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Coordenador de Grande Reportagem e editor de Religião e Cidadania TVI/CNN Portugal

“É este…”

26 set, 22:32

1. Aquele Retiro de Quaresma, em fevereiro de 2018, enchera a alma de Francisco. O padre-poeta português percorrera as sedes do mundo. Embalado por poetas, filósofos e pensadores que o deslumbram, cristãos e não-cristãos, de Fernando Pessoa a Etty Hillesum, fez um percurso de silêncio(s) com os cardeais da Cúria romana. O Elogio da Sede em 10 meditações tocou o pontífice.

No final, o Papa agradeceu o empenho de José Tolentino Mendonça e confidenciou a um colaborador mais próximo que estava diante da pessoa certa. “É este...” Desenhava-se já na cabeça do Papa a reforma da Cúria romana, para quem não há funções impessoais, mas pessoas que dignificam os lugares que ocupam e lugares que precisam das pessoas certas.

As palavras podem não ter sido exatamente estas, mas o Papa pediu ao colaborador que nada dissesse sobre o seu plano, para que não houvesse gente a por “pedras no caminho”. Discreto, para ser eficaz, Francisco não desencadeou um processo formal de nomeações episcopais, sujeito a jogos de influência.

Passados cinco meses, de surpresa, elevou José Tolentino Mendonça ao episcopado. Uma escolha do Papa argentino, que lhe pediu que não deixasse a poesia, apesar das responsabilidades assumidas. Pouco mais de um ano depois, o bibliotecário e arquivista do Vaticano – que vê “fogo” nas palavras e nas bibliotecas um “projeto de resistência” à barbárie – era já cardeal com assento no colégio de eleitores.

2. A nomeação para o dicastério da Cultura e da Educação estava anunciada nas entrelinhas de uma relação que se foi aprofundando na proximidade. É a consequência óbvia de um percurso previsível.

Na prática, Tolentino Mendonça será um dos 16 “ministros” no governo da Santa Sé. Na Educação, vai tutelar quase 1800 estabelecimentos universitários católicos em todo o mundo e 217 mil escolas. Cerca de 75 milhões de alunos.

Na Cultura, tem a responsabilidade do património, mas, sobretudo, do diálogo da Igreja com os “mundos” da cultura, do desporto e da ciência, terrenos onde se sente como artífice de pontes para ambientes que têm dificuldade em dialogar com a fé e a Igreja, ou vice-versa. Tolentino percorre as periferias dos mais altos debates. “A fé é uma relação tátil”, é “expectativa”, tem “a forma de uma hipótese” (in A Mística do Instante). 

No Dia de Portugal, em 2020, citou Camões e relançou um desígnio grande demais para ficar na clausura da língua portuguesa. “A normalidade não é um conhecido lugar a que se volta, mas uma construção” que pede empenho.

O discurso, a convite do Presidente da República, seria publicado em livro – O que é amar um país. Traçando o “itinerário de um país, cada geração é chamada a viver tempos bons e maus, épocas de fortuna e infelizmente também de infortúnio”, diz o cardeal-poeta, e “o importante a salvaguardar é que, como comunidade, nos encontremos unidos em torno à atualização dos valores humanos essenciais e capazes de lutar por eles”. Não é de estranhar a admiração de Francisco, leitor de poetas e pensadores de universos vastos.

“O tempo é um alçapão”, escreveu José Tolentino Mendonça num pequeno livro de poesia a que chamou Teoria de Fronteira. Fazem eco as palavras do Papa quando o fez cardeal: “tu és a poesia”.

3. À beira dos 57 anos, é um dos mais jovens cardeais eleitores. A nova função dá fôlego à pergunta que não tem resposta: até onde?

A história dos séculos XX e XXI dá um enquadramento. Dos últimos dez Papas, sete são italianos, dois europeus e um sul-americano. Apenas dois estavam ligados à Cúria romana no momento da eleição. A maioria era titular numa diocese.

Portugal tem, neste momento, três cardeais eleitores. É inegável a projeção que Francisco dá à Igreja portuguesa. Mas a língua, a nacionalidade, a idade ou o cargo, são apenas pormenores entre os critérios que contam na escolha de um Papa.

Os prévios debates com os cerca de 120 que vão entrar na Capela Sistina, servem para alinhar sensibilidades e perfis na leitura do tempo.

Os analistas estão já atentos a José Tolentino Mendonça, que tem pela frente quase três décadas até ao limite de idade para eleger e ser eleito Papa. Muito tempo se recordarmos que os primeiros 22 anos do século XXI já conhecerem três pontífices.

O trabalho exigente que o espera no dicastério da Cultura e Educação, há-de juntar-se ao percurso pastoral e académico, com um prestígio intelectual e uma sensibilidade poética que lhe abre um vasto horizonte de possibilidades de diálogo.

Na perspetiva de uma era de radicalismos insanáveis, este é um dos mais complexos desafios sociais e culturais, com exigência antropológica, política e também religiosa, implicando obrigatoriamente a instituição Igreja católica, onde escasseiam interlocutores para tão emergente tarefa. 

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