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Lula 4.0 ou dinastia Bolsonaro? O Brasil roda e fica no mesmo lugar

19 ago, 08:52
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O Brasil incorporou em parte do seu imaginário político o messianismo e a profecia portuguesa, do sebastianismo aos ecos do Quinto Império. Quem olha para a história política brasileira sabe que o país permanece a potência prometida, sempre por vir. Enquanto isso, permanece preso a estruturas históricas persistentes, as tecnologias de poder e gramáticas sociais.

O Brasil é a versão tropical e mais pobre dos Estados Unidos: racialmente dividido, internamente assimétrico e com um fosso social profundo. Mas a sua situação agrava-se porque não dispõe do mesmo peso estratégico global e, para o que aqui nos interessa, a sua consolidação democrática permanece frágil.

A culpa colonial pelos males do Brasil é uma espécie de álibi honroso, que permite externalizar a culpa e não incentiva a arregaçar as mangas. A colonialidade pode ter deixado estruturas sociais e económicas, que continuam a condicionar o presente, mas essas estruturas não impedem o Brasil, independente, de assumir o controlo da sua trajetória.

A verdade é que o Brasil viu o século XX ser turbulento, com transições democráticas e períodos de ditadura, incluindo a ditadura militar instaurada em 1964, cujo golpe contou com apoio político e logístico norte-americano, no quadro da contenção do comunismo e da preservação da esfera de influência dos Estados Unidos.

Após a ditadura militar, coube a José Sarney conduzir a primeira presidência civil da redemocratização e governar durante o processo constituinte, que culminou na promulgação da Constituição de 1988, que ampliou e constitucionalizou direitos civis, políticos e sociais. Porém, o período foi marcado pela hiperinflação, com uma crise económica severa à qual os sucessivos planos económicos responderam com êxitos apenas transitórios. Fernando Collor de Mello sucedeu a Sarney, eleito numa plataforma populista em que se apresentou como “caçador de marajás”, adversário dos privilégios do funcionalismo e da corrupção. A sua resposta foi de natureza liberalizante, combinando abertura comercial, desregulação e privatizações; o Plano Collor incluiu ainda o bloqueio de ativos financeiros da população. Todavia, o seu governo foi marcado por escândalos de corrupção tornados públicos após denúncias apresentadas pelo seu próprio irmão. Sofreu forte pressão popular – nomeadamente através do movimento dos Caras-Pintadas – e acabou por renunciar antes do julgamento final do impeachment, que prosseguiu no Senado e o tornou inelegível por oito anos.

A instabilidade política deste período mostrou um Brasil com dificuldade de transição para a democracia, em que não basta que haja eleições livres; é preciso que as instituições sejam eficazes, a separação de poderes efetiva e a corrupção não capture o funcionamento do Estado.

Seria, contudo, com Fernando Henrique Cardoso que o Brasil acabaria por encontrar um rumo político e económico mais previsível. Partindo de uma matriz social-democrata adaptada ao contexto brasileiro, Cardoso foi capaz de consolidar a estabilização monetária iniciada com o Plano Real, quando era ministro de Itamar Franco, desenvolver políticas públicas de combate à pobreza, fomentar a educação e robustecer as instituições.

A chegada de Lula da Silva à Presidência, em 2003, manteve pilares fundamentais da política macroeconómica anterior e expandiu significativamente as políticas sociais de combate à pobreza. Entre 2003 e 2010, Lula da Silva cumpriu dois mandatos importantíssimos para a mobilidade social brasileira, reduzindo a pobreza e ampliando o rendimento, o consumo e o acesso à educação, incluindo ao ensino superior. No entanto, o período ficou também marcado por esquemas de financiamento político ilícito e corrupção – do Mensalão às redes em torno da Petrobras –, cuja origem não pode ser reduzida ao peso do Estado, envolvendo igualmente o presidencialismo de coligação, a contratação pública e as relações entre partidos e grandes empresas.

Mas uma das consequências políticas da transformação social associada ao lulismo foi a ascensão de uma reação conservadora, uma frente alargada que reuniu saudosistas da ditadura e setores das classes médias historicamente favorecidas, que viram a mobilidade social como ameaça aos seus privilégios raciais e de classe, com a presença de jovens negros e pardos nas universidades, com as “crias da favela” a entrarem nas empresas da cidade.

Isso foi um dos motores para o bolsonarismo. A sua ascensão resultou também da recessão iniciada em 2014, do antipetismo alimentado pela Lava Jato, da insegurança pública, da mobilização evangélica e do uso intensivo das redes sociais. Em convergência com o trumpismo, e posteriormente reforçado por ele, o bolsonarismo representa um nacionalismo de fervor religioso, ultraconservador, ligado a setores do agronegócio e a um estreito alinhamento com a direita norte-americana, promovendo uma divisão do país numa verdadeira guerra cultural pela alma do Brasil: de um lado, o projeto nacionalista autoritário e de fervor religioso; do outro, o projeto encarnado pelo petismo, herdeiro do sindicalismo, do trabalhismo e da esquerda católica, mas hoje também atravessado pelo progressismo moral, pelas agendas decoloniais e pelo identitarismo de matriz norte-americana.

Essa clivagem continua a definir o país. Se a última eleição entre Jair Bolsonaro e Lula da Silva teve por mote essas duas mundividências, a próxima eleição, em 4 de outubro de 2026, tende a reproduzir a mesma divisão ideológica, com Lula da Silva e Flávio Bolsonaro como os seus principais polos.

Em outubro, se a disputa se concentrar nesses dois polos, o Brasil vai ter de escolher entre a dinastia Bolsonaro – com o seu alinhamento pró-Trump, uma agenda liberal de privatizações e uma retórica soberanista que frequentemente cede perante afinidades ideológicas transnacionais, um moralismo evangélico que procura converter doutrina religiosa em norma pública, e um nacionalismo que assenta mais na performance estética e na mobilização do ressentimento do que num projeto nacional coerente – e mais um turno de Lula da Silva.

No final, o país fica a perder. O projeto lulista parece já não ter um horizonte novo para oferecer ao país, e o projeto bolsonarista arrisca subordinar o interesse nacional a uma agenda de privatizações e à lealdade política ao trumpismo.

Com isto, o Brasil continuará a ser o país que há de vir.

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