Ciclista português conseguiu mais um feito notável, agora no Tour de França. Potente na estrada, é conhecido por falar pouco - mas por pedalar muito. Pedala tanto que se prepara para superar Joaquim Agostinho como o melhor ciclista português de sempre
João Almeida, o introvertido ciclista que nunca desiste, nasceu em A-dos-Francos e aos 25 anos tornou-se o segundo melhor ciclista português de sempre na Volta a França e o primeiro a fechar as três grandes Voltas no top 5, consolidando-se como o sucessor de Joaquim Agostinho.
Este domingo, o português concluiu a sua estreia no Tour na quarta posição, superando o quinto posto de José Azevedo em 2004 e aproximando-se de Agostinho, o único luso a subir ao pódio da maior prova velocipédica internacional, ao ser terceiro em 1978 e 1979.
O ciclista da UAE Emirates reforçou assim o seu lugar histórico na modalidade em Portugal graças à crença nas suas capacidades e a uma tenacidade invejável, depois de ter sido quinto na Vuelta 2022 - haveria de subir a quarto com a desclassificação de Miguel Ángel López - e passar a figurar nos cinco primeiros de todas as grandes Voltas.
A evolução do miúdo das Caldas da Rainha
O jovem das Caldas da Rainha vive numa ‘bolha’. Confiança só dá às ‘suas’ pessoas, um núcleo duro constituído essencialmente por família, namorada, empresário. Sempre que pode, esquiva-se do foco mediático, dos jornalistas e até dos adeptos, preferindo resguardar-se no seu mundo.
Entrevistá-lo pode ser um desafio, embora esteja cada vez mais solto e à vontade – talvez uma consequência lógica da exposição que tem tido nos últimos quatro anos -, mostrando-se descontraído e elaborando mais as respostas - anteriormente telegráficas.
Quem com ele trabalhou elogia-lhe o profissionalismo mas também dá conta de alguma ‘teimosia’ e distração, as mesmas que foram responsáveis pelos seus conhecidos erros de colocação, quase totalmente ausentes nesta edição do Tour, onde esteve irrepreensível a ‘escoltar’ Tadej Pogacar mas também a colocar-se no pelotão em etapas traiçoeiras, salvo raras exceções.
A evolução de Almeida enquanto voltista foi ainda mais evidente nesta ‘Grande Boucle’ do que tinha sido quando terminou no pódio do Giro2023, pelo simples facto de em França ter corrido contra os melhores corredores mundiais e só ter ‘perdido’ para os superlativos Pogacar, Jonas Vingegaard, o bicampeão das duas edições anteriores, e Remco Evenepoel.
‘Transformado’ em escudeiro de luxo do esloveno – como já o tinha sido na Volta à Suíça para Adam Yates -, o ciclista português foi eleito ‘gregário da semana’ após as nove primeiras etapas, depois de ter impressionado sobretudo na subida ao Galibier, onde trabalhou mais do que ninguém – e onde se desentendeu com o ‘egoísta’ Juan Ayuso.
Na estreia do Tour, voltou a exibir a consistência e o conhecimento pessoal que o tornam um caso único no pelotão – as suas recuperações nas etapas de montanha são já uma característica elogiada por fãs de todo o mundo e inspiradoras de ‘memes’.
“É uma pessoa muito segura. Mesmo quando não corre assim tão bem em relação às perspetivas dele, o moral é sempre alto. Nunca vai para a corrida derrotado. E, depois, é uma pessoa calma, não se enerva, não pensa que vai correr mal. E ele cresce quando é líder”, resumia em 2020 José Poeira à Lusa, depois de Almeida ter feito sonhar o país com os seus 15 dias de rosa e ter sido quarto na geral final dessa Volta a Itália.
Embora neste Tour essa qualidade elogiada pelo selecionador nacional tenha estado ‘escondida’, porque o português esteve 100% dedicado ao trabalho em prol de Pogacar, houve outra, a inabalável crença em si próprio, que foi bastante evidente - aliás, como já o tinha sido quando foi terceiro no Giro2023 e declarou que ia estar no Tour2024, independentemente da opinião da direção da UAE Emirates.
O Tour de França
Este domingo, com o quarto lugar final na Volta de França, João Almeida demonstrou que tinha razão e que a sua estreia na maior prova velocipédica mundial até pode ter pecado por tardia - mas confirmou aquilo que José Poeira percebeu assim que o caminho dos dois se cruzou.
O selecionador nacional conhece o corredor de A-dos-Francos - que antes de se render ao BTT e, posteriormente, ao ciclismo de estrada ainda andou no futebol e até no rancho folclórico local - desde que o ‘convocou’ para um estágio de cadetes e ficou impressionado com a prestação do ciclista, quer nos testes progressivos, que detetaram que tinha “capacidades muito acima da média em relação aos outros cadetes”, quer no treino conjunto com os juniores, em que atacou numa subida para ser apanhado lá no alto por apenas três ciclistas do escalão superior.
