Os analistas duvidam que o nome lançado para a corrida por Joe Biden tenha o que é preciso para “galvanizar” e unir. Kamala Harris terá de provar o próprio valor. Os números indicam que o cenário não ficou mais fácil para Trump, apesar de ele insistir que sim
Os Estados Unidos - e o mundo – estão em suspenso. O que vem daqui em diante? Tudo mudou em poucas palavras. "Acredito que é do interesse do meu partido e do país que desista”. Depois de tanta pressão, Joe Biden desiste da recandidatura à Casa Branca. “Não desistiu, desistiram-no”, usando as palavras de Agostinho Costa, especialista em assuntos de segurança. Rei morto, rei posto. Ou rainha. O nome que mais se repete agora é este: Kamala Harris.
Biden veio preparar o terreno para o que aí vem. Após o anúncio da desistência, o presidente americano expressou o apoio à sua vice-presidente Kamala Harris. “Democratas, é tempo de nos juntarmos e derrotarmos Trump”, instou.
Para os analistas, como Azeredo Lopes, foi uma forma de evitar adversários internos. “Quem quiser ir a jogo para eliminar Kamala Harris tem de enfrentar Joe Biden”, diz. E, por isso, tal como aconteceu antes com Biden, espera-se que ninguém avance contra a “parceria extraordinária” do atual líder.
“Os primeiros sinais vão no sentido de Kamala Harris ser nomeada por falta de concorrência, o que aconteceu a Biden desde o início do ano. Biden procurou evitar que o Partido Democrata se parta”, reforça Francisco Pereira Coutinho, comentador da CNN Portugal.
Na hora de anunciar a desistência, o mundo – à exceção de Donald Trump e dos republicanos – uniu-se para elogiar o sentido de estado de Joe Biden. Ricardo Monteiro, comentador da CNN Portugal, defende que esta decisão “faz história”, colocando Biden “no panteão dos políticos que põem o interesse da nação acima do interesse pessoal”.
O mesmo vincaria o ex-presidente Barack Obama – que ainda há dias questionava as capacidades de Biden para continuar no cargo, uma ação vista como determinada na ponderação do presidente americano. “Um patriota do mais alto nível”, classificou.
Mas, sobre Kamala Harris, nem uma palavra de Obama. E é assim que o mundo vai avançar: na dúvida. Porque, apesar de Biden ter preparado o caminho para a possível sucessora, não é certo que a união entre os democratas vá falar mais alto. Por muito que seja fundamental para o seu sucesso coletivo.
“Sinto-me honrada por ter o apoio do presidente [Joe Biden] e a minha intenção é conseguir vencer esta nomeação", reagiu a vice-presidente.
Trump vs Harris: há hipóteses?
Foram poucos minutos para o candidato republicado Donald Trump reagir à decisão do rival: “o pior presidente de sempre na história do nosso país”. Ainda assim, apesar de Biden ser “o pior de sempre”, acredita que seria mais difícil de vencer do que Kamala Harris.
Todavia, há quem veja em todas estas mudanças um novo fôlego para o partido democrata. “Hoje é menos impossível derrotar Donald Trump do que ontem”, considera Azeredo Lopes. E uma sondagem da CNN Internacional aponta nesse sentido: colocando Harris e Trump lado a lado, não há um claro vencedor. 47% para ela, 48% para ele.
O embaixador Francisco Seixas da Costa, comentador da CNN Portugal, concorda que Joe Biden “seria mais fácil” para Trump derrotar, dado o processo de “desgaste crescente” do atual presidente americano. Para o comentador, “o surgimento de alguém novo na campanha, seja Kamala Harris ou outra pessoa que o Partido Democrata venha a selecionar, traz uma novidade”, abrindo um “tempo novo” ao partido.
“A única pessoa mais chateada do que Biden com a sua decisão é Donald Trump”, argumenta Daniel da Ponte, ex-senador democrata de Rhode Island, considerando que o frente a frente com Harris será mais duro do que com Biden.
