opinião
Investigador universitário doutorado. Estuda a crise da democracia liberal, com foco nas guerras culturais, polarização e impactos nos direitos fundamentais

Da Aximage a Londres - o descontentamento é o pai do nacionalismo

15 set 2025, 18:47

Ninguém acorda fascista, como ninguém acorda de um clube de futebol; há todo um contexto sociológico – vulgarmente chamado “caldo social” – que é responsável pelas biografias e pelas escolhas.

Serve esta ideia de mote para uma reflexão que começa na mais recente sondagem da Aximage que dá o Chega à frente nas intenções de voto (recordando que em Portugal não se elege, de jure, o primeiro-ministro), dentro de uma margem de erro, mas que serve como fotografia do momento.

A esquerda, que tem vindo a sofrer abalos sucessivos, persiste em acreditar que o problema é a sociedade e não as suas opções político-ideológicas, continua a ter por grelha de leitura a ideia de que quem vota em André Ventura é inerentemente fascista e/ou racista, uma leitura apressada e que parte de um imaginário desligado da realidade.

Seja em Portugal, nos Estados Unidos, França, ou países escandinavos, onde quer que a direita radical nacionalista cresça há um punhado de fatores presentes: (i) cansaço face ao bipartidarismo e aos partidos mainstream que (1.) não foram capazes de reinventar a democracia liberal de maneira a que esta fosse capaz de prover ao maior número de pessoas, (2.) se tornaram máquinas eleitorais e de lugares, envoltas em redes de clientelismos endémicos; (ii) insegurança económica derivada tanto das crises internacionais quanto das alterações ao tecido laboral e industrial que originou incerteza quanto ao futuro;  (iii) alterações demográficas rápidas, com uma imigração significativa e culturalmente diversa.

A estes fatores junta-se o erro de cálculo dos partidos de esquerda, historicamente ligados à luta de classes e à representação dos mais pobres, que optaram por apostar nas lutas culturais e identitárias, abandonando os trabalhadores brancos pobres porque não cabem numa grelha intersecional.

Quando viramos a agulha para o Reino Unido, a compreensão de como o descontentamento é o pai do nacionalismo é, ainda, mais evidente. Não se trata, apenas, do facto indesmentível de que a Inglaterra (especialmente) é identificada pela sua crença histórica num destino especial enquanto «nação», resultante do processo de criação da Igreja Anglicana e de um lastro de racismo endémico imperial com tradução dentro de fronteiras. Há fatores adicionais que ajudam a compreender por que milhares de pessoas saíram às ruas de Londres num gesto simbólico que, metaforicamente, reedita o Brexit, num protesto pela reconquista da soberania e identidade britânicas. Há muito que o Estado Social inglês está depauperado. O serviço nacional de saúde, segundo relatos de profissionais no terreno, distribui paracetamol à população, seja uma constipação ou dores relacionadas com doenças oncológicas. Nos grandes centros urbanos, a habitação está cara e é escassa. A pressão migratória é outro aspeto central, com uma transformação que, ao longo de meio século, converteu milhares de residentes estrangeiros em milhões, transformando a composição demográfica em muitos locais, resultando numa alteração demográfica que atinge o âmago dos nacionalismos como foram constituídos desde o século XIX: em torno da identidade cultural e racial. Adicionalmente, e com alto valor crítico, temos o problema dos migrantes que atravessa o Canal da Mancha por botes, cujo dever de acolhimento tem um impacto orçamental gigantesco, já que são gastos milhões de libras em alojamento em hotéis, agudizando o ressentimento popular.

Assim, o acumular de descontentamentos, o deslaçar social e as rápidas mudanças introduzidas por movimentos progressistas precisamente num tempo em que a precariedade, a insegurança laboral e as mudanças demográficas se tornaram em factos políticos, ajudaram a construir uma plataforma de oportunidades para uma resposta nacionalista.

A pergunta já não é se o tempo do iliberalismo chegou, mas até onde irá.

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