A morte tem sempre algo de desproporcionado. Chega e interrompe uma conversa que julgávamos poder continuar. Na última sexta-feira estive com o Jon Sacristóbal (1) no hospital em Viseu. Falámos. Rimos. Como tantas outras vezes. Agora que ele partiu, percebo que ficou muito por dizer.
Este desconforto de conversa interrompida levou-me a escrever estas linhas. A morte tem esta estranha capacidade de nos confrontar com tudo aquilo que ficou por dizer. Nas vidas de quem me lê haverá certamente um Jon: alguém cuja presença marcou o nosso caminho e cuja ausência deixa um vazio difícil de medir. Perante essa realidade, resta-nos agradecer e recordar o bem que recebemos e rezar por aqueles que partiram, confiando-os à misericórdia de Deus.
“Portugal é uma viagem que fazemos juntos”, disse o Cardeal Tolentino de Mendonça no Discurso do Dia de Portugal há precisamente 6 anos. Portugal foi para o Jon uma viagem partilhada, uma casa escolhida. E talvez seja por isso que a sua partida no Dia de Portugal tenha algo de profundamente simbólico. Portugal ficou hoje mais pobre. O céu ficou certamente mais rico.
O Jon foi para mim um irmão mais velho. Aquele amigo a quem se telefonava porque havia sempre tempo para conversar, para pedir um conselho, dar uma gargalhada, contar uma história.
Era um homem de fé profunda, mas sem exibicionismos. Uma fé concreta, no meio do mundo, com uma luta pela fidelidade à sua vocação de numerário do Opus Dei. Acreditava num Deus próximo, familiar, presente nas alegrias e nas lutas do dia-a-dia.
Era um homem de cultura. Um leitor incansável. Gostava de recordar os anos no Colégio Gaztelueta, uma espécie de laboratório humano onde aprendeu algumas das lições mais importantes da vida e que me recordava nos nossos passeios. Tinha uma memória prodigiosa e as nossas conversas atravessavam livros, história, política, futebol, economia, com uma naturalidade rara.
Era um homem de trabalho. Falava da Fico-cables, da Ficosa e, mais recentemente, da Huf com um orgulho discreto, mas evidente. Impressionava-me a forma como se preocupava com as pessoas. Nunca reduziu o trabalho a um cargo. Via-o como uma missão, um serviço. Assim o fez noutros encargos que teve na AESE Business School e no Fundo de Colégios Fomento.
Era um homem de desporto. Vimos juntos muitos triunfos do seu Athletic e fizemos muitos quilómetros de bicicleta. Gostava de ganhar e de ver os outros superarem-se. Estar com ele era sentir-se acompanhado por alguém que acreditava em nós mais do que nós próprios. Como um pai que desafia o filho a ir mais longe porque sabe do que ele é capaz.
Era um homem do mundo. Não sabemos muito bem de onde era o Jon. Oficialmente diríamos Getxo-Bilbau. Outros lembrarão Pamplona. Falava de Viseu como quem fala da sua própria terra. Mas também passou por Coimbra, Porto e Lisboa. Era mais português do que eu. Tinha uma extraordinária capacidade de pertencer aos lugares e às pessoas. Fez-me conhecer paisagens, pessoas, tradições e uma gastronomia portuguesa que apreciava, concretamente o arroz doce e o bacalhau.
Era um homem simples. Não gostava de ser o centro das atenções. Não queria grandes celebrações de aniversário. Fugiria certamente das homenagens que hoje lhe prestamos. Mas não é ele que delas precisa. Somos nós que precisamos de dizer, com gratidão e justiça, tudo aquilo que recebemos da sua amizade, do seu exemplo e da sua vida.
Tinha defeitos, como todos, mas confessava-se cada semana para lutar contra eles com a ajuda de Deus.
O Jon tinha uma particular devoção a Nossa Senhora de Begoña (Amatxu como lhe chamava), padroeira de Bilbau e da Biscaia. Gosto de imaginar que já a encontrou e recebeu dela o abraço que tantas vezes procurou quando rezava. Nesse encontro, terá ouvido aquilo que todos desejamos ouvir um dia: que a viagem continua.
Para o Jon, Portugal foi o início dessa viagem feita de memórias, de amizades e de encontros. Hoje não o vemos apenas como alguém que partiu. Sentimo-lo como alguém que continua a caminho um pouco mais à frente. À nossa espera. Na mesma viagem.
Obrigado, Jon. Aurrera mutil.
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- Jon Velasco San Cristóbal (1959-2026) foi um gestor no setor industrial e empresarial em Portugal. Licenciado em Direito pela Universidade do País Basco (EHU) e Universidade de Coimbra (UC). Destacou-se pela sua experiência na direção geral de organizações. Foi Gerente da Huf Portuguesa, Lda, entre 1991 e 2025. Anteriormente tinha assumido funções como Managing Director da Fico-Cables Portugal e Country Manager da Ficosa Portugal, assumindo responsabilidades na gestão de operações, desenvolvimento de negócio e coordenação de equipas. Reconhecido pela sua defesa de uma gestão centrada nas pessoas, foi um dos pioneiros na aplicação prática da Direção por Missões nas organizações, acreditando que o propósito partilhado, a confiança e a unidade são fatores determinantes para o sucesso sustentável das empresas. É coautor do livro Dirección por Misiones: Conectando a las Personas con la Estrategia a través del Propósito, obra de referência nesta área.
