Rui Santos acredita na “solução-Palhinha” para o Benfica e diz que, em tese, será um “boost” para Marco Silva e Rui Costa. Mas há quem pense o contrário: caro, sem retorno e um problema para o balneário. Quem tem razão?…
Já está: Palhinha é, oficialmente, jogador do Benfica.
Fomos sempre dando o ponto da situação desta operação e, em antecipação, fomos dizendo o essencial: no começo do mês, as negociações estavam comprometidas e Rui Costa e a sua “estrutura” achavam que a contratação do internacional português ao Bayern de Munique era quase uma “missão impossível”. As coisas, entretanto, evoluíram e, nos últimos 20 dias, sensivelmente, mobilizei-me no sentido da CNN e do V+, através das minhas colaborações, pudessem contar as variáveis reis do processo. E assim foi: a “missão impossível” tornou-se “missão possível”, com a revelação do acordo (14+5M€) e da longevidade do contrato, mais as questões inerentes ao salário e ao prémio de assinatura.
Só quando a bola rolar e Palhinha estiver integrado vamos ver se foi uma boa aposta do Benfica, mas — embora tenha sempre de haver cautelas ainda mais nos tempos de hoje do futebol —estou convencido, como já afirmei, que se trata de um “tiro” que pode melhorar a equipa de Marco Silva, ainda por cima um treinador que o conhece muito bem.
Marco Silva deve estar feliz e tem razões para estar feliz. A partir de Palhinha, quando ele estiver pronto para competir a um nível elevado (pode não ser chegar, ver e vencer, embora os tempos de adaptação estejam cada vez mais reduzidos e o Benfica tem pressa de voltar a ser campeão), o treinador dos “encarnados” pode fazer uma melhor seleção dos activos que dispõe no plantel e, portanto, sem nunca excluir a hipótese de as coisas poderem não ser potencialmente tão optimistas como em tese se apresentam, a esperança cresceu, num ápice, para os benfiquistas. É uma operação de risco para Marco Silva, Rui Costa e para o próprio jogador, que também se vai sentir pressionado para apresentar credenciais ao serviço das águias? Sem dúvida! Mas o valor do atleta e a projeção daquilo que ele pode fazer, em razão do seu perfil e da carreira que tem atrás dele, estão na base daqueles que acreditam na sua contração, e estamos a falar em primeira análise de Marco Silva, Rui Costa e Mário Branco, sem esquecer o essencial que foi o momento em que Palhinha “desarmou” o Bayern, quando comunicou que queria mesmo jogar no Benfica.
Entretanto, o presidente do Sporting, Frederico Varandas, introduziu este domingo uma questão potencialmente fracturante que, na verdade, dividiu os adeptos sobre a contratação de Palhinha pelo Benfica, face aos números que foram apresentados.
O presidente dos leões afirmou que, nos finais de Junho, o Sporting se interessou pelo jogador (sob contrato com o Bayern), mas que este deu preferência ao Tottenham (com quem se vinculara por empréstimo dos bávaros em Agosto de 2025) deixando claro, no entanto, que — quando percebeu os números que podiam estar em causa — os “leões” nem chegaram a negociar. Nem com Palhinha nem com o Bayern e foi aí que entrou a corrida (consumada com êxito) por Altimira. E isto é importante, porque chegou a pairar a ideia de que Varandas e a sua estrutura negociaram números concretos com o seu ex-jogador e com o Bayern e isso, ne verdade, não aconteceu.
O entendimento dos “leões” foi… muitíssimo caro (!!!), uma loucura para um jogador com 31 anos de idade, considerando o binómio utilidade desportiva/esforço financeiro.
O Benfica foi construindo, a pouco e pouco, uma ideia diferente. As negociações entabuladas biunivocamente entre o Bayern e o Aston Villa e, também, o Newcastle começaram a esvaziar e, perante a insistência de Marco Silva, no sentido de reforçar a sua ideia de jogo através de um jogador que conhecia muito bem de trabalhar com ele no Fulham, em ambiente de alta competitividade, Rui Costa fez um forcing para tentar chegar a um acordo com Palhinha e com o Bayern de Munique. E o acordo aconteceu.
Quando no sábado Palhinha chegou a Lisboa, com uma bagagem generosa, os jornalistas quiseram naturalmente arrancar-lhe palavras mais definitivas sobre o seu eventual compromisso com o Benfica, mas o jogador sabia que não se podia abrir muito, porque àquela hora ainda não trazia a rescisão com o Bayern na mão e, por isso, embora pudesse fazer parte da verdade — um fim-de-semana para visitar a família — estávamos apenas perante uma verdade conveniente perante a inviabilidade de ter de fugir às perguntas da imprensa. O fim-de-semana serviu também para se ganhar tempo e a aterragem em Lisboa na companhia “Air Palhinha”, secundado em segurança pelos “caças” Rui Costa e Marco Silva, trazia com ela um halo de esperança.
A esperança que, entretanto, ficasse tudo resolvido.
