Abusos sexuais no The Voice dos Países Baixos. Autoridades investigam quatro alegados agressores ligados ao programa

26 abr, 17:54
John de Mol, fundador da Endemol e da Talpa Media, fotografado em 2001 (Foto: Serge Ligtenberg/AP)

O escândalo remonta ao início do ano, depois de um documentário com denúncias anónimas ter obrigado a retirar o programa de talentos do ar

A procuradoria-geral dos Países Baixos abriu um inquérito formal perante as denúncias de abusos sexuais no programa The Voice, estando a investigar quatro suspeitos do crime, depois de cinco alegadas vítimas terem denunciado o caso à justiça, avança o The Guardian.

"Foi decidido iniciar investigações criminais aprofundadas em resposta a estas cinco queixas", revelou o Ministério Público neerlandês, naquele que foi o último desenvolvimento de um caso que é conhecido desde o início do ano e abalou o meio televisivo nos Países Baixos, com repercussões noutras áreas e levando mesmo à realização de manifestações no país contra o sexismo e a violência de género.

Esta foi considerada a primeira grande denúncia herdeira do movimento #MeToo nos Países Baixos - quando a denúncia de abusos sexuais incentiva a que outras pessoas admitam publicamente que foram vítimas do mesmo crime. No passado mês de janeiro, a versão neerlandesa do The Voice foi suspensa após a emissão de um documentário no canal de YouTube Boos - que se traduz como "zangado" - ligado à emissora pública neerlandesa BNNVARA. Neste documentário, dezenas de mulheres, de forma anónima, alegavam que tinham sido assediadas, molestadas e abusadas pelos homens que participavam no programa.

O The Voice dos Países Baixos começou em 2010 e foi a versão original do programa de talentos, que esteve na origem das várias versões internacionais adotadas entretanto. Os concorrentes são ouvidos numa audição cega pelos mentores, que depois formam equipas com os seus favoritos, e estes defrontam-se para avançarem na competição e chegarem à final. No início do ano, o The Voice dos Países Baixos estava na sua 11.ª temporada.

As autoridades dos Países Baixos rapidamente vieram a público incentivar eventuais vítimas de abusos durante o programa a apresentarem queixa na polícia para que as denúncias pudessem ser investigadas. Entre os alegados agressores, as vítimas apontavam nomes como o rapper Ali Bouali, conhecido como Ali B e um dos mentores dos concorrentes no programa, e o cantor Marco Borsato ou de Jeroen Rietbergen, membro da banda do formato televisivo.

Os três estão entre os suspeitos que são agora investigados pelas autoridades, para além de uma quarta pessoa, identificada como Martijn N, que também fazia parte da produção do programa. Todos rejeitam as acusações de assédio e abuso sexual.

A entrevista do produtor e a resposta das funcionárias

Depois de terem sido revelados os nomes dos suspeitos - e de o programa ter sido rapidamente retirado do ar pela RTL - o dono da produtora responsável pelo formato nos Países Baixos deu uma entrevista pedindo às mulheres na sua empresa que não se calassem perante casos de abuso. "Têm de abrir a boca. Só assim podemos ajudar-vos... As mulheres aparentemente têm algum tipo de vergonha", afirmou John de Mol, que fundou a Talpa Media e a Endemol - que criou formatos televisivos como o Big Brother -, sugerindo que mulheres e homens tinham de aprender com o escândalo. 

Em resposta, no dia seguinte, de Mol acordou com um anúncio de página inteira no jornal diário Algemeen Dagblad, com uma mensagem das suas funcionárias da Talpa Media: "Caro John, não são as mulheres. Cumprimentos", lia-se no anúncio, que estava assinado apenas em nome das "mulheres da sua empresa".

O grupo de funcionárias responsável pela publicação da mensagem emitiu um comunicado admitindo "estupefação e vergonha" com os comentários do produtor, que continua a gerir a Talpa apesar de a ter vendido em 2015 à britânica ITV. "O comportamento das mulheres não é o problema. E também não é a solução", destacava a declaração, que incentivava outras vítimas de abusos a a denunciarem os casos à justiça e lamentava a cultura "no mundo dos media e na sociedade" que permitia que os homens no poder continuassem a cometer erros de julgamento como os de John de Mol.

Uma porta-voz da ITV disse ao The Guardian que estava "chocada e consternada" com as acusações de assédio, mas rejeitou comentar a entrevista do produtor neerlandês, assegurando apenas que a ITV pedira uma investigação externa e independente para compreender o que tinha acontecido após a emissão do documentário com denúncias.

Denúncias de abusos no The Voice Kids

As denúncias anónimas no YouTube acabariam por se materializar em cinco queixas que deram entrada na justiça e na constituição dos quatro suspeitos já mencionados. Mas outras vozes se juntaram ao coro das acusações: o rapper Ali B foi acusado por uma ex-concorrente de a violar quando participara no The Voice aos 18 anos e seis outras mulheres queixaram-se de Marco Borsato; três garantem mesmo ter sido assediadas ainda menores, quando participavam no The Voice Kids, a versão do programa dedicada a crianças.

E Jeroen Rietbergen já tinha deixado a banda do The Voice quando as denúncias vieram a público, admitindo que tinha tido "contactos sexuais" com mulheres no The Voice e que enviara mensagens de teor sexual através de uma aplicação. Rietbergen foi, até recentemente, o companheiro da irmã de John de Mol, a apresentadora de televisão Linda de Mol, e garantiu que quando deixou o programa não tinha consciência de ter cometido ilegalidades. 

Já o rapper Ali B, de 40 anos, defendeu-se em comunicado, dizendo que havia "dois relatos anónimos apresentados com muita fúria como notícias". Garantia que a acusação era "injustificada" e não tinha como se defender publicamente. "Contudo, é claro para mim que o Ministério Público terá, em ambos os casos, de decidir arquivar [as queixas]. Não sou culpado do que estou a ser acusado", lia-se na declaração do artista.

Até ao dia de hoje, o The Voice dos Países Baixos não voltou à emissão. O escândalo acabou por ter repercussões noutras áreas, levando a novas denúncias de abuso sexual. Aconteceu, por exemplo, com o antigo jogador de futebol Marc Overmars, que se demitiu em fevereiro do cargo de diretor desportivo do Ajax depois de ter admitido que enviara mensagens de teor sexual a várias funcionárias do clube de Amesterdão. Foi entretanto contratado para a direção desportiva do Antuérpia, garantindo que iria iniciar um "novo capítulo" no clube belga e que não repetiria os erros cometidos no Ajax.

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