O motorista, o banqueiro, o condenado, a sua mulher e a arte deles: Rendeiro num filme sem heróis

14 mai, 07:30
João Rendeiro em tribunal (DR)

Podia ser o argumento de um filme de Hollywood, mas com João Rendeiro a realidade ultrapassa a ficção. Esquemas, polémicas, personagens secundárias, planos de fuga e um desfecho trágico.

1. A paixão do casal: a arte

Nos filmes há sempre um elemento de união. No casal Rendeiro um dos elementos é a demonstrada paixão por arte, que fez nascer a coleção pessoal, a coleção do BPP (com que forrou as paredes da sede do banco) e a coleção da Fundação Ellipse.

As obras da primeira têm alimentado, nos últimos meses, muitas surpresas – e comprovado como a arte escondia, afinal, esquemas. Maria de Jesus Rendeiro era a fiel depositária das obras de arte que eram encaradas como uma garantia para os lesados do BPP. Quando as autoridades quiseram saber o paradeiro delas, perceberam que mais de uma dezena das 124 estavam em parte incerta. Depois de uma ida (pouco esclarecedora) a tribunal, foram as obras de arte a colocar o grande amor de Rendeiro em prisão domiciliária na Quinta Patino - e a arrestar quase todos os bens da família.

O ex-banqueiro terá encaixado mais de um milhão de euros ao vender, sem poder fazê-lo, oito das obras que estavam à guarda da mulher. Recentemente, a Polícia Judiciária acabou por recuperar, numa galeria em Bruxelas, um desses quadros desaparecidos – “Piaski”, do artista Frank Stella – que tinha sido vendido por mais de 126 mil euros. Nas buscas, acabou por ser encontrada também uma imagem de Nossa Senhora do século XVI, avaliada em 10 mil euros. Estava em casa do motorista da família. E esse é o mote para o próximo capítulo.

Rendeiro com a mulher, uma das peças-chave na investigação

2. O motorista de confiança

Nos filmes e séries, há uma figura onde os poderosos tendem a apoiar-se sempre que precisam de fugir rapidamente de um lugar ou de levar a sua em diante: o motorista.

No caso de João Rendeiro, esse cliché parece bem real. Em 2015, o ex-banqueiro vendeu imóveis em Lisboa a Florêncio de Almeida, presidente da ANTRAL, alegadamente abaixo do preço de mercado. Três anos depois, o “rei dos táxis” e a mulher passaram essa propriedade para o filho: Florêncio Correia de Almeida, que foi durante anos o motorista da família Rendeiro.

Com a venda dessa propriedade por 1,5 milhões, muito acima do preço a que o pai a tinha comprado, o filho Florêncio acabou a comprar um apartamento milionário na exclusiva Quinta Patino, onde moravam os patrões.

A história não fica por aqui: o motorista cedeu o uso, em troca de 200 mil euros, por 15 anos a Maria de Jesus Rendeiro. É lá que está a cumprir prisão domiciliária. As autoridades estão agora a investigar estes negócios, por acreditarem que o carro não terá sido a única coisa levada por Florêncio Correia de Almeida para a família Rendeiro – pai e filho, acreditam, terão servido de testas-de-ferro para branqueamento de capitais.

Florêncio de Almeida fez negócios com Rendeiro. O filho, com o mesmo nome, era motorista da família

3) Protagonista: do miúdo gozado ao “self made man”

“Não me estou a queixar, mas tive uma vida de luta. E acho que só faz bem às pessoas”. João Rendeiro quis para si a imagem de “self made man”, que alimentou dezenas e dezenas de filmes de Hollywood. Ele foi o rapaz de famílias humildes, gozado pelos outros miúdos no bairro, que trilhou o seu caminho até ao sucesso - com a ajuda da mulher para pagar os estudos universitários.

Mesmo chegando ao meio financeiro, as resistências para pertencer à desejada elite foram muitas, segundo relatos do próprio. Uma “sardinha” no meio dos tubarões, descreveu-se. Filho de um sapateiro e de uma doméstica, Rendeiro conseguiria rodear-se dos nomes mais poderosos de Portugal. Elogios não lhe faltaram.

Em 2008, enquanto o BPP começava a afundar-se, lançava um livro para mostrar o seu exemplo. No prefácio, João Cravinho descrevia a capacidade do ex-banqueiro de “chegar mais alto pelo seu próprio mérito, com toda a limpeza”. Noutro dos seus livros, David Justino escrevia que “Rendeiro conhece bem os meandros da política e dos negócios”. Tanto que foi próximo do líder máximo da nação. Em 2006, foi um dos financiadores da campanha presidencial de Cavaco Silva. Nesse mesmo ano, como Presidente da República, Cavaco elogiava, com Rendeiro ao lado, “os empresários e gestores de sucesso”.

Foram muitas as contrariedades a atrasar o processo de extradição

4. Salgado, o arqui-inimigo

Nos “blockbusters”, o protagonista, por mais simpático que seja, tem sempre de enfrentar um inimigo – ou, caso contrário, não há ação para avançar. No caso de João Rendeiro, essa força do mal tem um nome: “o sistema”. E, se ele pudesse ser personalizado, Ricardo Salgado seria a primeira opção. Isto porque, na última entrevista dada à CNN Portugal, Rendeiro dizia-se injustiçado e fazia uma comparação direta com o antigo presidente do Banco Espírito Santo, que era “protegido pelo sistema” e “segue com a sua vida tranquila”.

“Como nunca paguei nada a ninguém e não tenho segredos de Estado, sou um poderoso fraco”, argumentava Rendeiro, enquanto apontava também o dedo ao Banco de Portugal por não ter afastado Salgado aos primeiros sinais de problemas no Grupo Espírito Santo. E, nesta crítica, encontra-se um dos alvos recorrentes dos ataques do gestor ao longo dos anos: o regulador bancário, que bloqueou várias das soluções desejadas por Rendeiro para o BPP. Na altura da queda do banco, acusou o então governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, de ser controlado pelo primeiro-ministro. Quem assumia este cargo em 2008? José Sócrates.

Nas idas a tribunal, era notório o desgaste no ex-banqueiro

5) Um plano de fuga com moradas falsas

João Rendeiro saiu de Portugal a 14 de setembro de 2021 com destino a Londres. Apesar de estar a contas com a Justiça, podia viajar para qualquer país. Mas havia uma contrapartida: teria de informar as autoridades para que destino se ia deslocar e fornecer a morada onde ficaria instalado. É aqui que regressam os contornos de filme a esta história.

Rendeiro utilizou as moradas dos postos diplomáticos. “É inequívoco que uma representação consular ou uma embaixada não são lugares de livre disposição e fruição pelos cidadãos, sendo portanto desprovido de razoabilidade que o arguido as indique como constituindo o seu paradeiro”, lê-se no despacho do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa, que exigira a sua presença em audiência a 1 de outubro. Mas Rendeiro já estava, na altura, em paradeiro incerto.

A 28 de setembro, já condenado a prisão efetiva, anunciou que não voltaria a Portugal. “Legítima defesa”, argumentou. O plano de fuga seria capaz de inspirar os melhores argumentistas, até porque se terá socorrido de passaportes falsos e de contas offshore para tentar não deixar rasto: de Londres para Doha, no Qatar, de jato privado. E depois, daí, até à África do Sul, onde circulou por várias cidades até ser detido, em pijama, num hotel de luxo, a 10 de dezembro. A vida real, com Rendeiro, parece superar os filmes. O final, a morte na prisão, a contrastar com todo o luxo da narrativa.

 

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