Biden sai em "abuso de poder": estes perdões aos irmãos (e não só) são "uma tática típica dos autoritarismos e da extrema-direita"

CNN Portugal , BCE
21 jan 2025, 08:00
Joe Biden, Jill Biden, Donald Trump, Melania Trump (AP)

Joe Biden deu perdões presidenciais de última hora a familiares seus e ainda a críticos de Trump. No final, "acabou francamente mal" este mandato do democrata: “Biden sai de uma maneira que confirma mais semelhanças do que aquelas que nós gostamos de aceitar relativamente àquilo que vem a seguir"

“Biden está com medo da democracia que aí vem.” Só isto explica, no entender do comentador Ricardo Ferreira Reis, que Joe Biden tenha concedido perdões de última hora aos seus familiares e a membros do Congresso críticos de Trump, minutos antes da tomada de posse de Donald Trump. Para Azeredo Lopes, esta decisão “aproxima Joe Biden de Donald Trump”.

A comentadora Diana Soller entende que esta decisão é “um abuso de poder” por parte do ex-presidente. “Os perdões para memória futura são altamente irregulares numa democracia. Na prática, perdoam-se pessoas que não cometeram crimes ou podem não ter cometido crimes. O perdão preventivo de alguma maneira é um abuso de poder de um presidente.”

Ricardo Ferreira Reis diz mesmo que esta decisão “abre um precedente” para que o agora presidente Trump faça o mesmo no final do seu mandato. Mas não é preciso esperar para o final do seu mandato para ver isso mesmo: Trump já prometeu conceder perdões a algumas das centenas de pessoas condenadas ou acusadas de estarem relacionadas com o ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. Segundo o próprio Trump, “são os reféns do 6 de janeiro”.

É neste contexto que o comentador Azeredo Lopes considera que esta decisão de Joe Biden “aproxima-o de Donald Trump” e confirma uma tendência que se está a criar na política norte-americana. “É uma invocação cada vez mais corrente de uma espécie de poder de exceção, como se fosse um estado de emergência permanente.”

“Isto é uma tática muito típica dos autoritarismos e da extrema-direita, por exemplo, que é invocar sistematicamente um estado de emergência e poderes de exceção constitucional. O abuso do poder do perdão, por muito que esteja fundamentado em riscos que pudessem existir sobre aqueles que agora são protegidos, deixa-me sempre um sabor muito estranho”, admite Azeredo Lopes.

O comentador Azeredo Lopes diz mesmo que o perdão de Joe Biden ao seu próprio filho, Hunter Biden, poupando-o a uma possível pena de prisão por posse de armas e fuga fiscal, acaba por “dar razão a Trump quando ele se queixa de perseguição policial”. “Não me parece que o filho de Biden tenha sido condenado de forma injusta, não me parece que ele não tenha tido hipóteses de se defender”, sublinha.

Neste contexto, Azeredo Lopes entende que o mandato de Joe Biden “acabou francamente mal”, não só pela sua política externa mas também por estas questões internas. “Biden sai de uma maneira que confirma mais semelhanças do que aquelas que nós gostamos de aceitar relativamente àquilo que vem a seguir."

Estes indultos de Biden, a somar a uma presidência já de si muito fragilizada - com os “democratas muito fechados na elite e nos corredores de Hollywood”, como descreve Tiago André Lopes -, não abonam a favor de Joe Biden e do seu legado. “Estes quatro anos de presidência não deixam uma pegada histórica” na democracia norte-americana, avalia o comentador Tiago André Lopes, apontando que Biden não fez qualquer reforma interna, nem conseguiu “pôr a economia a funcionar”. “Acabaram por ser quatro anos perdidos”, diz, acrescentando que o Partido Democrata tem agora pela frente “um profundo processo de reflexão” para escolher um sucessor.

A decisão dos perdões presidenciais de última hora foi comunicada quando Biden já se encontrava no Capitólio dos EUA a preparar-se para a assistir à tomada de posse de Donald Trump. Em comunicado, Joe Biden disse ter concedido perdões para membros da sua família, nomeadamente os seus irmãos James, Frank e Valerie e seus respetivos cônjuges. Biden justificou a decisão com o facto de a sua família estar a ser “alvo de ataques e ameaças” apenas para o magoarem. “Infelizmente, não tenho razão para acreditar que estes ataques vão acabar”, afirmou num comunicado partilhado.

“É por isso que vou exercer o meu poder para, sob a Constituição, perdoar James B. Biden [irmão], Sara Jones Biden [cunhada], Valerie Biden Owens [irmã], John T. Owens [cunhado], e Francis W. Biden [irmão]”, afirmou.

Antes, Joe Biden já tinha concedido perdão a Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, muito crítico da política anticovid de Donald Trump, e ao general Mark Milley, que foi presidente do Estado-Maior de Trump e que descreveu o presidente como fascista.

No mesmo comunicado, Biden ressalvou que estes indultos não significam que esteja em causa qualquer crime. “A concessão destes perdões não deve ser confundida com o reconhecimento de que qualquer indivíduo se envolveu em qualquer infração, nem a sua aceitação deve ser mal interpretada como uma admissão de culpa por qualquer delito. A nossa nação tem para com estes funcionários públicos uma dívida de gratidão pelo seu incansável empenho no nosso país.”

E.U.A.

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