Cinco dúvidas sobre a morte de João Rendeiro

15 mai, 09:00

Três meses de fuga às autoridades, uma detenção inesperada a mais de dez mil quilómetros de Portugal e a insistência de recusar a extradição - que podia proporcionar uma vida mais fácil numa prisão portuguesa. A vida de João Rendeiro está marcada de mistérios e incidentes por explicar. Como o da sua própria morte

1. Porque é que não aceitou a extradição?

Muitas pessoas se questionaram acerca do motivo que levou a esta recusa por parte do antigo banqueiro, que poderia ter evitado ficar detido numa prisão sul-africana conhecida por ter um ambiente muito tenso entre reclusos. Poderemos nunca ter uma resposta clara a esta pergunta.

“Não admito voltar a Portuga. Não vejo nenhum cenário onde isso possa acontecer”, disse o antigo banqueiro em declarações à CNN Portugal, naquela que foi a sua última entrevista. Rendeiro rejeitou sempre todas as acusações que lhe foram feitas contra si e dizia-se vítima de uma perseguição por parte do Estado português.

Nessa mesma entrevista comparava a quantidade de crimes de que era acusado com aqueles de que Ricardo Salgado, antigo líder do Banco Espírito Santo, era acusado. “É uma pessoa que é protegida pelo sistema”, referiu Rendeiro. Questionado sobre se algum dia admitiria voltar a Portugal, o ex-banqueiro disse que o “único cenário possível seria não haver condenações” e que, nesse caso, só regressaria caso o Presidente da República lhe concedesse um indulto.

Quando lhe perguntaram se estava disposto a deixar para trás uma vida inteira de recordações - pessoais e familiares - e nunca mais voltar, foi inequívoco. “Isso faz parte justamente da grande carga que eu deixo para trás e que é uma carga muito dolorosa, como é evidente, e, portanto, devo dizer, com toda a franqueza, que este caminho que eu assumi não recomendo a ninguém.”

2. Como é que alguém se consegue suicidar numa prisão de alta segurança?

Para quem está familiarizado com o contexto prisional na África do Sul, esta vai ser uma das questões mais difíceis de resolver. "O grande problema vai ser: porque é que isto aconteceu? Na prisão há guardas que devem circular pelas celas. E um ato de suicídio não é algo que acontece rapidamente - precisa de preparativos. Como é que isto não foi visto?", afirmou o advogado sul-africano Emile Myburgh, em declarações à CNN Portugal.

O advogado diz que a investigação não pode descartar a possibilidade de o antigo presidente do Banco Privado Português ter recebido ajuda de alguém dentro da prisão. “Tem de haver uma investigação profunda e Portugal deve exigir isso”, acrescenta.

O processo, admite Myburgh, pode ser demorado, uma vez que “tudo o que envolve um departamento do Ministério sul-africano é demorado”, mas especialmente num caso que envolve uma morte “em condições duvidosas”. Esta combinação de circunstâncias pode levar a que a investigação “dure várias semanas”.

“A versão final atual é a de que terá sido suicídio. Mas se sabemos que ele poderá ter contacto com dezenas de outros prisioneiros e que as relações interpessoais na prisão são tensas, não podemos excluir a possibilidade de alguma coisa pior, como um homicídio, ter ocorrido.”

3. A morte numa cela diferente

Quando o antigo banqueiro foi capturado a 11 de dezembro do ano passado na África do Sul, depois de ter fugido de Portugal para não cumprir pena no processo BPP, acabou por ficar preso durante seis meses na prisão de Wesville, numa cela de 80 metros quadrados partilhada por cerca de 50 reclusos, por se opor ao pedido de extradição.

Porém, a advogada de João Rendeiro, June Marks, afirmou, em declarações ao jornal Correio da Manhã, que o seu cliente teria sido transferido para uma outra cela onde "estava sozinho ou com muito pouca gente", para a qual terá sido transferido uma vez que ia ser presente a tribunal esta sexta-feira.

“Pediram-me para identificar o corpo. Estou à espera da chamada do responsável da investigação para ir. Depois irei tratar dos procedimentos para a trasladação”, afirmou June Marks, que diz que a notícia da morte do ex-banqueiro, de 69 anos, “foi um grande choque” e que “ninguém estava à espera”.

A mandatária do ex-banqueiro admitiu ainda ter expectativas baixas em relação às diligências feitas para apurar as causas da morte. “Duvido que descubram muito mais na investigação.”

4. Milhões em off-shores e sem dinheiro para a advogada

No processo-crime em que João Rendeiro foi condenado estavam identificadas pelo Ministério Público duas companhias offshore que tinham como beneficiária a sua ex-mulher, Maria de Jesus Rendeiro, onde estariam vários milhões de euros. Segundo dados da Autoridade Tributários sobre o património dos ex-administradores do BPP, a Oltar Investments Ltd, companhia que tinha Rendeiro como último beneficiário, movimentou 21,88 milhões de euros.

Porém, a falta de dinheiro parece ter sido a causa que levou a advogada sul-africana June Marks a optar por não continuar a defender o antigo líder do BPP no processo de extradição por falta de pagamento.

Ao que tudo indica, Rendeiro terá deixado de ter acesso aos seus recursos financeiros e, com isso, de poder pagar os honorários da advogada. Esta não aceitou continuar a defendê-lo e esta sexta-feira seria nomeado um defensor oficioso.

Sobre se a falta de dinheiro motivou o fim da relação profissional entre ambos, Marks recusou-se a comentar. “Isso permanecerá privado entre mim e o Sr. Rendeiro. A decisão foi minha e é privada”, afirmou a advogada sul-africana, continuando: “Fui eu que solicitei a comparência no tribunal. Ele morreu antes de eu poder retirar [o patrocínio]”. A advogada acrescentou, no entanto, que a última vez que esteve com Rendeiro na prisão foi em abril.

5. "Nunca tinha estado tão forte mentalmente"

Quando utilizou a expressão “liberdade ou morte”, na sua última entrevista, emitida pela CNN Portugal a 22 de novembro, ninguém esperava que João Rendeiro levasse o significado desta frase ao seu limite.

Quando foi detido pelas autoridades protagonizou vários momentos em que se mostrou confiante num desfecho satisfatório para evitar o processo de extradição em Portugal, onde tinha sido condenado a 10 anos de prisão.

À saída do tribunal, chegou mesmo a dizer confiante: “Eu não vou regressar a Portugal”. Pouco depois, o juiz negou ao banqueiro a liberdade sob caução, no entanto o magistrado chegou ofereceu-lhe uma cela isolada, diferente de confinamento solitário, "perto da enfermaria, mas ele não quer ficar isolado”, segundo a sua advogada.

Ainda assim, nada fez crer que o João Rendeiro acabasse por tirar a sua própria vida pouco tempo depois de ter sido descrito por June Marks como estando forte psicologicamente e preparado para se defender perante um juiz.

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