Afinal, o acordo entre o Benfica e o Bayern estava feito e, segundo me dizem, sem hipótese de ser revogado por exemplo pelo fundo soberano saudita ou por outra “mina de ouro”, passe a expressão, e, como também fui dizendo ao longo deste processo, o acordo entre o Benfica e Palhinha já estava consumado (fazendo as contas agora) há cerca de 15 dias, pelo que os detalhes ficaram presos por questões pendentes entre o centrocampista português e o clube bávaro.
Os alemães têm a expectativa de ganhar com a operação entre 18 e19M€ (o acordo foi feito por 14+5); os responsáveis benfiquistas acham que as variáveis não são fáceis de cumprir e apontam entre os16 e os 17. E há que ajuntar o prémio de assinatura (na ordem dos 2/3 M€) para compensar de algum modo o que deixaria de ganhar até 2028, uma vez que Palhinha ainda tinha 2 anos de contrato com o Bayern, a ganhar à razão de 10M€ por época, isto é, havia grosso modo perto de 20M€ por vencer até 2028, e isso também foi levado em linha de conta pelo Benfica na questão do tal “prémio de assinatura” e, entre o Bayern e Palhinha, podiam estar em causa eventuais parcelas diferidas de prémio de assinatura, tratamento fiscal e comissões ligadas à cessação antecipada, prémios por títulos títulos ou objectivos entretanto alcançados. No futebol, os adeptos às vezes desesperam mas há operações mais complexas do que outras. Coisas anunciadas, oficiosamente, como “simples”, mas que podem levar dias a resolver, como aliás aconteceu, mas com o passo em frente de o jogador ter feito, entretanto, exames médicos na segunda-feira no hospital da Luz, a rescisão era assumida como consumada.
Durante o empréstimo ao Tottenham, o clube inglês assumiu a totalidade do salário e pagou ao Bayern uma taxa de empréstimo entre 5 e 7M€, o que significa que estamos a falar de um jogador caro, uma vez que o clube bávaro pagou ao Fulham 51M€ com variáveis pré-definidas de 5 Milhões, perfazendo um custo máximo de 56M€.
Por aqui se vê que, apesar do interesse do Bayern já vinha de 2023 (e chegou a haver um acordo na base de 65M€) e só chegou a consumar-se um ano depois (pelos tais 51+5) porque entretanto o clube inglês não arranjou naquela altura um jogador para a posição de Palhinha, feitas as contas estamos a falar de um prejuízo do Bayern nesta operação global na ordem dos 30 a 35M€, porque se considerarmos o investimento no passe, a taxa de empréstimo recebida do Tottenham e agora a venda ao Benfica, não deixando de considerar, obviamente, que o Bayern liberta cerca de 20M€ de encargos salariais relativos às duas próximas temporadas, talvez se possa concluir que o clube germânico perdeu a cabeça quando foi buscar o internacional português a Londres, onde Palhinha, ao serviço do Fulham, demonstrava toda a sua pujança e influência.
Isso são, no entanto, detalhes do passado. Palhinha foi apresentado, fez as tradicionais fotos com Rui Costa e gravou as primeiras palavras na Luz, , não há dúvida de que estamos perante uma operação de algum risco, mas olhando para a equipa do Benfica e para a ideia de jogo de Marco Silva, o Benfica com Palhinha, como tenho dito aqui, fica mais próximo de ser campeão nacional. E é isso que os adeptos querem e é isso que Rui Costa necessita para a sua reabilitação presidencial. Uma reabilitação só se faz com resultados. Varandas está a olhar para o lado da rivalidade e de uma parente racionalidade. Rui Costa talvez esteja a tentar fazer uma “volta olímpica”, se a posta resultar. E só o tempo dirá quem teve razão. Tenho de confessar, repito, enquanto observador, que acredito muito, desportivamente, nesta operação. Boa para o Benfica e para a Liga portuguesa.
Vejo “estofo-extra” em Palhinha — e Marco Silva só não lhe dá a braçadeira de capitão porque, a este nível, já tinha feito as suas escolhas e não quer criar uma factor de (eventual) perturbação suplementar, porque nos clubes de futebol e, já agora, nas empresas há sempre alguma desconfiança sobre quem entra debaixo de alguma exuberância mediática.
Como em tudo no futebol, e independentemente das sentenças que por aí já foram feitas, só saberemos se esta operação vai ser cara ou barata quando a bola começar a rolar no —passe a expressão — “Benfica de Palhinha”. A única coisa que sabemos é que o Bayern perdeu a cabeça quando foi buscar o jogador a Londres mas ainda assim conseguiu a perda contabilística que estará na ordem dos 10-13 M€, considerando as amortizações feitas desde 2024. Mas disso os adeptos do Benfica não querem saber. Só querem ver Palhinha a varrer o que houver para varrer. Futebolisticamente.
Em síntese: Palhinha-de-ouro ou Palhinha-de-papel? Agora o debate é entre benfiquistas e sportinguistas… Uma coisa é certa: a Liga portuguesa em geral vai ganhar com mais um foco de atração.
