Félix is Portugals, Simeone is no Portugals

Ontem às 00:24
João Félix festeja o 2-1 no Portugal-Gana

«Quem é que defende?», o espaço de opinião de Sofia Oliveira no Maisfutebol

Tendo a discordar quando se diz que não se aproveita nada desta passagem de João Félix pelo Atlético de Madrid. Mas há lá coisa melhor do que poder ir além do vocabulário aplicado pela claque de seminaristas quando se avalia o que Diego Simeone tem feito com o jogador português?

Melhor.

Haver essa legitimidade sem ouvir o eco comichoso dos moralistas: “Claro, sabes mais do que o Diego Simeone”.

Sim, estou a ser demasiado optimista. Andam por aí fanáticos com a coluna vertebral mais torcida do que o pano que uso para lavar o chão capazes de utilizá-la, nem que seja para ganhar uns trocos. Se o treinador mais bem pago do mundo não consegue pôr a sua equipa a jogar nada que se pareça com futebol, é natural que jogadores de futebol sintam dificuldades em vingar nesse contexto. Calma. Não saio deste parágrafo sem aplaudir a hipocrisia daqueles que só começaram a apontar falhas ao modelo do técnico argentino desde que perde com maior regularidade. O grupo dos surfistas é o meu favorito, porque andar na onda dos resultados tem o seu estilo. Lindos, fofos e igualmente semelhantes ao meu pano do chão.

Quando João Félix espoletou na equipa principal do Benfica, aos 19 anos, qualquer um percebeu que estávamos a assistir à aparição de um talento especial. Eu percebi, tu percebeste, as nossas avós também. Da facilidade em movimentar-se em espaços mais reduzidos do que o existente quando o Lux está ao barrote à qualidade dos gestos técnicos. Da capacidade em ganhar vantagens ao primeiro toque à variabilidade de recursos na finalização. Roubar a bola a João Félix era mais difícil do que roubar a eloquência a José Alberto Carvalho. E Félix estava longe de sacar mais do que um “franzino” no que à aparência física diz respeito. O drible – de pés ou de corpo –, a condução, o passe, a agilidade, a inteligência táctica e a velocidade de execução davam sinais de que o pior que lhe podia acontecer era ir parar às mãos de um treinador mais apaixonado pela sua baliza do que pela baliza adversária. Por mim, obrigava todos os responsáveis pelo negócio a comprar lugar anual no Estádio Metropolitano. Uma tortura que os levaria a gastar cada euro ganho nessa intermediação em programas de coaching da Susana Torres.

Ao que parece, a brisa da compaixão abanou Fernando Santos. Depois da boa exibição de João Félix frente à Nigéria, o seleccionador nacional surpreendeu o Zé Povinho e condecorou o avançado formado no Benfica com duas titularidades consecutivas. A estreia no Campeonato do Mundo não foi brilhante, tão pouco a exibição colectiva de Portugal, incapaz de transformar os longos períodos de posse de bola em oportunidades de golo. Contudo, Félix fez a diferença no passe artístico que procurou Ronaldo antes de Salisu derrubar o capitão português dentro da grande área; na finalização de classe perante Lawrence Ati, guarda-redes do Gana; na recuperação a meio-campo que inicia a jogada para o terceiro golo (o único lance em que Simeone levantou a sobrancelha do olho esquerdo e aproximou as mãos como quem se prepara para aplaudir, tendo acabado por perder o ímpeto).

João Félix confessou que lhe sabe bem ter liberdade em campo. Apareceu aberto à esquerda, na meia-esquerda, perto de Rúben Neves, atrás de Cristiano Ronaldo, a romper nas costas da linha defensiva contrária. Ficou visível que as dinâmicas dependeram mais da interpretação dos jogadores do que do trabalho do Engenheiro, até porque o seu percurso ao leme da Selecção não tem por base a mobilidade vista recentemente. Uma equipa de ideias novas a disputar um Mundial poderá não ter grande sucesso, mesmo que as ideias beneficiem os intérpretes.

No limite, festejamos as palavras de um homem livre, o único com talento suficiente para superar um estatuto liderado por Bernardo Silva.

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