"Recordar os mortos não é política, é dignidade". Atleta ucraniano proibido de usar "capacete de memória" nos Jogos Olímpicos de Inverno

10 fev, 19:00
Vladyslav Heraskevych (AP)

 

 

Comité Olímpico Internacional considera que capacete, que tem imagens de atletas mortos durante a guerra na Ucrânia, viola as regras da Carta Olímpica, que proíbe o uso de "qualquer forma de manifestação ou de propaganda política, religiosa ou racial". Em vez do capacete, sugere o uso de uma braçadeira preta

O Comité Olímpico Internacional proibiu um atleta ucraniano de usar nos Jogos Olímpicos de Inverno um capacete com fotografias de atletas mortos durante a guerra com a Rússia.

Vladyslav Heraskevych, atleta de skeleton que participa nestes Jogos Olímpicos de Inverno em Cortina, Milão, apareceu nos treinos com um capacete ilustrado com fotografias de atletas ucranianos que morreram durante a guerra, alguns dos quais seus amigos.

Entre eles estão a halterofilista Alina Perehudova, o pugilista Pavlo Ischenko, o jogador de hóquei no gelo Oleksiy Loginov, o ator e atleta Ivan Kononenko, o mergulhador e treinador Mykyta Kozubenko, o atirador Oleksiy Habarov e a bailarina Daria Kurdel.

Mais tarde, Heraskevych revelou nas redes sociais que um representante do Comité Olímpico Internacional (COI) o informou que estava proibido de usar aquele capacete, alegando que o seu uso viola as regras da Carta Olímpica, que proíbe o uso de “qualquer forma de manifestação ou de propaganda política, religiosa ou racial”.

O atleta esperava que aquela fosse a posição daquele representante em particular e, por isso, o Comité Olímpico Ucraniano solicitou ao COI autorização para usar o capacete, que chama de “capacete de memória”.

Em conferência de imprensa esta terça-feira, o porta-voz do COI, Mark Adams, confirmou que o atleta está proibido de usar aquele capacete, quer durante os treinos, quer nas provas de competição, justificando a decisão com a regra 50.2 da Carta Olímpica, que estabelece que “não é permitida em qualquer instalação Olímpica qualquer forma de manifestação ou de propaganda política, religiosa ou racial”.

"Os Jogos precisam de ser separados de todos os tipos de interferência para que todos os atletas se possam concentrar nas suas prestações. Precisamos de manter este momento específico o mais puro possível para a competição", argumentou Mark Adams. 

"Este capacete infringe as diretrizes”, concluiu o porta-voz do COI, acrescentando que o comité decidiu “abrir uma exceção” para permitir que o atleta use uma braçadeira preta durante a competição para prestar a homenagem. “Acreditamos que este é um bom meio-termo para a situação”, observou.

O atleta de 27 anos, que já nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim em 2022 exibiu uma faixa com as palavras ‘Não à guerra na Ucrânia’, dias antes da invasão russa, não escondeu a desilusão com a decisão, classificando-a como “injusta”. 

"Não vejo qualquer violação da regra 50.2. Não é propaganda discriminatória, não é propaganda política", afirmou Vladyslav Heraskevych, citado pela agência Reuters.

A primeira-ministra ucraniana também reagiu, considerando a decisão do COI "profundamente errada". "Mais de 650 atletas ucranianos nunca pisarão o palco Olímpico. Foram mortos pela Rússia", escreveu Yulia Svyrydenko, numa publicação na rede social X.

"Perante esta realidade, a decisão de proibir o capacete do nosso atleta Vladyslav Heraskevych, que homenageia alguns dos nossos atletas que foram mortos, é profundamente errada", criticou, defendendo que "recordar os mortos não é política, é dignidade".

Os treinos de skeleton vão continuar esta terça-feira à noite, com o início das competições previsto para quinta-feira.

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