«Jorge Jesus? Não vejo outro nome melhor para o Benfica neste momento»

11 dez 2021, 09:27

Jonas falou de tudo em entrevista ao Maisfutebol: de Jesus, de Ruben Amorim, de Vieira, de Samaris, de André Almeida, de Seferovic, de Everton Cebolinha e, claro, do Benfica

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Futebol, economia e política misturam-se? Para Jonas, sim. Afastado dos relvados desde 2019, quando terminou a carreira no Benfica, o brasileiro tem agora os olhos noutras áreas. Está mesmo a levar a sério esta nova fase: estuda e coloca em prática o que tem aprendido.

Apesar da distância de Portugal e de novos interesses, o antigo goleador não se esquece das cinco épocas memoráveis na Luz, especialmente quando, de repente, vê 19:04 no relógio. Um momento de nostalgia pura.

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À distância continua a acompanhar tudo o que tem a ver com o Benfica, não ignorando, por isso, o momento delicado que Jorge Jesus vive. Para o brasileiro, porém, o mister continua a ser o melhor treinador para a equipa.

Em entrevista exclusiva ao Maisfutebol, numa parceria com a CNN Portugal, o Pistolas também fala de Rui Costa e Luís Filipe Vieira, de Seferovic, André Almeida, Samaris e Everton, de Rúben Amorim e muito mais.


O Jonas que foi jogador estaria orgulhoso do Jonas de hoje no pós-futebol?

A minha carreira no pós-futebol ainda está a começar. Mas olharia de uma forma muito orgulhosa, porque estou a fazer aquilo que já planeava antes de acabar a carreira. Ao lado dos meus pais e da minha família. É uma caminhada longa, sou muito jovem ainda. Há muitas coisas que quero fazer, relacionadas com a família, principalmente com as minhas filhas, e também tenho interesses fora do futebol: economia, política, enfim. Já tenho adquirido conhecimentos nessas áreas e quero adquirir mais. Tenho muitos projetos em mente.

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O que tem feito atualmente?

Procurei sempre um equilíbrio, não é? Em tudo. E, aos poucos, procuro novos encaixes. Por exemplo, hoje de manhã estive numa apresentação da minha filha na escola. Nunca tinha participado antes, era difícil, porque estava concentrado, a treinar, a viajar, etc. São momentos dos quais gosto de participar. Hoje, estou muito mais próximo dos meus pais, que são as pessoas mais importantes da minha vida, mais junto das minhas filhas, enfim. Estou a viver intensamente estes momentos com eles, porque fiquei muito tempo fora. Estou a estudar outras áreas. Tenho estudado economia e até política, para ver como funciona. Sempre gostei. Tenho algumas coisas aqui investidas, em família, com os meus irmãos, com os meus pais. Os meus irmãos trataram sempre das coisas por mim e agora estão a passar-me a bola.

É mais fácil ser jogador de futebol e marcar golos ou ter que estudar e adquirir conhecimento em outras áreas?

Sempre gostei de matemática. O meu pai é professor de matemática. Fiz folhas de excel com os gastos durante toda a minha carreira, fui muito regrado e organizado. Mas confesso que prefiro jogar futebol [risos]. Porque não é fácil entrar numa área assim totalmente diferente do que fazia antes. O importante, acima de tudo, é gostar daquilo que fazes. Tenho gostado e aprendido, são vários cursos. É um passo certo para o mundo dos investimentos também.

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O seu interesse pelo lado político é algo que já te instigava antes ou tem a ver com o momento delicado que o Brasil vive ultimamente?

Um pouco dos dois. Também tenho sangue político na veia, porque o meu pai já foi prefeito aqui da cidade, de 1993 a 1996. Cidade pequena, Taiúva, no interior de São Paulo, tem 5 mil habitantes, perto de Ribeirão Preto. Só que não acompanhei, era muito novo, tinha 8, 10 anos. Mas não tenho intenção [de entrar no mundo político]... é mais para ter conhecimento, mesmo, porque acho que a economia e a política estão muito relacionadas. Sempre me foquei a cem por cento no futebol. Não olhava para outras áreas, sabe? Focava-me naquilo, porque era o meu trabalho. Queria fazer tudo bem feito, por isso acompanhava todos os jogos, campeonatos, enfim... Agora dei um tempo no futebol para pensar noutras áreas. E também há a questão do país. Isso facilita nas suas tomadas de decisões.

Já chorou pelo futebol no pós-carreira?

Não, não. Vejo o futebol com muita alegria...

Quando e como no dia a dia é que o Benfica vem à sua memória?

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Olha, se te contar uma coisa... joguei durante cinco anos no Benfica. Há duas coisas que mexem comigo e com a minha família relacionadas com o Benfica. A minha esposa, quase sempre olha para o relógio às 19:04. Sete e quatro da noite aqui, mil novecentos e quatro. Isso, na verdade, acontece desde a época em que jogava. Estamos a jantar, ela olha para o relógio: ‘Jonas, mil novecentos e quatro, 19:04’. Há mais. Quando fazia banheira fria, após os treinos, olhava para o relógio que marcava 12:34. Um, dois, três, quatro. Isso ficou sempre marcado em mim. Hoje, aqui no Brasil, às vezes estou próximo do almoço, olho para ver as horas: 12h34. Então lembro-me logo do Benfica. É incrível! Incrível mesmo. Há umas coisas que ficam marcadas. Estas estão marcadas porque têm acontecido constantemente comigo e com a minha esposa. O Benfica vai estar sempre na minha mente, não há outra forma. Acompanho sempre e tenho pensado muito no Benfica. E vou continuar, não é?

