A campanha mais eficaz de todas embateu num dos defeitos do candidato: o excesso de autoconfiança. Cotrim Figueiredo encostou-se a Ventura sem querer, e não consegue explicar o que lhe passou pela cabeça. Mas o flirt com a extrema-direita já vinha de trás... E uma acusação de assédio sexual é necessariamente um sarilho para um candidato com pinta de playboy
Há cerca de uma semana, quando se percebeu que João Cotrim Figueiredo estava firme no pelotão da frente dos cinco candidatos presidenciais – ou seja, tinha reais hipóteses de passar à segunda volta –, chamei a atenção, num comentário na antena da CNN, para algo que me parecia uma evidência: talvez por nunca ter sido levado muito a sério como potencial finalista nesta eleição, Cotrim foi o candidato sujeito a menor escrutínio dos cinco que estão no grupo da frente. Por escrutínio refiro-me ao trabalho jornalístico sobre o seu passado, mas também à atenção dos seus adversários sobre o que o candidato da IL fez, pensou e pensa.
Não é por Cotrim ter escrito um livro autobiográfico e de autobiografia política que sabemos tudo sobre ele. Até porque esse exercício está limitado pelo narcisismo pulsante do candidato, que não o qualifica para grandes escrutínios.
Foi Cotrim, recorde-se, o primeiro a lançar suspeitas sobre os negócios profissionais de Marques Mendes – mas, como é um daqueles jogadores que dá a canelada e mantém os calções limpos, saiu de fininho e deixou Mendes à bulha… com Gouveia e Melo, com base na suspeita que o liberal atirou para o ar. Bom truque. Deu resultado: Mendes e Gouveia e Melo afundaram na tracking poll da CNN, Cotrim subiu.
Mas se é de negócios que falamos, e já que Figueiredo tem um currículo tão preenchido como gestor, estranho que ninguém se tenha interessado em saber o que fez e onde. Adiante.
Antes de Ventura, Nuno Afonso
No mesmo comentário na CNN referi algo que ninguém tinha notado: Cotrim tem no seu site de candidatura uma lista de apoiantes ilustres. Cerca de uma centena de “campeões em várias áreas”, como lhes chama o candidato, que inclui muitos influenciadores digitais, criadores de conteúdo, figuras do showbizz e também das empresas, todos sorridentes por darem a cara pelo seu candidato. Pelo meio temos uma figura que se destaca pelo ar carrancudo: Nuno Afonso, apresentado como “empresário e fundador do Chega”. Sim, fundador do Chega, mas não um qualquer fundador do Chega.
Nuno Afonso era o homem de confiança de André Ventura, foi o seu braço direito, fundou com ele o Chega e por isso era o militante nº2 do partido. Assim continuou até Ventura lhe puxar o tapete, tramá-lo internamente (como sempre acaba por fazer), e empurrar Nuno Afonso para fora do partido, onde só há poleiro para um galo. Afonso não deixou de pensar como no Chega, só não pôde continuar no partido. Ao contrário do que julgam algumas almas crentes, Cotrim Figueiredo não fez o milagre de converter um chegano dos quatro costados à democracia liberal. O “empresário e fundador do Chega”, cujo apoio Cotrim exibe com orgulho, já andou pela Nova Direita, Aliança e MTP, excrescências de extrema-direita que gostavam de chegar a Chega. Como não teve sucesso, agora aterrou na órbita de Cotrim. Este, agradeceu.
Este flirt do candidato “liberal” com a extrema-direita pareceu algo estranho. Afinal, Nuno Afonso é o contrário da direita moderna, liberal e cosmopolita que Cotrim diz representar. O ex-chegano representa a direita mais radical e ultramontana, que despreza as minorias e as liberdades individuais. Afinal, que direita representa João Cotrim Figueiredo?, perguntei na altura.
Bastaram estes comentários para que a matilha digital da IL e da candidatura de Cotrim Figueiredo me caísse em cima nas redes sociais. Nada de novo. Já estou habituado a isso… com o Chega. Dezenas e dezenas de perfis falsos e bots a chamar-me de tudo: “jornalixo”, “comunista”, “vendido ao sistema”, “socialista”, “excremento”, etc, etc, etc, incluindo, claro, “panilas” e outras variantes de homossexual, que para esta gente é o cúmulo de ofensa (este recurso ao insulto homofóbico está estudado pela psiquiatria…). Tudo, igualzinho, ao que acontece quando digo alguma coisa de que os cheganos não gostam. Única diferença: a matilha digital dos “liberais”, sendo tão raivosa como a do Chega, ao menos escreve num português entendível.
Não conto isto para me vitimizar. São ossos do ofício, e os guerreiros do teclado impressionam-me pouco. Relato para realçar a semelhança da reação.
Três flic-flacs à retaguarda
Voltando à pergunta sobre que direita representa João Cotrim Figueiredo?, tivemos a resposta na segunda-feira: representa a direita que admite votar Ventura na segunda volta das presidenciais. Esta “admissão”, sendo Ventura quem é e representando o que representa, é o suficiente para pôr em causa a ideia de moderação e modernidade que o candidato da IL tem tentado projetar. Se acho que Cotrim é um democrata? Sim. Mas é um democrata com pouco critério, que não consegue escolher entre Álvaro Cunhal e Salazar (o vídeo está online). E, agora, um democrata que admitiu votar em Ventura, o nosso aspirante a autocrata da escola Trump.
