Depois do caso Pelicot, França enfrenta mais um julgamento chocante: cirurgião abusou de centenas de crianças anestesiadas

10 fev 2025, 12:04

 

 

Joël Le Scouarnec foi acusado de violação ou agressão sexual de 299 pacientes entre 1989 e 2014

Os casos aconteceram entre 1989 e 2014 e é agora o maior caso de abuso sexual de crianças na história de França: Joël Le Scouarnec, cirurgião, abusou de 299 pacientes ao longo de décadas, muitas das vezes enquanto estes estavam sob o efeito da anestesia.

Em pouco tempo, é o segundo caso chocante a ser julgado no país, depois do caso Pelicot, que culminou em dezembro com a condenação de todos os arguidos e com a pena mais elevada em França para o crime de violação - 20 anos - para Dominique Pelicot, o homem que engendrou todo o esquema, que sedou a vítima, abriu as portas da sua casa a estranhos e filmou a sua mulher a ser violada uma e outra vez.

Scouarnec, de 73 anos, trabalhou em vários hospitais públicos e privados da Bretanha e no oeste de França, e operava frequentemente crianças com apendicite, de acordo com o The Guardian.

Segundo Stéphane Kellenberger, procurador do Ministério Público de Lorient, "muitas vítimas estavam na sala de operações do hospital, sob anestesia, a recuperar após a cirurgia, em estado de sedação ou adormecidas, o que significa que essas vítimas não foram capazes de perceber o que lhes foi feito”.

O cirurgião foi denunciado pelo FBI às autoridades francesas em 2004 depois de ter sido apanhado a visualizar imagens de abuso de crianças na dark web. Na altura, Scouarnec foi condenado a uma pena suspensa de quatro anos de prisão, mas nunca foi impedido de trabalhar com crianças.

Agora, o cirurgião - que continuou a trabalhar em hospitais de todo o país - vai ser julgado por violação e agressão sexual de 299 pacientes, 158 do sexo masculino e 141 do sexo feminino. Das vítimas, 256 tinham menos de 15 anos e a idade média era de 11 anos.

Isto porque em 2017 os vizinhos de Scouarnec denunciaram-no à polícia e, durante as buscas, foram encontradas imagens dos abusos, cadernos e, escondida debaixo do soalho, uma coleção de bonecas. Em 2020, o cirurgião foi condenado a 15 anos de prisão por abuso de quatro crianças, uma delas hospitalizada, durante um julgamento que não foi público.

Agora, neste segundo julgamento, que deverá durar quatro meses, constam provas como os cadernos onde Scouarnec - que se encontra detido - escreveu as iniciais dos pacientes e os abusos. As autoridades cruzaram os dados dos cadernos com os registos hospitalares para identificar as vítimas.

O cirurgião admitiu alguns dos crimes, mas recusou outros, tendo explicado "o seu modus operandi, a sua determinação em agir desta forma, e as estratégias de dissimulação para não correr o risco de ser descoberto", revelou Kellenberger.

Francesca Satta, advogada de dez das vítimas, incluindo as famílias de dois homens que se suicidaram depois de terem sido informados pela polícia sobre o que lhes tinha acontecido, diz que foi devastador para muitas das vítimas, agora com 30 e 40 anos, ouvir excertos dos diários de Le Scouarnec quando eram crianças.

Sobre o julgamento de 2020, Satta diz que revelou "um manipulador, sem empatia ou compreensão das outras pessoas, que considerava como objetos sexuais" e que mostrou que "vivia numa bolha de abuso infantil".

"De certa forma, este é o julgamento de toda uma sociedade. Na altura, em França, havia um tipo de respeito pelas chamadas pessoas notáveis da sociedade, advogados ou médicos e cirurgiões. Estas pessoas eram de confiança e não eram vistas a cometer crimes. O julgamento abrirá também a porta a uma verdadeira análise judicial dos abusos contra crianças em França e da forma como devem ser tratados, em termos de penas e de prevenção", afirmou, acrescentando que Scouarnet era "um monstro que fez do seu local de trabalho o seu terreno de caça".

O advogado da organização La Voix de L'Enfant (A Voz da Criança), parte civil no processo, considerou que existiram uma "série de falhas e disfunções" a nível institucional que permitiram que o cirurgião continuasse a cometer crimes durante anos. Segundo Frédéric Benoist, quando o FBI informou pela primeira vez as autoridades francesas sobre a atividade online de Scouarnet, o cirurgião não foi detido. Em vez disso, foi chamado a comparecer na esquadra e na sua casa não foram encontradas quaisquer provas - que viriam a ser encontradas no seu gabinete no hospital, onde tinha imagens guardadas no computador de trabalho.

O segundo julgamento arranca dia 24 de fevereiro no tribunal de Vannes e pode resultar numa condenação de 20 anos para Scouarnet.

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