Mas, como em tudo, há duas visões sobre o que virá a seguir. Rui Moreira, autarca do Porto e comentador da CNN Portugal, acredita que Kamala Harris não tem hipóteses no frente a frente.
“O presidente dos EUA não é escolhido por ser uma pessoa competente, é por ser um exemplo”. E vai mais além: representa uma ala mais à esquerda, “das novas causas, mais fraturantes”, que poderão não granjear apoio nos estados decisivos.
A democrata tem também elementos a seu favor, incluindo as origens, para obter o apoio de mulheres, negros e hispânicos. Contudo, como resume Daniela Nunes, especialista em relações internacionais, não teve ainda “tempo para brilhar”.
Entre o apoio e o silêncio: o que pesará mais entre os democratas?
Apesar de Biden ter identificado a sua preferência, acredita-se que as divisões se vão tornar evidentes no Partido Democrata. Sobretudo em causa de uma convenção aberta, onde vários nomes se podem perfilar, avisa Ana Cavalieri, especialista em relações internacionais.
Para Paulo Portas, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, foi Barack Obama quem “deu o golpe de misericórdia” na campanha de Biden, ao questionar as capacidades do atual presidente para continuar. E antecipa divisões daqui em diante entre os democratas.
Também Tiago André Lopes, comentador da CNN Portugal, faz questão de vincar a “falta de unidade” do partido. Em especial, porque há dúvidas se Kamala Harris será capaz de “galvanizar” os membros do partido.
E bastaram algumas horas para ver a fratura a abrir. Harris conseguiu apoios de peso, como da família Clinton. Mas muitos outros nomes sonantes nos democratas, como Barack Obama ou Bernie Sanders, não lhe fizeram qualquer referência na hora da decisão. O silêncio, nestas coisas, também pesa muito. “É o momento de prestar a devida homenagem e respeito [a Biden]”, justifica Rui Tavares, porta-voz do Livre. “Temos de esperar e não fazer tudo ao mesmo tempo”, reage Daniel da Ponte, ex-senador democrata de Rhode Island, sobre o silêncio de Obama.
Mas Obama deixou pistas. “Acredito que a visão de Joe Biden para uma América generosa, próspera e unida dá a oportunidade a todos de se apresentarem na Convenção Democrata em agosto”, escreveu Obama, dando a entender que prefere uma convenção aberta.
“As pessoas não votam em vice-presidentes. O peso pesado está todo em cima desta pessoa, que não é assim tão popular. Esta é a eleição do mal menor na América”, insiste a analista Daniela Nunes.
"Mais do que gerir as expectativas", Kamala Harris vai ter de gerir os "silêncios", resume Sónia Sénica, comentadora da CNN Portugal, reconhecendo que a indicação de Biden é “a tentativa de evitar o que pode ser uma espécie de fragmentação ainda maior do Partido Democrata”. Ainda assim, acrescenta, Harris não deixa de ser “uma escolha natural”, mas tem de provar a sua “mais-valia”.
Se desistiu da corrida, devia desistir da Casa Branca?
Biden desistiu. Contudo, os republicanos não desistiram dele. Ao longo da noite de domingo, várias vozes insistiram que, se Biden desistiu da corrida eleitoral, também não tem condições para se manter no cargo.
“O corrupto Joe Biden não estava apto para concorrer à presidência e certamente não está apto para servir - nunca esteve!”, vincou Donald Trump.
Tiago André Lopes, comentador da CNN Portugal, reconhece que há lógica nesta posição republicana. Contudo, dá um passo maior do que o pé. “Estamos a esticar o argumento. Uma coisa é não querer continuar mais quatro anos, outra é conseguir terminar este mandato”.
O especialista acrescenta que essas posições se colocam porque Biden se manterá em plenos poderes até transferir o cargo par ao sucessor. Entretanto, também a Casa Branca veio garantir que Biden não terminará o seu mandato antes do tempo.
Mas traz um revés: “O facto de Joe Biden se manter como presidente até ao final do mandato acaba por negar à candidata do seu partido a possibilidade de se apresentar como incumbente, como presidente em exercício”, vinca Rui Tavares, porta-voz do Livre.