«O Ronaldo devia dar-me o dízimo, apareço a fazer figura de urso»

28 out 2021, 09:19
João Ricardo

João Ricardo foi o guarda-redes que sofreu os primeiros golos de Cristiano Ronaldo, no Sporting-Moreirense de 2002

7 de outubro de 2002, Estádio de Alvalade, Sporting-Moreirense. Os holofotes estavam virados para Mário Jardel, que regressava à competição com a camisola leonina, mas a noite foi de um menino a cumprir o quinto jogo como titular, aos 17 anos: Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro.

O Sporting, campeão nacional, tinha apenas uma vitória em sete jogos, entre dois empates e quatro derrotas. Boloni, a lidar com a contestação, apresenta um onze ofensivo com os jovens Quaresma e Ronaldo nos flancos, para além de Jardel e Kutuzov ao centro.

«As atenções estavam centradas no Jardel, claro, e no Quaresma, que era a coqueluche. Mas naquele dia foi o Ronaldo que me conseguiu irritar, a mim e a todos os meus colegas que lá estavam», explica o guarda-redes do Moreirense nesse jogo de 2002, João Ricardo, em declarações ao Maisfutebol.

Com meia-hora de jogo, até foi Vitali Kutuzov a inaugurar a contagem. Quatro minutos depois, escreveu-se uma página importante na história de futebol mundial: Ronaldo marcou o primeiro golo pela equipa principal do Sporting.

Tõnito tocou de calcanhar para Cristiano Ronaldo e o jovem arrancou. Fugiu a Flávio Meireles e a Jorge Duarte, encarou Cristiano Grotto e fintou o defesa brasileiro à entrada da área. À saída de João Ricardo, picou a bola por cima do guarda-redes.


«Ainda há dias fez mais um aniversário e todos os anos alguém me faz recordar essa história. De cada vez que faz anos ou que o Ronaldo atinge mais um número redondo de golos, lá circulam de novo as imagens do lance, o Ronaldo a passar por toda a gente, eu irritado porque ninguém fez falta, ele a rematar e eu a aparecer no chão», diz João Ricardo, atualmente com 51 anos.

Pelo número de vezes em que é recordado do lance e pelo desfecho da sua ação, o antigo guarda-redes até acha que devia ser compensado: «O Ronaldo devia dar-me o dízimo», atira, a brincar, acrescentando com humor: «É que de cada vez que passam as imagens, apareço eu a fazer figura de urso.»

Figura de urso?

«Não consegui evitar o golo com aquela saída, mas eu era assim. Aliás, antigamente era assim que os guarda-redes abordavam os lances, saíam da baliza e tentavam fazer a mancha. Hoje em dia não, parecem guarda-redes de andebol. Sabem ficar na baliza e até jogar com os pés, mas sair da baliza com as mãos…esquece», salienta João Ricardo.

Cristiano Ronaldo viria a bisar na partida, marcando de cabeça já ao minuto 90+5, na sequência de um livre cobrado por Rui Jorge (3-0). O resto é história. Aquele jovem terminaria a época com 31 jogos e cinco golos, faria uma exibição de sonho na inauguração do novo Estádio de Alvalade e assinaria contrato com o Manchester United.

João Ricardo, que já tinha na altura 32 anos, cimentou a sua posição no Moreirense e na Liga ao longo das épocas seguintes. Em 2006, defendeu a baliza da seleção de Angola no Mundial, reencontrando um Ronaldo já consagrado.

«Fui ao Mundial por Angola, tive duas subidas de divisão, fui uma vez campeão da II Liga. Foram coisas que me marcaram. Mas pronto, valendo o que vale, aquele golo do Ronaldo também ficou na minha história. E o Ronaldo, por mais golos que continue a marcar, nunca vai certamente esquecer o primeiro», remata o antigo guarda-redes, que reside atualmente em Angola e que tem uma empresa de madeiras, derivados e ferragens.

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