia. Também é perigoso normalizar alguns comportamentos hostis por parte não só dos públicos, mas também das fontes, muitas vezes fontes organizadas com as quais se contacta, como da parte da própria sociedade. Há uma normalização em relação a todos estes comportamentos.
Já falaremos em detalhe da questão da normalização. Falando destas violências, plural, porque tanto são online como na rua, o estudo diz que sempre existiram. Num tempo mais primordial, os leitores, ou ouvintes ou telespectadores, escreveriam cartas inflamadas ou intimidatórias. Hoje em dia o jornalista é atacado de várias formas, em vários lugares — caixas de comentários, grupos de Telegram. A proliferação do digital, essa aparente liberdade que a maior parte das pessoas acredita ter, prejudicou o trabalho dos jornalistas? Expôs os jornalistas às violências?
Sim, claro que sim. Desde logo pela questão da anonimização dos comentários. E, portanto, muitas pessoas, sob a capa do anonimato, sentem-se mais à-vontade para abordar o jornalista, para insultar o jornalista, para ameaçar o jornalista. Uma coisa que vários jornalistas referiram, sobretudo jornalistas seniores, é que a passagem para o digital é a altura em que começaram a ter um maior contacto com os seus públicos. Portanto, eu diria que com as redes sociais ou com a questão do digital há uma maior proximidade entre o jornalista e o leitor, o que seria bom, mas, por outro lado, as pessoas para atacarem, para insultarem um jornalista já não têm de enviar uma carta ou deslocar-se à redação. E, portanto, antes havia uma maior barreira entre os públicos e os jornalistas. Hoje em dia o jornalista está mais acessível e podemos pesquisá-lo facilmente nas redes sociais, por exemplo. Seja que jornalista for. Nós ouvimos, por exemplo, um jornalista na rádio e facilmente o descobrimos depois no Instagram ou no Facebook. E, portanto, o acesso é mais facilitado. E isso abre a porta a uma série de comportamentos perigosos.
Ou seja, o jornalista que escrutina pode agora ser mais facilmente escrutinado. E isso até seria bom. Só que a linha que separa o escrutínio ao trabalho do ataque ao trabalho e à pessoa já terá sido completamente ultrapassada. Não?
Essa linha pode entrar no crime. Desde 2018 que é um crime público [o ataque ao trabalho dos jornalistas]. De qualquer forma, antes, na Constituição já estava plasmada a questão da liberdade de imprensa. Mas este problema pode ter várias camadas. Ou seja, por um lado, sim, haverá pessoas que não têm consciência de que é um crime público e de que podem ser responsabilizadas, até criminalmente, por insultarem pessoas, sejam elas jornalistas ou não, através das redes sociais. Por outro lado, o desconhecimento da lei não é justificação para incorrermos num crime. Temos também outra questão, que é a de pessoas com responsabilidades, nomeadamente atores políticos, que se sentem perfeitamente à-vontade para insultar os jornalistas nas redes sociais, por exemplo. E isto passa uma mensagem para a sociedade. Porque se temos um político com responsabilidade — no caso, vou dar o exemplo do presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira — que chamou imbecil a um jornalista nas redes sociais, e todos nós assistimos a isto, e vemos isto noticiado, e não percebemos que haja consequências de maior, então isto concorre para a tal normalização. Portanto, eu creio que é um problema com várias camadas. Há ainda a questão da polarização [na sociedade] e o crescimento de determinados movimentos, por exemplo, de extrema-direita, que contribuem para esta hostilidade. Nós vemos isso não só em Portugal, mas um pouco por todo o mundo.
