A história do miúdo que nunca abandona os colegas: nem que para isso tenha de levar a psicóloga

6 out 2023, 13:33
João Neves

João Neves viajou para o Seixal com 12 anos e rapidamente entrou no lote dos jovens mais promissores da formação encarnada. Hoje, é um caso de maturidade e talento, que dá nas vistas por vestir sempre a camisola por dentro dos calções, num sinal de respeito pelos princípios que o pai lhe passou.

[João Neves estreia-se na convocatória da seleção principal de Portugal, poucos dias depois de celebrar o seu 19.º aniversário. O Maisfutebol recupera uma reportagem sobre o jovem médio do Benfica, publicada a 28 de abril de 2023]

O episódio foi acompanhado pelo Maisfutebol há cerca de um ano: João Neves tinha-se lesionado com gravidade no final de março, já sabia que ia ficar vários meses afastado dos relvados, mas nem nessa altura difícil abandonou os colegas.

Nem sequer para se proteger. De uma natural tristeza, por exemplo. Ou da frustração.

Por isso pelas 10 horas lá estava ele, no campo de treinos número nove do Seixal. Tinha chegado lentamente, a movimentar-se com o apoio de muletas, encostou-se ao muro e ficou a ver os companheiros da equipa sub-19 a treinar.

Ao lado dele, sempre ao lado dele, estava Vanessa Rosa, uma das psicólogas que trabalham com a formação. Aquele gesto de juntos acompanharem o treino dos juniores, enquanto conversavam sobre tudo, era um ritual que se repetia com grande frequência.

A lesão no ligamento tinha-lhe roubado a final four da Youth League e iria afastá-lo dos últimos jogos da época, na delicada transição para sénior. Tanto assim que só voltou a jogar em agosto. Mas nem nessa altura João Neves deixou de ser um elemento do grupo: mais um.

O castigo do Benfica por causa de umas caixas de Powerade...

Nuno Gomes foi diretor da formação durante o crescimento de João Neves e garante que o miúdo, que chegou ao Seixal com 12 anos, sempre foi assim.

«O João Neves sempre mostrou ser esse tipo de pessoa. Além de um futebolista com muito potencial, é um elemento adaptado à vivência do clube, que criou laços de amizade muito grandes com os colegas e com os treinadores», referiu Nuno Gomes ao Maisfutebol.

«Aqueles miúdos eram colegas de equipa, colegas de quarto, colegas de brincadeiras. O João sempre foi um miúdo muito preocupado com o bem-estar de todos, até porque ele é também um produto do trabalho de muita gente que está todos os dias no Benfica Campus.»

As psicólogas, os nutricionistas, os fisioterapeutas, os preparadores físicos, as explicadoras, os monitores, as pessoas enfim que estão sempre no Seixal acabam por se tornar família.

«Os jogadores crescem num ambiente em que percebem que não lhes falta nada, mas percebem também que o processo é longo e há que passar por sacrifícios. Ele sempre percebeu isso muito bem. Sabe que é difícil chegar sozinho e tem um espírito de equipa muito grande.»

Nuno Gomes ainda sorri, de resto, ao lembrar-se do episódio das Powerades: uma história revelada ao jornal O Jogo pelo colega Pedro Santos.

Basicamente um grupo de miúdos descobriu onde o Benfica guardava as bebidas energéticas e juntou-se para invadir a sala. Entraram à socapa, saíram com algumas caixas e fugiram ao segurança, que entretanto tinha percebido que alguma coisa de estranho se passava.

No dia seguinte, porém, foram confrontados com as imagens das câmaras de vigilância. Tinham sido apanhados e não havia forma de o negar. Foram então chamados ao gabinete do diretor Nuno Gomes, chegaram a temer ser expulsos, mas acabaram castigados apenas com a proibição de ir ver os jogos da equipa principal durante algumas semanas.

«São jovens na flor da idade e às vezes com muito tempo livre, apesar da escola e dos treinos. Na área residencial, quando estão a viver todos juntos, e eu posso falar por experiência própria porque também passei por isso, acabam por juntos fazer algumas asneiras. Eu percebo, porque também vivi peripécias parecidas», sorri Nuno Gomes.