Você, especialmente no futebol português, fez mais amigos ou mais inimigos?
Muito mais amigos. Nem me lembro de ter feito algum inimigo, alguém que durante estes cinco anos pudesse chegar a esse ponto. Até porque, durante o jogo, claro há umas disputas, até alguns insultos, que fazem parte do futebol. Mas acaba o jogo e procuro ir embora sempre com a cabeça tranquila. Às vezes, também passamos do ponto até com árbitros. Mas, caramba, nunca fui de ir para casa com esse sentimento de... um sentimento triste, de ter brigado com um companheiro de profissão ou algo do tipo. Procurei respeitar e ter uma boa relação com os adversários também.

A reação que teve quando voltou em definitivo ao Brasil foi igual, ou quase, à que teve recentemente em Portugal ao visitar o Seixal? Um sentimento de ‘cheguei a casa’?

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Boa pergunta. Sim, é isso mesmo. Quando voltei para o Brasil, para perto da família, foi fantástico. Foi fenomenal, era aquilo que queria. Agora, quando regressei recentemente para visitar o Benfica, senti-me em casa. Todo o carinho, respeito, gratidão, amor que tenho pelo clube e pelas pessoas que ainda estão lá... Foram regressos semelhantes, tanto aqui, quanto aí em Lisboa.

Como vê o Rui Costa como presidente do Benfica?

É um grande amigo. Foi um dos responsáveis pela minha ida para o Benfica, juntamente com o mister Jorge Jesus e o presidente Luís Filipe Vieira. Foram os três que pediram a minha contratação, o que me deixou muito feliz. Além de um ser humano fantástico, é um ídolo para todos. Quando vim para o Benfica, fui logo à Luz. Então encontrei o Rui Costa e as palavras dele foram: ‘Caramba, não via a hora de chegares, Jonas. Estava a contar as horas para que desse tudo certo na tua contratação, e ainda bem que deu’. Uma pessoa como ele, o que ele representa para o clube, o que foi como jogador, um ídolo, não é? Chegar ao Benfica e ser recebido daquela forma ajudou-me muito. O Rui Costa é muito benfiquista. Ele conhece a casa como poucos. Agora no início do mandato, no início de uma nova etapa da vida. Vou torcer muito por ele, porque me ajudou muito. Tivemos uma sintonia muito forte. Antes dos jogos, durante os treinos, estava sempre no Seixal e nós conversávamos muito. Deu-me muita confiança. São momentos que ficam para sempre e que vou guardar com muito carinho. Ele merece muito sucesso.

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Do outro lado do Atlântico, como viu a detenção e depois a saída do presidente Luís Filipe Vieira?

Acompanhei, porque também saiu nos noticiários aqui. Fiquei triste, porque o Luís Filipe Vieira é um grande amigo. Espero que isso termine da forma mais saudável para ele. É um grande amigo, uma grande pessoa, alguém que me ajudou muito. Estou-lhe muito grato. Nos cinco anos que trabalhámos juntos, foi muito importante, tanto na minha chegada, quanto na minha despedida. Estive recentemente com ele em Lisboa, foram quase duas horas de conversa num hotel. Que o desfecho seja favorável para ele, que possa seguir com a vida com muita paz e tranquilidade.

Sei que o André Almeida é dos seus principais amigos no Benfica. Ele é, acima de tudo, um jogador muito útil. Joga a lateral-direito, lateral-esquerdo, médio e agora até central. É o ‘maior polivalente’ da história do clube?

[Risos] Com certeza. Até porque é um jogador com a cara do Benfica. São vários anos no clube, passou por muitos momentos. É um símbolo. Além de ser o capitão, é uma referência no balneário. É um ser humano incrível, incrível mesmo. Temos uma relação que vai durar para sempre, torço muito por ele. O desempenho dele não me surpreende, porque o André sempre foi esse jogador pronto para jogar em qualquer posição. Até agora ainda não foi ali do meio para a frente, não? [risos]. Como ele gosta mais de marcar, e ele marca bem, talvez seja mesmo melhor do meio para trás. Qualquer posição em que o for colocarem, de certeza que ele vai fazer o papel bem-feito e com muita responsabilidade.

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O Benfica hoje conta com vários avançados de área: Yaremchuk, Darwin Núñez, Rodrigo Pinho, Gonçalo Ramos... e o Seferovic. O suíço, que está no clube há mais tempo, é o mais fiável de todos?

