Do futebol à restauração: a vida do clã Vidigal em Elvas

26 mai, 09:44
Jorge Vidigal

«O mundo nunca mais terá cinco irmãos a jogar numa primeira divisão», diz Jorge, que esteve na última dobradinha do Sporting

«Depois do Adeus» é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como subsistem os que não ficam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para o email vhalvarenga@tvi.pt.

Beto, Lito, Luís, Toni e Jorge. Entre 1986 e 2007, os adeptos viram passar o clã Vidigal pelo escalão principal do futebol português. Cinco irmãos na Liga, algo porventura inédito no futebol mundial. Após o final das respetivas carreiras, Elvas voltou a ser o porto de abrigo para esta família singular no panorama nacional.

Os Vidigal choraram em 2019 a morte de Beto, aos 55 anos. O médio foi o primeiro a abrir as portas da divisão principal, ao serviço d’O Elvas, em 1986. Seguiram-se Lito por Belenenses e Santa Clara (52 anos) e Luís por Sporting e Estrela da Amadora (49), que continuam ligados ao futebol, Toni por Varzim (47) e Jorge por Sporting e Beira Mar (44), dupla que está totalmente concentrada em negócios de restauração na cidade alentejana.

Jorge Vidigal, ex-jogador que contribuiu para a última dobradinha do Sporting – há precisamente 20 anos -, guia-nos neste Depois do Adeus.

«Eu e os meus irmãos temos vários negócios aqui em Elvas, vários investimentos que fomos fazendo, sejam casas, restaurantes, cafés, etc. Eu e o Toni, mais concretamente, estamos nesta altura focados em dois espaços que estamos a explorar: o bar da ARPI (Associação de Reformados, Pensionistas e Idosos) e o restaurante do Monte da Graça», começa por explicar, ao Maisfutebol.

Enquanto Jorge está diariamente no bar da Associação de Reformados, Pensionistas e Idosos de Elvas, Toni ocupa-se do restaurante do Monte de Graça, uma quinta que Luís Vidigal adquiriu e que transformou num espaço de turismo rural.

«Assumimos a exploração do bar da ARPI em 2019. Aquilo fecha apenas à segunda-feira, estando aberto nos outro dias das 9h30 à 00h00. Eu tento não estar sempre lá, mas é difícil evitar isso, até porque temos clientes que só vão lá para estar comigo. Passo o tempo necessário atrás do balcão e tento sempre ir conviver um pouco com as pessoas», salienta o antigo lateral-direito.

Jorge Vidigal habituou-se a conviver com os idosos que frequentam as instalações da ARPI, mas garante que um dos objetivos dos irmãos passou precisamente por atrair outro tipo de público.

«Eu e o Toni somos responsáveis pelo bar, que tem o seu espaço próprio e também serve refeições, incluindo comida angolana. Depois, ao lado está a sala de sócios, onde os idosos podem jogar cartas, dominó, etc. Na parte de cima, há um salão grande para eventos. De manhã, temos no bar pessoas mais velhas a beber o seu cafezinho ou copo de vinho, mas à tarde e à noite surge malta mais jovem, dos 20 aos 40 anos, para um convívio diferente.»

O restaurante do Monte da Graça, por seu turno, surgiu para colmatar uma lacuna no espaço. «O Monte da Graça foi um investimento do Luís e aquilo é enorme. Tem vários salões e um deles era usado pela nossa família para encontros. Como a quinta não tinha restaurante, os hóspedes estavam limitados a estadia e pequeno-almoço. Então, eu e o Toni propusemos abrir um restaurante naquele salão e está a correr muito bem. Aquilo é um espaço mágico, um paraíso», salienta Jorge.

Luís Vidigal foi coordenador técnico da Academia do Sporting entre 2011 e 2013, regressando ao clube entre 2018 e 2019 como diretor da formação. Atualmente, é comentador da SportTV. Lito tem uma carreira consolidada como treinador, estando sem clube desde janeiro, quando deixou o Moreirense.

Toni e Jorge, por ora, permanecem afastados do futebol. Mas o ingrediente essencial para uma vida feliz, a família, está sempre presente em Elvas, ponto de encontro para toda a família.

«Elvas é uma cidade de futebol, mas para além da indústria estar mais fraca nesta altura, o futebol também está enfraquecido no Alentejo. Mesmo assim, optamos por ficar aqui. Há muita gente que gosta de aparecer, mas nós gostamos muito é de estar no nosso canto. Comer, beber, conviver à vontade, estar com a nossa família e amigos, isso é o mais importante da vida.»

Recentemente, a propósito das homenagens da Câmara Municipal de Elvas a Patalino - elvense que chegou à seleção nacional em 1949 -, circulou nas redes sociais um pedido para idêntico reconhecimento a outros nomes que elevaram o nome da cidade através do futebol. Os irmãos Vidigal, naturalmente, surgiam no topo da lista.