Há uma situação que é ainda pouco conhecida e discutida que é a questão da violência escalar depressa do lado verbal para o lado físico. Isso acontece em contextos mais específicos, certo? Manifestações, eventos desportivos. E até há jornalistas, ouvidos na sua investigação, que se escusam a ir para tais contextos. É o que no seu trabalho denomina “autocensura”…
Há alguns contextos em que acontece [violência física], sim. Nas entrevistas, uma das questões que surgiu e uma das perguntas que eu fazia era precisamente sobre a autocensura. Autocensura, aqui, no sentido de não se sentirem livres o suficiente para cobrir algum evento. No fundo, de evitarem um risco. E muitos jornalistas acharam muito estranho eu perguntar sobre a autocensura e acharam que era um termo demasiado carregado. Mas não é. Uma coisa que, para responder à pergunta, me impressionou bastante foram os relatos de alguns jornalistas relativamente a agentes de autoridade, a polícias. E eu acho que alguns dos relatos que lá estão no artigo expressam bem também este receio que muitos jornalistas têm de ir para determinados sítios — por exemplo, para a cobertura de jogos de futebol —, não se sentem seguros pelos próprios agentes da autoridade que os deveriam proteger. E temos aqui vários jornalistas que dizem que têm de relembrar os polícias de que a violência contra os jornalistas é um crime público. Eu acho que isto mostra bem o clima, de medo até, que alguns jornalistas vivem na cobertura de determinados cenários.
Falámos das pressões exteriores. No digital ou em contexto de rua. Mas nesta sua investigação levanta outro problema, que é o da pressão em contexto de redação. Assédio, bullying…
Sim, esses foram relatos que me impressionaram bastante. E se reparar, todos os relatos que lá estão incluídos desse tipo são de jornalistas seniores. Outros, mais jovens, também os terão, mas não partilham. E isso está relacionado com uma outra questão, um outro problema, que é o da precariedade, e que está muito presente nas redações também. Jornalistas muito precários, com salários muito baixos, com contratos que muitas vezes não são estáveis, tudo isto concorre para esta instabilidade dentro da própria redação. Um jornalista que não está seguro no seu lugar estará muito mais sujeito, potencialmente, a este tipo de pressões superiores. Nomeadamente comerciais. Muitas vezes da parte das administrações. Mas voltando à resposta: uma das coisas que os jornalistas mais seniores relatavam era precisamente a mudança que sentiam em relação a algumas direções que há neste momento. Segundo eles, as direções estão hoje muito mais permeáveis às administrações. Administrações e administradores que não vêm do jornalismo, que não entendem a profissão de jornalista, e que, portanto, se sentem mais à-vontade para fazer determinado tipo de pedidos que não são compatíveis com aquilo que é o trabalho de um jornalista e com a autonomia editorial que uma redação deve ter.
No trabalho percebe-se também que esses jornalistas seniores de que me fala tendem a dizer aos jovens jornalistas para se habituarem, que vai ser assim, que vai haver violência e pressão, de dentro e de fora. É essa a normalização de que fala na investigação?
Sim, [habituação à] violência, sim, especialmente quando falamos de determinados cenários, como o exemplo dos jogos de futebol ou manifestações. Nas pressões, essas resultam de determinado tipo de fontes, determinados assessores, por exemplo. E há processos, movidos em tribunal, que também servem unicamente para condicionar o trabalho do jornalista. É também uma forma de pressão. Uma arma de arremesso. Tentam evitar que o jornalista publique determinado tipo de conteúdo. E sim, essa normalização muitas vezes começa dentro da própria classe, com os jornalistas mais velhos a avisarem os mais jovens de que determinadas coisas fazem parte da profissão. É assim, sempre foi assim, e vai continuar a ser. É passado de geração para geração e concorre para esta normalização.
Estou a deixá-la para o final, mas esta devia ser naturalmente uma pergunta cimeira. Grande parte das redações é composta de mulheres. No estudo diz-nos que as mulheres jornalistas sofrem um “duplo fardo”. Porquê?
