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José Sócrates, a Ascensão

29 out 2025, 22:04
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"O homem que nos enganou e o País que se deixou enganar”, esta é uma frase muito feliz de José Sócrates - Ascensão (1957/2005), do jornalista João Miguel Tavares (D. Quixote, 2025), um livro que é um documento único de história contemporânea indispensável para qualquer português perceber o percurso dos primeiros 48 anos de vida do antigo primeiro-ministro – de onde veio, as alianças que fez, os amigos que teve e aqueles que ficaram sempre na sombra, os apaniguados que recrutou como cães de fila, as escadas que subiu para cruzar as portas do poder, as manipulações e os esquemas em que se envolveu até se tornar verdadeiramente poderoso e um perigo para o Estado de Direito.

O livro é também um hino magnificamente bem escrito ao jornalismo, mas não a todo o jornalismo. Podem até parecer muitos pela quantidade de artigos e de livros que o livro cita, mas tenho a certeza de que João Miguel Tavares sabe que esta é uma história onde só cabem alguns jornalistas, aqueles que remaram contra a maré, até no interior das próprias redações dos órgãos de informação, sobretudo em jornais e revistas. Basta ver quantos jornalistas da área da “Política” (aqueles que melhor conheciam Sócrates e tinham mais acesso aos dados e às fontes de informação) que assinaram as investigações citadas por Tavares. Por exemplo, José António Cerejo trabalhava na secção do “Local” do jornal Público.

Sócrates sempre teve muitos aliados ou simpatizantes no caminho que foi fazendo para o poder, e os media não foram uma exceção. Muitos, mesmo muitos, ficaram fascinados pelo político e outros tiveram medo de fazer o que quer que fosse até pelas ações judiciais que Sócrates iam distribuindo. A mim, muito tempo depois, Sócrates quis que os tribunais me condenassem a pagar-lhe 1,5 milhões de euros. Bloqueou até a publicação de uma capa sobre ele com uma providência cautelar subscrita pelo advogado Miguel Prata Roque, que foi depois secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros do Governo de António Costa, antes de se tornar um aguerrido comentador televisivo e o candidato vencido à liderança da Federação da Área Urbana de Lisboa do PS.

Publicar histórias sobre Sócrates e os múltiplos casos que sempre o rodearam  -  da investigação do Freeport à licenciatura expedita na Universidade Independente, dos projetos manhosos das casas na Guarda à sede da Deco, dos negócios dos apartamentos de luxo no edifício Heron Castilho à Cova da Beira; do Face Oculta às tentativas de controlo da comunicação social – foi uma tarefa quase solitária de vários jornalistas e, muitas vezes, sem replicação ou aprofundamento das investigações em jornais, revistas, rádios e televisões concorrentes. Não raras vezes, fazia-se um tremendo silêncio cúmplice.

Mesmo numa fase posterior às histórias que são contadas neste livro, lembro-me bem da atuação de vários personagens dos media, por exemplo, de Afonso Camões. O início das relações de amizade e de compadrio com José Sócrates - reveladas em pormenor no livro – são fundamentais para se perceber a atuação em 2014 do prussiano maçon Camões, sócio de Sócrates na A Gazeta do Interior no final da década de 80 e o homem a quem caíram no colo, nas décadas seguintes, cargos políticos e direções e administrações de órgãos de informação. As escutas apanhadas na Operação Marquês revelam em todo o seu esplendor o que era o jornalista ou administrador da Lusa e depois da Global Notícias. Entre outras coisas, avisou Sócrates que estava sob investigação e foi também o conselheiro de como lidar com os jornalistas insubordinados - “(…) tens é que, no momento, (...) ir às fuças de quem tem a responsabilidade dessas coisas”, aconselhou Camões em 2014.

João Miguel Tavares definiu uma regra para fazer este livro: limitar as fontes da investigação áquilo que foi publicado em jornais, revistas e livros, bem como ao que ouviu na rádio e viu nas televisões ao longo dos anos. Uma opção que poderia trazer-lhe vários amargos de boca – muitas notícias foram publicadas ao longo dos anos e naturalmente algumas teriam erros ou imprecisões -, mas o jornalista fez muito bem o trabalho de puzzle cruzando milhares de informações e assim reduziu ao mínimo a possibilidade de erro ou de imprecisão. Sempre com um objetivo em mente, como o próprio confessa na introdução do livro: a personalidade de José Sócrates, as suas contradições e os seu métodos estiveram à vista de todos ao longo dos anos em que ele exerceu o poder.

Longe deste livro ser apenas um desfilar de dados soltos, entre episódios, pessoas e relações citados em notícias, a Ascensão é antes uma narrativa bem organizada e muito bem explicada sobre Sócrates e as suas circunstâncias, da infância à vida adulta, dos amigos às estratégias de conquista de poder, primeiro a nível local, depois no PS e no País.  E sem complexos. Nas palavras de Tavares, “o objetivo deste livro é mostrar Sócrates em toda a sua complexidade, e não transformá-lo maldosamente numa caricatura de si próprio. Nem ele o merece, nem este livro cumpriria os seus objetivos se o resultado fosse um retrato sem espessura, nem profundidade”.

O livro está assim dividido: as origens (1957/80), a entrada na política (1981/94), a entrada no governo (1995/01) e o caminho para o poder (2002/05). São os primeiros quase 50 anos de vida de José Sócrates, ainda que naturalmente em cada um destes grandes capítulos surjam muitas ligações a episódios ou a momentos bem mais recentes que são necessários para explicar cabalmente os acontecimentos. Os personagens das histórias sucedem-se procurando o autor sempre o início da teia de relações, o porquê de este ou aquele surgir em fases decisivas posteriores, vincando ainda as incongruências das narrativas oficiais: da madrinha de casamento Edite Estrela ao padrinho televisivo Emídio Rangel e ao amigo fantasma Carlos Santos Silva, que até à publicação pela Sábado da existência da Operação Marquês nunca apareceu em nenhum perfil, em nenhuma referência pública feita por Sócrates.

No livro, está Sócrates em família, na política, no interior e na grande cidade. Sócrates Redford ou Clooney, o reservado e o mundano. “Ele não quer nada para ele. Ele quer tudo para os outros. Tudo. Ele não gosta de dinheiro. O dinheiro é escravo dele. Ele não é escravo do dinheiro”. – disse em 2005 a mãe de Sócrates numa rara entrevista televisiva. As palavras da mulher que considerava o filho como “O Magnânimo” são hoje uma peça de antologia que o livro de João Miguel Tavares também destaca.

Mas não vão ficar por aqui as mais de 550 páginas da vida de Sócrates, porque está prometido que virá aí muito mais: o segundo livro será dedicado ao Poder (2005/11) e o último vai centrar-se na Queda, este inteiramente dedicado à detenção, acusação e julgamento do antigo líder do PS. No fim, e como diz o autor, a ideia não é “entrar na cabeça de José Sócrates”. Apenas se ambiciona “que José Sócrates não volte a entrar na nossa. Ele ou outros como ele, que venham um dia a assemelhar-se nos métodos, no discurso, no charme e na desfaçatez”.

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