«Vi isso, fiquei feliz e grato pela publicação, mas se reparar nós nem comentamos esse tipo de coisas. Nunca fomos uma família de fama e glamour. Somos uma família humilde, de trabalho, não andamos à procura de reconhecimento. Sinceramente, penso que nunca houve uma família com a nossa e acredito que o mundo nunca mais terá cinco irmãos a jogar numa primeira divisão, até porque agora se fazem menos filhos (risos). Isso devia ser mais enaltecido, mas pronto. Não estamos preocupados», garante Jorge Vidigal.

 

De Elvas para a dobradinha no Sporting, passando pelo Estoril

Luís Vidigal foi o irmão que atingiu maior notoriedade no mundo do futebol, mas Jorge tem um sala de troféus que rivaliza com a do mano mais velho. O lateral-direito teve um papel ativo na última dobradinha do Sporting, em 2002, já depois da formação n’O Elvas e de duas temporadas de bom nível no Estoril.

«N'O Elvas tive uma subida de divisão, da III para a II Divisão B, foi nessa altura que o Sporting se interessou em mim. Estive ainda no Estoril, depois fiz uma grande época na equipa B do Sporting e na segunda cheguei a jogar pela equipa principal. Fomos campeões e vencemos a Taça de Portugal», diz.

Jorge Vidigal fez dois jogos pela equipa principal, um em cada competição, o suficiente para inscrever o seu nome na lista de vencedores.

«Nessa altura, o Sporting tinha grandes equipas, quer a A, quer a B. A equipa principal tinha craques como João Pinto, Sá Pinto, Pedro Barbosa, Jardel, André Cruz, César Prates. Depois apareciam jogadores da B como eu, Quaresma, Hugo Viana, Custódio, Beto. Foram tempos espetaculares.»

O defesa saiu do Sporting de Laszlo Boloni após a dobradinha, a última do clube leonino, confirmada a 12 de maio de 2002 com a conquista da Taça de Portugal frente ao Leixões (1-0). Seguiu-se um regresso breve a’O Elvas e três temporadas no Olhanense. «O tempo em Olhão também foi muito bom. O Paulo Sérgio, que tinha sido meu colega no Estoril, convidou-me para ir para lá e fomos campeões da II Divisão B no primeiro ano (2004), garantindo a subida à II Liga», recorda.

«Depois estive dois anos no Beira Mar, o primeiro deles na Liga. Passei ainda pelo União da Madeira e acabei a carreira em Angola, no Recreativo de Caalá. No jogo de estreia pelo Recreativo, ganhámos 1-0 e fui eu que fiz o golo de livre direto. Terminámos o Girabola de 2010 com os mesmos pontos que o Interclube, mas eles foram campeões, e também chegámos à final da Taça. Em 2011, ainda joguei pela seleção angolana, outro momento que nunca esquecerei», garante Jorge Vidigal.

Em jeito de balanço, o lateral considera que o trajeto como jogador teve mais pontos positivos que negativos.

«Considero que a minha carreira foi boa. Sei que podia ter sido muito melhor, mas não sei de quem foi a culpa, se foi minha ou de terceiros. Estou feliz por aquilo que fiz e muito grato pela carreira que tive.»

Jorge Vidigal pendurou as chuteiras em 2012, encerrando o desfile dos cinco irmãos pelos relvados. Uma década mais tarde, André Vidigal (filho do falecido Beto) é a maior esperança na nova geração. O extremo representa atualmente o Marítimo.

«Dos 13 filhos da D. Deolinda Vidigal e do senhor Vítor Vidigal, cinco jogaram futebol e chegaram à primeira divisão. Agora, temos o Tiago (32 anos), filho do Beto, que jogou n'O Elvas e no Campomaiorense. Acaba de ser campeão distrital pelo Arronches e Benfica. O André (23), irmão mais novo do Tiago, está no Marítimo e a atravessar uma fase muito boa na carreira.»

O protagonista deste Depois do Adeus, por outro lado, está totalmente focado na restauração: «Depois de terminar a carreira, ainda estive no Recreativo de Caalá como diretor desportivo e treinador. Voltei a Portugal já com 37 anos, ainda treinei escalões jovens, cheguei a abrir uma escolinha minha, organizei campos de férias, mas agora estou concentrado no bar e no restaurante.»

«No ano passado, ainda treinei os miúdos dos Elvenses, mas tornou-se muito complicado com os meus horários. Ainda por cima, é mais para ajudar, não recebemos nada. Portanto, nesta altura só trabalho e sempre que posso, para matar saudades do futebol, vou jogar no campeonato de velhas guardas de Badajoz», remata Jorge Vidigal, de bem com a vida.

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