«Desde que não se ultrapasse o limite, são situações para mais tarde rir. Na altura, sendo o responsável, tinha de atuar perante os factos e foi a maneira que usei para os disciplinar, porque sei que lhes ia doer. Ver a equipa principal era uma coisa que todos queriam.»

... A paixão pelo Benfica que lhe vem do berço...

João Neves viveu sempre por entre o encarnado à Benfica, de resto.

Filho de um agente da Polícia de Segurança Pública e de uma professora de Educação Física, nasceu em Tavira há 18 anos e começou a jogar na Casa do Benfica de Tavira. Da qual o pai é treinador e se tornou entretanto também coordenador.

Com oito anos mudou-se para o Centro de Formação e Treinos do Benfica no Algarve, onde conheceu Gonçalo Ramos e onde foi orientado por Manuel Ramos, antigo avançado do Salgueiros e pai do agora avançado do Benfica. O Centro de Formação e Treinos do Benfica funcionou em Paderne, primeiro, e em Ferreiras, mais tarde, pelo que todas as semanas, quatro vezes por semana, João Neves tinha de fazer 120 quilómetros para ir treinar e jogar.

O pai, Pedro Neves, tinha sido também jogador, chegou a ser campeão distrital ao serviço do Serpa, mais tarde dedicou-se ao futvólei e às caminhadas, pelo que o desporto, e sobretudo o futebol, sempre esteve presente no seio familiar.

O jovem médio garante, porém, que nessa altura só queria jogar e divertir-se com os amigos. A coisa só ficou verdadeiramente séria depois de ser convidado a fazer um treino de captação no sintético ao lado do Estádio da Luz, e de ser convidado a integrar as equipas do Benfica.

Tinha na altura 12 anos. Apoiado pelo pai e pela mãe, deixou a casa e mudou-se para o Seixal, onde fez as maiores amizades. Nomes como António Silva, André Gomes ou Hugo Félix tornaram-se quase irmãos, com quem passava horas e horas de conversa e brincadeiras.

A época passada foi a última na residência do Seixal. A chegada aos 18 anos obrigou-os a procurar uma casa só deles e a deixar as antigas histórias guardadas na memória.

A maioridade trouxe também as melhores notícias, porém.

... E a camisola por dentro dos calções por respeito aos princípios que o pai lhe passou

Esta época João Neves estreou-se na II Liga, na Liga e na Champions. Tudo no espaço de poucos meses. No último fim de semana foi pela primeira vez titular na equipa principal. Cumprindo um sonho antigo e provando a ele próprio que os sacrifícios valeram a pena.

«Ele sempre foi um dos jogadores que o departamento de formação acreditou que tinha potencial para chegar à equipa principal», acrescenta Nuno Gomes.

«O que está a fazer agora é basicamente confirmar o potencial que quem trabalhou com ele acreditava que ele tinha.»

O miúdo impressiona, aliás, pela maturidade que demonstra em campo. O que vem muito de valores como o trabalho, a seriedade e o respeito que os pais sempre lhe passaram.

O facto de utilizar a camisola por dentro dos calções, por exemplo, é um hábito que lhe foi incutido desde muito novo pelo pai.

Para além de agente da PSP, Pedro Neves foi também forcado em Serpa, é um homem rigoroso, correto e rígido, pelo que a camisola por dentro, à moda de antigamente, é um sinal de apreço pelo clube e respeito pela própria camisola.

Nas equipas que orienta na Casa do Benfica de Tavira, aliás, os miúdos utilizam sempre a camisola por dentro dos calções, para evitar sinais de desleixo e desinteresse.

Ora por isso, o hábito ficou e João Neves mantém a tradição algo ultrapassada da camisola por dentro dos calções. Sem receio das aparências. Mais importante para ele é transmitir um sinal de respeito pelos princípios que lhe foram passados pelo pai.

Foram esses princípios que o mantiveram ao lado dos colegas, na companhia atenta de uma psicóloga, nos treinos em que não podia entrar por estar lesionado. E foram também esses princípios que cativaram a atenção de Nuno Gomes no tempo em que trabalharam juntos. 

«Olhando para o João Neves hoje em dia é fácil elogiá-lo, mas eu sempre fui fã dele. É um craque, como costumamos dizer, e está aproveitar as oportunidades que está a ter.»

Relacionados

Benfica

Mais Benfica

Mais Lidas

Patrocinados