Há frio em Portugal mas vem aí futebol quentinho. É preciso falar sobre isso
Só um jogador do habitual plantel do Sporting é que é menos valioso que o jogador mais cotado do Boavista. Pelo menos desse ponto de vista - o financeiro -, é baixa a probabilidade de os axadrezados vencerem em Alvalade. Mas no ponto de vista extra-finanças, a pressão sobre a equipa da casa é enorme e já se viu na era João Pereira como isso mexe nas probabilidades.
É que são quatro jogos seguidos não apenas sem vencer mas a perder, três deles contra adversários teoricamente inferiores. Depois de Ruben Amorim ter igualado o melhor arranque de sempre do clube no campeonato, o Sporting encontra-se num ciclo infernal que só Dante poderia descrever com exatidão. Desse início inacreditável sobra agora outro recorde: o Sporting igualou o pior registo, com quatro derrotas seguidas, o que já tinha acontecido outras cinco vezes, a última em 2012, num período em que perdeu com Videoton, FC Porto, Moreirense e Genk.
É isso mesmo: se perder em casa com o Boavista, o Sporting fica com o pior registo de sempre.
Voltando às probabilidades: em condições normais, seja lá o que isso for neste pós-Amorim, seria mesmo difícil para o Sporting perder com o Boavista, uma equipa que quase nem tem guarda-redes, que teve de se socorrer de um jovem de 17 anos (Tomé Sousa) e que se viu obrigada a mandar vir de volta César, jogador que tinha dispensado em 2023 e que se encontrava sem clube - mas que entretanto assinou como se se tratasse de uma renovação. Era isso ou nada, já que os axadrezados estão impedidos de inscrever jogadores pela FIFA por terem dívidas.
Mas o Boavista, mesmo tendo o segundo plantel mais barato da Liga (avaliado em 15,6 milhões pelo Transfermarkt e apenas à frente do plantel do surpreendente Santa Clara), vai sobrevivendo com os seus 11 pontos em 13 jogos. Está no 14.º lugar e dois pontos acima do lugar de play-off e do primeiro lugar de descida.
Já o Sporting é, também segundo o Transfermarkt, a equipa mais valiosa da Liga. O plantel está avaliado em 443,5 milhões de euros, 28 vezes acima do Boavista. Só Viktor Gyökeres, o mais cotado dos sportinguistas, vale 4,5 vezes mais que todo o plantel dos axadrezados.
É neste contexto que João Pereira tenta arrancar para algo diferente: vencer um jogo para o campeonato enquanto treinador do Sporting. Receber o Boavista em Alvalade seria, há um mês, algo teoricamente fácil. Mas Ruben Amorim saiu e o Sporting deixou de saber ganhar, excetuando o 6-0 aplicado ao Amarante, da Liga 3, para a Taça.
Mas o Sporting deixou de ter jogos fáceis desde essa vitória diante do Amarante. Nem sequer se percebe bem quão a prazo estará João Pereira no Sporting, mas o treinador que o próprio Frederico Varandas colocou na rota de grandes clubes dentro de pouco tempo dificilmente sobreviverá a um mau resultado neste jogo, sobretudo com a fama do tribunal sportinguista a voltar ao de cima, depois de quatro anos e pico de paz com o senhor que foi para Manchester e deixou um clube órfão.
João Pereira tem este sábado uma oportunidade para respirar de alívio ou, na pior das hipóteses, para deixar de ter espaço.
A paixão de Cristoamorim
O balão que João Pereira perdeu foi uma herança pesada deixada por Ruben Amorim, um maestro da tática que ainda tem o dom de conseguir comunicar como poucos - algo que o campeonato português já não via desde José Mourinho.
E Amorim e Mourinho são parecidos até no destino - transitaram para o frio inglês. Mas no caso de Amorim não foi para Londres, antes para Manchester, onde foi recebido quase como um Messias.
Para já, além de não ter chagas - pelo menos que se vejam - também não faz milagres. E tentar ganhar jogos com Johnny Evans ou Harry Maguire andaria próximo de transformar água em vinho.
Como se os paralelismos não bastassem, Ruben Amorim tem assim um fim de semana parecido com o de João Pereira. Não está tão na corda bamba, nem pouco mais ou menos - embora a instabilidade do dono do Manchester United possa trazer dúvidas -, mas a paixão inicial já abriu lugar à dúvida colocada pelos dois últimos jogos na Premier League.
Perder em Londres com o Arsenal até pode ser considerado normal, mas ser derrotado em casa pelo Nottingham Forest não, de todo. São quatro jogos no campeonato inglês e apenas quatro pontos acumulados. E o calendário não é bom.
É que o próximo adversário do United está ferido. Mas de um animal ferido desconfia-se sempre - e de um animal como o Manchester City ainda mais. Sim, este fim de semana há dérbi de Manchester, o primeiro de Ruben Amorim no Etihad.
Será fácil dizer que o Manchester City não caiu, não pode cair, pelo que todos esperam que, mais tarde ou mais cedo, se venha a levantar e a voltar ao seu normal, que é ganhar. Para bem de Ruben Amorim, esse reerguer bem pode esperar mais uns dias.
Aliviado não ficará, porque não está tão apertado assim, mas pode começar a entrar numa via sacra se a coisa não correr como deve ser no domingo. É que depois do City vem o Tottenham e a possível eliminação da Taça da Liga, depois vem um difícil Bournemouth, depois a deslocação a Wolverhampton e depois... Newcastle, Liverpool e Arsenal.