O Sefero é um avançado com quem gostei muito de jogar. Porque, ali na última linha do ataque, ele tem um sprint, tem uma velocidade e uma força incríveis. Como jogava mais recuado e gostava de dar algum espaço a quem jogava à minha frente, ele fazia os movimentos perfeitos. Tanto é que, no meu último ano, ele entendeu-se muito bem com o João Félix, que é um craque. Então, o Sefero é de certeza um avançado de grande capacidade, internacional e que já mostrou toda a sua qualidade. Torço para que continue a marcar muitos golos. Ele, em Portugal pode sobressair em relação aos demais.

Sente que não valorizam o Seferovic? Falta um pouco de consideração?

Acho que faz parte. Todos os anos o Benfica reforça o ataque. Até porque, tratando-se do Benfica, do meio para a frente um avançado tem que estar sempre bem. A cobrança é muito grande. Ele chegou, mas não jogou tanto de início. Depois começou a jogar mais. Lembro-me que em 2018/19, quando não joguei muito, ele fez uma temporada maravilhosa, ao lado do João Félix. Fizeram uma bela parceira e fomos campeões. Acho que ele bem fisicamente, com sequência de jogos, pode ser o Seferovic que toda a gente já viu. Eu, como benfiquista, torço para que ele chegue a esse nível novamente, porque de certeza vai dar muitas alegrias a toda a gente no clube.

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Acha que o Everton de hoje já se aproxima daquele Everton que brilhou no Brasil ou ainda lhe falta algo?

Acho que é sempre importante faltar alguma coisa para um jogador, porque aí ele não fica... como se diz?

Relaxado.

Exato. Com margem de crescimento. O Everton já demonstrou o jogador que é, principalmente no Brasil. Claro que no Benfica é diferente. A exigência é diferente, os jogos são diferentes, as estratégias são diferentes. E talvez ele tenha tido algumas dificuldades em relação a isso. É um jogador internacional, já mostrou todo o seu talento e potencial também na Seleção Brasileira, foi peça-chave numa Copa América. No um contra um ele que desequilibra mesmo, também tem golo e tem características para, no decorrer dos anos, fazer história no Benfica. Torço para isso.

Como é que você, sendo amigo e ídolo do Benfica, olha para a forma como o Samaris saiu do clube?

Fiquei triste, porque o Samaris é um grande amigo, é um daqueles jogadores com quem compartilhei muitos anos no balneário. Não sei o que passou ao certo para ele ter saído daquela forma. Sabemos que às vezes, quando as duas partes não estão de acordo, acabam por acontecer estas coisas chatas, tristes. Foi um jogador muito importante, tem o seu nome gravado na história, conquistou muitos títulos, deu muito ao Benfica. Mas a forma como as coisas foram conduzidas, tanto da parte do Benfica quanto do próprio Samaris, acabando por não chegar a um acordo... poderia ser mais bonito, não é? De uma forma respeitosa, o que acabou não aconteceu. Mas a vida segue. Acho que se o Samaris voltar a Portugal, para visitar o Benfica, a história dele vai continuar lá, vão tratá-lo com muito respeito.

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Jorge Jesus continua a ser o melhor nome para dirigir o Benfica?

Não vejo outro nome neste momento. Sabemos que o momento não é o melhor para ele. Mas falta muito campeonato ainda, muitos jogos, muitas jornadas. E isto não é como começa, é como termina. É uma frase que toda a gente usa, mas é a pura realidade. Acho que devemos fazer uma conclusão sobre o trabalho no fim da temporada. Ainda é muito cedo. O Mister tem uma grande história no Benfica. Sabemos que, neste ano, está a ter algumas dificuldades em termos de resultados. As outras equipas também estão muito fortes, não é? Sporting e FC Porto. Mas acredito muito nele, porque o Benfica tem uma grande equipa. Quando encaixar uma, duas ou três partidas seguidas, vai voltar a confiança.

Surpreso com o sucesso do Rúben Amorim como treinador? Jogaram juntos no Benfica...

Ao vê-lo hoje à frente do Sporting, lembro-me daquele Rúben Amorim jogador, que era muito inteligente. Era muito inteligente dentro de campo. Por isso, pelo pouco tempo como treinador, talvez seja surpreendente... Mas pela qualidade que ele teve como jogador, aí talvez não. Foi um jogador diferenciado, que pensava diferente, que fazia uma leitura de jogo diferente dos outros. Levou tudo isso para uma outra função, como treinador, e está a ter sucesso.

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Também se destacava pelo lado comunicacional?

O Rúben Amorim era um brincalhão, acho que era o mais brincalhão do nosso balneário. Deixava o balneário muito leve. Quando cheguei ao Benfica, ele foi o primeiro jogador que vi e com conversei. Deu-me boas-vindas e disse: ‘Tu vais arrebentar aqui! Estiveste bem no Valencia, mas aqui no Benfica você vais ser ainda melhor’. Era um companheiro espetacular. Ele, mesmo lesionado, sem jogar e a viver um momento difícil, transbordava alegria. Era contagiante.

Para fechar e sendo muito direto: o que o Benfica aprendeu com o Jonas?

Profissionalismo e responsabilidade. Tive sempre isso durante a minha carreira, e encontrei essas coisas também no Benfica. Não que não tenha encontrado nos outros clubes, mas no Benfica foi demais. O Benfica foi muito acima dos outros.

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