Ao volante de um trator, de feira em feira, de beijinho em beijinho, benzendo-se antes de falar, vendo no país profundo, no “verdadeiro Portugal”, os traços de uma sociedade messiânica, ansiosa por quem lhes desse voz, por políticos que estivessem “lá”, onde o vento faz a curva, onde o sobreiro é sombra e onde cresce urze e o chão é lama, o “Paulinho das feiras” tornou-se símbolo de um populismo moderno português, numa época em que o terreno não era, ainda, propício para plantar essa semente.
Paulo Portas, se teve o génio de perceber que o populismo de direita tinha “pernas para andar”, fê-lo, contudo, antes do tempo. Adicionalmente, embora tivesse grande capacidade de comunicação, faltava-lhe a ligação direta ao eleitorado popular que Ventura soube encarnar. Deixou, contudo, lições.
Essas lições foram aprendidas, de forma exemplar, por André Ventura, que encarna o que Herbert Kitschelt (1997, The Radical Right in Western Europe) e autores vindouros definiram como empreendedorismo político de direita radical, isto é, o resultado da conjuntura entre mudanças estruturais nas sociedades europeias (como a desindustrialização e a insegurança cultural) e a capacidade dos partidos radicais de formular uma oferta política atraente.
Se Portas antecipou o caminho, Ventura percorreu-o com vantagem, repetindo exatamente a mesma gramática que estava no CDS da década de 1990, contra os subsídio-dependentes, o perigo de uma imigração culturalmente muito distinta, as elites políticas que capturaram a máquina do Estado, ou a necessidade de penas de prisão mais pesadas para diversos crimes.
Enquanto os partidos históricos ainda apanham os cacos do terramoto “Chega”, que acabou com o bipartidarismo português e deixou claro que a velha política do clientelismo partidário e da distância popular tem os dias contados, e a esquerda radical acredita que o seu fracasso eleitoral é culpa da população e não própria, André Ventura vai fazendo a sua caminhada triunfal, aos ombros dos media que não se cansam do beijo mortal do sensacionalismo, arrastados por hipnose através do canto da sereia, numa relação de dependência mútua, em que os media precisam do seu ruído para alimentar audiências, ao mesmo tempo que ele precisa da exposição para amplificar o seu discurso.
Nenhum capítulo traduz melhor a eficácia política de André Ventura do que o coletivo das suas idas aos locais dos incêndios, com as suas carrinhas de mantimentos e, sobretudo, aquele momento de galho em punho apagando uma labareda solitária, num quadro performativo de efeito neorrealista. Esse tipo de gesto é precisamente aquilo que o CDS sempre procurou, mas raramente alcançou: a fusão entre proximidade simbólica e eficácia mediática. Ventura não só o faz, como o transforma em capital político.
Ao ir ao terreno, ao pegar nas cinzas diretamente para as câmaras, ao arrebatar emocionalmente o espectador, ao marcar presença, sujo das cinzas, descamisado do seu lugar parlamentar distante, Ventura contrasta com a ausência de deslocações de outras figuras partidárias e, sobretudo, com o desconforto alheio causado pela Festa do Pontal, histórico marco da rentrée política do PSD.
Todo este contraste, toda esta performance política que capta os media e acelera o algoritmo das redes sociais a um ponto de ebulição, serve um propósito essencial – conquistar o maior número de autarquias, normalizando o partido no arco da governação.
Portanto, graças a esta performance e aos falhanços dos demais partidos, o Chega irá tornar-se uma força política local incontornável, cumprindo finalmente o projeto que o CDS ensaiou, mas não conseguiu consolidar: ser um partido de poder, enraizado, moralmente conservador e popularizado em torno da figura do seu líder.
Entre as cinzas de um país ardido, Ventura cumpre o sonho do CDS de uma direita popular nacionalista
1 set 2025, 17:45