opinião

Berardo no país do “mamar doce”

11 mai, 21:36

Sabem aquelas fases das nossas vidas em que preferimos não nos lembrar de determinadas coisas? Quando tivemos tanta vergonha (alheia, neste caso) que é preferível deixar cair no esquecimento, como se nunca tivesse acontecido? Pois é essa a sensação que tenho quando me lembro de Joe Berardo e da prestação que teve quando foi à Assembleia da República gozar com a casa da democracia, com os deputados e, pior, com os portugueses

O tema teria caído quase por completo no esquecimento, até porque, neste momento, o país e o mundo têm coisas muito mais graves com que se preocupar. Uma guerra na Europa, uma crise económica, a incerteza do que será a nova geopolítica mundial, tudo temas muito mais importantes e relevantes do que o golpe do baú que uns quantos senhores deste país decidiram dar. 

Mas, eis se não quando, Joe Berardo strikes again. Que é como quem diz, decide dar o seu último esgar e fingir que passa da defesa ao ataque, sob o pretexto de defender o seu bom nome e os enormes serviços que prestou à pátria. 

O Diário de Notícias avançou esta semana com a notícia de que Joe Berardo deu entrada em tribunal com um processo contra quatro dos maiores bancos nacionais, pedindo uma indemnização de 900 milhões de euros. Uns trocos, portanto. Razão de queixa? Os bancos emprestaram-lhe dinheiro que ele pediu, exigiram como contrapartida ações de outros bancos, mas não lhe leram, em voz alta, como se ele tivesse cinco anos, o que dizia nas letrinhas pequeninas. Ou seja, não lhe explicaram que as contrapartidas para aqueles empréstimos – que, já de si, são altamente duvidosas – podiam, um dia, desvalorizar. E que ele, Joe Berardo, teria de pagar a diferença. Mais: que lhe esconderam as reais condições, fragilidades e riscos dos bancos — sobretudo do BCP, de que, já agora, Berardo já era acionista — e do sistema bancário português.

Joe Berardo, homem que se descreve a si próprio como alguém a quem a gloriosa pátria deve grandes serviços, vem agora alegar, imagine-se, falta de literacia financeira e de conhecimento da situação do sistema bancário português. Afinal, ele viu apenas uma oportunidade – dinheiro fresco e fácil – para investir nos seus múltiplos negócios e manipular o controlo acionista do maior banco privado português e nem olhou para trás. Nem para trás nem para a frente, que a cavalo dado não se olha o dente. E quem vier atrás que pague a conta. 

Claro que quando dizemos que os bancos emprestaram dinheiro a Joe Berardo estamos a falar em sentido figurado. Na verdade, emprestaram à Metalgest, empresa que detinha as participações do comendador, porque Berardo, coitado, não é dono de nada, a não ser de uma pequena garagem lá para os lados do Funchal. Os palacetes, as vinhas, os quadros, os carros, nada disso lhe pertence. Isso é para otários que gostam de pagar impostos e andar a trabalhar para o Estado. O cúmulo da espertice neste país é parecer rico sendo-se pobre. Ou vice-versa. Ser rico aparentando ser pobre. É escolher uma das duas opções, que ambas funcionam. 

Para quem tem uma garagem e nenhum outro recurso financeiro em seu nome, convenhamos que processar quatro dos maiores bancos sabendo que a justiça em Portugal é cara e lenta talvez seja um movimento arriscado. Mas Berardo sente-se lesado e, mais do que tudo, enxovalhado na praça pública. Só isso vale 100 milhões de euros. Mas, espantem-se: com todas as desgraças financeiras que lhe aconteceram, Berardo ainda tem dinheiro para ir atrás dos bancos.

Resumindo — até porque há assuntos mais importantes no país: depois de ter andado a gozar o pagode durante anos, a ser bajulado por reis, rainhas e princesas — que é como quem diz, presidentes, primeiros-ministros e ministros —, Joe Berardo deixou uns calotes valentes nos bancos, uma coleção de arte onde o Estado não consegue meter a mão (nem a Fundação o Governo conseguiu ainda extinguir) e um país perplexo com tamanha displicência e arrogância.

Por isso, se um dia achar que a falta de vergonha tem limites, esqueça. Berardo estará cá sempre para nos lembrar que isso não é verdade. E que, com quase 50 anos de democracia, Portugal continua a ser um país, dois sistemas: o dos que pagam as suas contas e nunca souberam o que era o famoso elevador social e o dos que subiram nesse elevador até ao topo, sem pagar um cêntimo do seu bolso. Como diria um amigo meu, “é um mamar doce”. 

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