As mulheres estão mais expostas, estão mais vulneráveis à questão da violência por esta dupla condição de serem mulheres e jornalistas. Portanto, geralmente, são vítimas de formas mais graves de assédio. E a violências, as ameaças, ameaças de morte, por exemplo online, têm uma natureza sexista. Ou seja, quando o jornalista é mulher, e várias mulheres jornalistas queixavam-se disso, a ameaçada ou o insulto, na maior parte das vezes, referem o seu aspeto físico. Ou dizem-lhes que deviam estar em casa, deviam estar na cozinha, ou deviam estar a cuidar dos filhos. Isto não acontece com os homens. De outro ponto de vista, tive mulheres, algumas editoras seniores, que contam que quando chegaram a determinas áreas, não foram aceites pelos seus pares. Nas redações há uma cultura de que o jornalista tem que ter uma capa, tem que ser duro, ter que desenvolver uma espécie de couraça, e à mulher é colocada a ideia de fragilidade, de vulnerabilidade. Ainda dentro da redação, há um relato, de uma jornalista sénior, que me impressionou bastante, porque ela conta como ao longo de toda a sua carreira se sentiu, no fundo, inferiorizada dentro da redação e deixou inclusivamente de dar determinado tipo de opiniões, porque sentia sempre que, por exemplo, em reuniões de edição, a sua opinião era desvalorizada quando comparada com a opinião de um outro editor homem. E há ainda a questão dos salários e muitas jornalistas mulheres destacaram isto, que recebem menos do que um jornalista homem que desempenha as mesmas funções. Além de que quase não existem mulheres em cargos de chefia.
Acaba por ser um espelho da sociedade…
Sim, sim. Infelizmente acaba por ser um espelho da sociedade em geral.
Por causa das violências, da precariedade, da vulnerabilidade a pressões externas ou editoriais, os jornalistas estão em risco, a liberdade jornalística corre um risco? E correndo, corre a democracia? Não só em Portugal, como noutros países. Porque infelizmente esta situações já não ocorrem só nos regimes totalitários.
Sim, sem dúvida. De facto, a questão da violência, por exemplo, era muito associada a regimes totalitários e não estávamos habituados a olhar ou a pensar a violência contra os jornalistas em países democráticos do Ocidente, democracias consolidadas, desenvolvidas. E a verdade é que os últimos anos nos têm mostrado que estes ataques são cada vez mais frequentes, têm a ver com a tal polarização de que falávamos há pouco e com o aumento dos movimentos extremistas. Mas a verdade é que ela [violência] existe, é cada vez mais frequente e põe em causa a democracia, porque jornalistas que não possam ser livres para fazer o seu trabalho, que não estejam seguros a fazer o seu trabalho, que não se sintam seguros, até dentro das próprias empresas, que não sintam que tenham esse apoio da parte das direções ou das administrações, não são jornalistas que possam desenvolver um trabalho livre dos vários interesses e, portanto, tudo isso pode ter impacto na democracia, obviamente.
A população tem essa noção do perigo? E como pode vir a ter?
Em primeiro, fazendo aquilo que estamos a fazer: falar, ouvir e noticiar. Eu acho muito curioso, tem-se discutido muito isso no último ano, até por causa das greves que houve em várias empresas de comunicação social, da greve geral dos jornalistas, do próprio congresso dos jornalistas, sempre achei muito curiosa a expressão de que o jornalista não é notícia. Discordo. Em determinados momentos o jornalista é, e deve ser, notícia. Não há nenhum motivo para não o ser. Se temos pela primeira vez dados que nos mostram que existe determinado tipo de violência contra os jornalistas, isso deve ser noticiado para que as pessoas também percebam as condições em que os jornalistas exercem muitas vezes o seu trabalho. Eu acho que isso é uma coisa que às vezes falha: na sociedade não se perceber as condições em que os jornalistas exercem o trabalho. Eu recordo-me, no início do ano, quando foi a greve dos jornalistas, de muitas pessoas comentarem que não faziam ideia que havia jornalistas a receberem tão pouco. E acho que às vezes há noções erradas relativamente àquilo que significa ser-se jornalista. E, se calhar, se as pessoas tivessem uma noção maior daquilo que se passa, pudessem ser talvez mais empáticas. E pensar duas vezes antes de fazer um comentário, ou enviar um e-mail, a insultar o jornalista. Tem que haver uma consciencialização maior em relação a estas questões. É importante percebemos que a violência contra jornalistas existe, que não é uma coisa de países subdesenvolvidos ou de regimes totalitários, e é importante falarmos sobre isto. As direções também devem estar mais alerta sobre este problema, sobre o bem-estar dos jornalistas. Não temos dados oficiais que nos mostrem quantos jornalista desistem da profissão, e porquê. Mas sabemos que todos os anos há muitos, especialmente mulheres, a abandonarem. Naturalmente, a questão da violência poderá contribuir para este abandono.
