opinião
Economista; Professor Associado e Coordenador na Universidade Europeia; Investigador Integrado no CETRAD

O realismo de Centeno faz falta no comando do BCE

22 jul 2025, 15:40

Durante meses, o Banco Central Europeu agiu como se a inflação fosse o único inimigo da estabilidade económica da Zona Euro. Subiu as taxas de juro dez vezes em apenas 15 meses com o objetivo de travar uma inflação que, em boa parte, tinha raízes externas: choques energéticos, disrupções nas cadeias de abastecimento e tensões geopolíticas. O tempo veio mostrar que política monetária ultra contracionista foi mais agressiva do que o necessário. Agora, o BCE corre o risco de causar deflação. Provavelmente é um mal que pode gerar efeitos pelo menos tão maus quanto os da inflação, ou até piores.

As previsões mais recentes colocam a inflação em 2026 nos 1,6%, significativamente abaixo da meta oficial de 2%. Este número é sintomático de uma economia que se está a esvaziar por dentro. Uma inflação persistentemente baixa impulsiona o desemprego, a quebra do investimento e o declínio do consumo. Christine Lagarde já reconheceu erros de comunicação e gestão, mas as consequências são reais e já se manifestam no abrandamento económico europeu. O BCE prevê apenas 0,9% de crescimento na Zona Euro para este ano e 1,1% em 2026.

E o mais intrigante é que nem as políticas desordenadas e inflacionistas de Donald Trump são suficientes para contrariar os efeitos recessivos da política monetária europeia. A deflação, e não a inflação, é agora a nova ameaça. A própria Reuters já admitiu a possibilidade de um regresso às taxas de juro nulas ou mesmo negativas. E não se trata de mera especulação mediática. Foi o editor geral da área de finanças e mercados da agência que notou que, se ajustadas à inflação, as taxas reais na Zona Euro podem já ser negativas em breve.

Quando as vozes dentro do sistema, incluindo o governador do Banco de Portugal, pediam moderação e alertavam para o atraso nos efeitos da política monetária, o BCE manteve-se intransigente. Hoje, tenta corrigir o rumo, já tendo promovido oito cortes consecutivos nas taxas. Mas o tempo perdido não volta atrás. O efeito das subidas ainda está a fazer o seu caminho na economia real.

Entretanto, o investimento continua débil, o consumo frágil, e as exportações a caminho da estagnação. É certo que a transição digital e a IA, ao reduzirem custos, também comprimem os preços. Ainda assim, não são razões suficientes para o processo de estagnação que a Zona Euro está a atravessar. Os riscos são claros. Se a expectativa dos agentes económicos for de preços em queda, o adiamento de decisões de consumo e investimento pode empurrar a Europa para uma espiral negativa, difícil de reverter.

Perante este cenário, é inevitável reconhecer o mérito de quem, mesmo dentro da máquina europeia, foi alertando para o exagero. Mário Centeno, com uma postura prudente e pragmática, foi-se destacando por antever os riscos de uma política do BCE excessivamente contracionista. A sua leitura realista dos ciclos económicos e a consciência clara em relação ao desfasamento temporal entre a ação monetária e o seu impacto real revelaram-se acertadas. Portanto, sobretudo pela lucidez demonstrada num período de decisões difíceis, talvez não seja exagero afirmar que daria um pragmático e realista presidente do BCE. São predicados extraordinariamente relevantes para o cargo. 2027 já não está assim tão longe.

A política monetária não é uma ciência exata. Mas o que o BCE deve agora evitar é persistir no erro apenas por não querer admitir que errou. A taxa de juro neutral, segundo Centeno, deverá agora ser ultrapassada. Para já, não se sabe se o próximo passo pode mesmo ser negativo. Certo é que hesitar na reação a um processo deflacionário pode ter consequências económicas irreversíveis.

Colunistas

Mais Colunistas