É verdade que, depois de o dizer, e percebendo o bruaá que tinha provocado, Cotrim fez flic-flac à retaguarda. Várias vezes. Primeiro, os jornalistas não entenderam o que ele tinha dito (e note-se que nesta campanha ninguém atacou mais os media do que JCF)... Depois, não queria dizer o que tinha dito... Exprimiu-se mal... Foi pouco claro… Um dia depois, ainda tentava remediar o tiro no pé, confessando: “Não consigo explicar o que me passou pela cabeça.” Talvez não seja o melhor cartão de visita para quem quer presidir à República.
Este esforço de desdizer o que disse pode não ter esclarecido completamente quem se questiona sobre as afinidades eletivas de Cotrim Figueiredo. Até porque o flirt com a extrema-direita já tinha antecedentes… com Nuno Afonso. Mas, se mais não conseguiu, o ato de contrição de Cotrim Figueiredo passou um atestado de estupidez a todos os que se esforçaram por negar nas redes sociais aquilo que este tinha dito. Está mesmo dito.
Esse era o “momentum”
Quando João Cotrim Figueiredo se meteu nesta embrulhada, a sua campanha ia de vento em popa. O próprio dizia que tinha o “momentum”. Na tracking poll da CNN, Cotrim é um sucesso, com um espetacular crescimento num pelotão da frente que está apinhado. Nunca acreditei que Cotrim valesse 3% ou 5%, pois tive sempre como fasquia o seu resultado nas europeias, de 9%. Mas duplicar essa base eleitoral (que significa quase multiplicar por 4 o último resultado da IL) é um feito extraordinário.
Nos debates mostrou-se à vontade, por vezes excessivamente à vontadinha, mas estes não correram tão bem como o candidato gostaria, nem fizeram jus à imagem que este tem de si próprio: o mais preparado, o mais esperto, o mais desempoeirado, o mais independente, o que tem o melhor currículo. A altíssima auto-estima de Cotrim foi evidente desde o primeiro momento, mas faltava dar corpo a essas excelsas qualidades.
Na campanha, por fim destacou-se. Declarações oportunas e acutilantes, sentido de humor qb, ações de campanha “fora da caixa”, caneladas certeiras aos adversários, populismo e demagogia sem descambar, provas diversas da sua energia e boa forma física, muito piscar de olho (literalmente) ao eleitorado. Manteve-se na “crista da onda”, “práfrentex”, “à vontadinha”. Descrevi-o há dias como tendo “ar de príncipe cosmopolita”, podia ter acrescentado que tem atitude de playboy, e o eleitorado gostou. Sim, estava a correr bem.
Uma tragédia em dois atos
Até à débâcle desta segunda-feira. Uma tragédia em dois atos.
Primeiro, o suicídio em direto quando admitiu endossar Ventura para a segunda volta. A coisa pegou porque Cotrim manteve a polémica viva, com declarações sucessivas, tornando isto no seu “momento Jorge Pinto”.
Por outro lado, é plausível que seja isso mesmo que Cotrim pensa. Afinal, veja-se o seu percurso ao longo dos anos: quando foi eleito deputado pela primeira vez, dizia que não era de esquerda nem de direita. Até fez finca-pé para se sentar no Parlamento entre o PS e o PSD. Que é feito desses escrúpulos? Hoje Cotrim assume-se claramente como de direita, e faz gala em ter consigo o fundador do Chega…
Depois, surgiu a alegação de que terá assediado uma antiga assessora. Foi a própria, nas suas redes sociais, a assumir a acusação de assédio sexual, mas também de assédio moral na relação de trabalho. A alegada vítima citou até frases que Cotrim lhe terá dito, e que me escuso de reproduzir. O nível dessas frases fica atestado pela reação de José Miguel Júdice, mandatário nacional de Cotrim: “Um tipo inteligente e sofisticado tentava seduzir uma senhora a dizer aquelas coisas horrorosas?" É surpreendente que, com a idade que tem, Júdice ainda não saiba que pessoas “inteligentes e sofisticadas” são capazes de fazer coisas repugnantes, incluindo dizer “coisas horrorosas”.
O resto da história é conhecido: Cotrim desmentiu sem vacilar as acusações de assédio e prometeu processar a sua acusadora. O seu diretor de campanha lançou suspeitas sobre a alegada vítima, insinuando que o terá feito por razões políticas, porque trabalha agora num gabinete governamental. E trinta mulheres que trabalharam com Cotrim uniram-se para defender o seu candidato e garantir que nunca houve “comportamentos inadequados” e que foram “sempre tratadas com respeito”.
Duas ou três notas. O processo judicial contra a acusadora é legítimo e compreensível – todos conhecemos histórias de alegados agressores que na verdade são vítimas, e de alegadas vítimas cujas acusações não passam de agressão. Mas também conhecemos vítimas que são mesmo vítimas.
Haver 30, 50 ou 100 mulheres que nunca viveram a alegada situação de assédio vale pouco. Muito pouco. Basta uma ter passado por isso.
A diminuição, suspeição e apoucamento das mulheres que se queixam de assédio é, infelizmente, uma reação comum. E, infelizmente, muitas vezes injusta. Sei o suficiente para não pôr as mãos no fogo por ninguém quando toca a supostos comportamentos íntimos. Nem por quem se queixa, nem por quem é acusado.
Cotrim Figueiredo, o homem que tinha o “momentum” nas mãos, deixou-o cair. O excesso de confiança tem perigos – leva a cometer erros impensados. O excesso de narcisismo tem riscos – Narciso afogou-se quando contemplava na água a sua imagem, apaixonado por si próprio.