Este artigo não é uma biografia estatística nem uma contabilização de títulos, é antes um retrato desenhado pelas vozes daqueles com quem Jorge Costa partilhou clube, campo, banco e seleção. Jorge Costa que era duas pessoas: fora de campo "era só palhaçada", dentro de campo era "um animal competitivo". Um Bicho
Jorge Costa é o “Bicho”, o “capitão dos capitães”, o “Tanque”, Jorge Costa tornou-se epítetos repetidos por ex e atuais jogadores e também por ex e atuais treinadores porque Jorge Costa marcou-os de várias maneiras que são no fundo uma única maneira - a maneira de um líder, que é o que Jorge Costa era. Um líder respeitado por outros líderes.
Como este líder, um líder rival - Rui Costa: conheceu Jorge Costa, conheceram-se jovens, ali nos 17 ou 18 anos, são idades "que nos marcam muito", diz Rui Costa e diz bem, tornaram-se grandes amigos, explicou esta terça-feira o próprio Rui Costa, que perdeu esse amigo que era ainda “um homem extraordinário”. Memórias não faltam, conta Rui Costa, mas há uma que se sobressai e que lhe faz tremer a voz: o Mundial Sub-20 de Futebol, "fomos campeões do mundo juntos, fomos companheiros de quarto largos anos nas seleções nacionais” – foram “coisas extraordinárias, até nas derrotas nos consolámos”.
Mais histórias: Pedro Mendes foi campeão europeu naquele 2004 com Mourinho ao leme do banco e Jorge Costa ao leme do onze titular, Pedro Mendes era “um miúdo”, era isso porque Jorge Costa chamava-lhe dessa maneira e as pessoas ficam rapidamente da maneira que os líderes lhes chamam. Pedro Mendes explica à CNN que lhe custa escolher um momento marcante com o Bicho porque “para palhaçada não é a melhor altura e essas são as histórias que tenho dele”.
E é altura adequada para relembrar momentos bons, Pedro Mendes?, “claro que sim”, responde à CNN - depois faz-se silêncio, ouve-se uma leve gargalhada: “Quando cheguei ao Porto, 2003, estava a ir para o estágio na Alemanha. Então aterrámos lá, fomos de autocarro para o hotel e o Jorge chama-me lá atrás, onde ele ficava com os mais antigos, 'miúdo, anda aqui!, vai dizer ao mister que nós não queremos treinar, estamos cansados'”. Pedro Mendes diz que recusou, quem convivia diariamente com Jorge Costa sabia que aquilo não iria acabar ali, não acabou: “Ele disse ‘vai lá pá!’ e atirou um palavrão”, mas isso fazia parte do humor do “Bicho”, “o Jorge tinha uma relação excecional com os jogadores” e essa relação manifestava-se de duas formas:
FORMA 1 Fora do campo “era só palhaçada” – os jogos de cartas, as “tainadas” no quarto dele nos estágios e onde “era cerveja, era vinho, era pão, era presunto”. Num desses animados convívios no quarto José Mourinho bateu à porta, recorda Pedro Mendes: “Começámos a esconder tudo, as garrafas nas gavetas, a comida debaixo da cama. O Mourinho entra e pergunta ‘então não se come?, não se bebe nada?”.
FORMA 2 Dentro do campo Jorge Costa “era o mais ranhoso que se podia encontrar”, um “animal competitivo com sede de vitória, de compromisso, de entrega”, quem jogasse contra ele não tinha a vida facilitada. E a partir do momento em que Jorge Costa entrava no balneário "transformava-se completamente", "tratava-nos do piorio mas nunca nos deixava desleixar, não havia desleixo no treino nem no jogo - havia cobrança máxima da parte dele". Por outro lado: "Às vezes até fazíamos de propósito para o enervar".
Maniche também partilhou o balneário com Jorge Costa, com Pedro Mendes idem, foram os três campeões da Europa: Maniche lembra-se do Bicho como “um símbolo”, foi Jorge Costa que ensinou a Maniche o mesmo que ensinou a outros antes e depois, ensinou a Maniche “o que era o FC Porto”, a tão mítica mística do clube. “Os melhores momentos da minha carreira foram ao lado dele”, foi sobretudo Taça UEFA e Champions League, era uma “equipa de guerreiros” liderada pelo Bicho, que bichos, “uma equipa com muita qualidade, que se respeitava, era ele que organizava os almoços, os jantares e que fazia a ponte entre treinador e jogador” – o “verdadeiro capitão”.
Um dia Maniche, Costinha e McCarthy vão para a noite, “o Mourinho soube dessa situação e não nos queria deixar treinar”. Jorge Costa fez a ponte entre os três jogadores e o mister, o Bicho era um diplomata: “O Jorge vinha dizer que o mister queria muito que nós treinássemos porque éramos importantes, apenas tínhamos de pedir desculpa. Nós dizíamos que não tínhamos de pedir desculpa nenhuma porque estávamos de folga quando saímos e a seguir o Jorge ia dizer ao Mourinho que estávamos muito arrependidos e que queríamos treinar”. O Bicho acaba mesmo com guerras em 24 horas.
Outra história: Fernando Santos orientou Jorge Costa em três épocas, uma delas a do penta. Quando chegou ao FC Porto vindo do do Estrela da Amadora, Fernando Santos confrontou-se com alguma desconfiança de parte do balneário - o Bicho resolveu isso num instante. "Lembro-me de estar a sair do relvado para o hotel, a passar junto às cabines, e ouvi o Jorge a dizer a um colega 'meus amigos, isto é fácil: ele foi escolhido pelo presidente, é o treinador do Porto, a partir de hoje é o melhor treinador do mundo, só temos de estar com ele e fazer tudo o que disser'". O Bicho também sabia ser um diplomata impositivo, Fernando Santos ouviu aquela conversa e sentiu-se imediatamente pentacampeão e a época ainda nem sequer tinha começado: "Pensei 'já ganhei com homens assim'." Homens como o Bicho.
E depois veio o último dia de Fernando Santos no FC Porto, foi um dia em que o Bicho mostrou novamente o seu lado gentil: "No meu último no FC Porto, na final da Taça contra o Marítimo em 2001, a primeira coisa que o Jorge fez foi entregar-me a camisola dele". Um símbolo de gratidão e respeito que, para Fernando Santos, diz tudo sobre o homem que agora recorda com emoção: "O Jorge era o capitão dos capitães".