Não foi o único: em 2017, com apenas 19 anos, foi contratado pelos búlgaros da Unieuro Trevigiani, uma ‘porta’ internacional que se abriu e o levou, inevitavelmente, à ‘fábrica de talentos’ da Hagens Berman Axeon, onde esteve duas temporadas antes de dar o salto para a então melhor equipa mundial, a Deceuninck-Quick Step.
Foi na formação belga que este confesso fã de Fórmula 1 primeiro se notabilizou, naquele Giro2020 de boa memória. Mas seria 2021 o ano da confirmação de Almeida e, também, o do seu polémico ‘divórcio’ com a Deceuninck-Quick Step; iniciou a temporada com um terceiro posto na Volta aos Emirados, foi sexto no Tirreno-Adriático e chegou à Volta a Itália como colíder juntamente com Evenepoel.
A liderança repartida fez correr ‘rios de tinta’, com a rivalidade com Remco a ser alimentada, essencialmente, desde Portugal, quer por comentadores, quer por adeptos recém-chegados ao ciclismo, incapazes de analisar friamente o facto de o português ter perdido muito tempo na quarta etapa e de o belga estar à sua frente na geral. A polémica continuou até ao abandono de Evenepoel, com Almeida, como já é seu hábito, a ir de mais a menos e a ‘galgar posições’, até terminar em sexto, empatado em tempo com o quinto, o colombiano Daniel Martínez (INEOS).
Apesar de ter vencido a Volta à Polónia e a Volta ao Luxemburgo, a parceria entre o português e a Deceuninck-Quick Step estava ‘condenada’, com o corredor de A-dos-Francos a deixar-se seduzir pelos milhões de UAE Emirates, entre as várias ofertas que teve em cima da mesa.
O primeiro ano na equipa dos Emirados, cuja concentração de estrelas e líderes nem sempre torna fácil a coabitação em corrida, pareceu de adaptação fácil: além do título de campeão nacional de fundo, venceu uma etapa na Volta à Catalunha – foi terceiro na geral - e outra na Volta a Burgos - onde foi segundo no pódio final -, mas viu-se ultrapassado na hierarquia na Vuelta por um Juan Ayuso que, com 19 anos, foi terceiro numa geral vencida por… Evenepoel.
Quinto nessa Vuelta – haveria de subir a quarto com a desclassificação de Miguel Ángel López -, o sempre impassível Almeida não se deixou perturbar e traçou o seu percurso com segurança na temporada seguinte, na qual foi terceiro no Giro (e nono na Vuelta).
Na ‘corsa rosa’, surgiu com uma confiança renovada e também mais atento à colocação em corrida, mais respaldado pela sua equipa e com uma nova postura atacante, visível também esta temporada na Volta à Suíça, onde ganhou duas etapas, foi segundo noutras duas e também na geral, a meros 22 segundos de Yates, para quem trabalhou.
Este domingo, apesar de um início de temporada atribulado, adiado devido a doença, tornou-se o primeiro português a fechar as três ‘grandes’ nos cinco primeiros lugares, algo que nem Agostinho conseguiu.
Portugueses no top 10 de grandes voltas
Depois de no ano passado ter sido o primeiro português a concluir a Volta a Itália entre os três primeiros, João Almeida confirmou o seu estatuto de segundo melhor voltista nacional de sempre, ao fechar a 111.ª Volta a França em quarto, depois de ter sido quinto no ‘crono’ final.
O corredor da UAE Emirates conseguiu ainda um feito inédito: é o primeiro português a figurar nos cinco primeiros de todas as grandes Voltas, já que também foi quarto na Vuelta2022.
A sua história nas três ‘grandes’ começou com o quarto posto no Giro2020, em que escreveu uma das mais bonitas páginas do ciclismo português, depois de 15 dias como líder da geral da ‘corsa rosa’.
Nesse ano, mais do que melhorar o registo de José Azevedo, que em 2001, no papel de gregário do espanhol Abraham Olano, foi quinto - o mesmo lugar que alcançou no Tour2004 -, o miúdo de A-dos-Francos (Caldas da Rainha) fez Portugal sonhar com um inédito triunfo numas das grandes Voltas.
Seguiu-se o sexto lugar de 2021, a desilusão por covid-19 no ano seguinte, que ‘redimiu’ com o quinto posto na estreia na Vuelta, prova em que foi nono no ano passado.
Agora aproxima-se ainda mais de Joaquim Agostinho, o maior ciclista português de todos os tempos: foram 11 as presenças do corredor de Torres Vedras, que morreu em 1984 na sequência de uma queda na Volta ao Algarve, entre os 10 primeiros em grandes Voltas, com os terceiros lugares no Tour a permanecerem como os feitos mais extraordinários do ciclismo nacional. Embora no seu palmarés figure o estatuto de vice-campeão da Vuelta em 1974, são as prestações na Volta a França, onde também foi quinto (1971 e 1980), sexto (1974) e oitavo (1969, 1972 e 1973), que perduram no imaginário coletivo.
| Ciclista | Provas |
| Joaquim Agostinho (11) | 2.º na Vuelta de 1974 | 3.º no Tour de 1978 | 3.º no Tour de 1979 | 5.º no Tour de 1971 | 5.º no Tour de 1980 | 6.º na Vuelta de 1973 | 6.º no Tour de 1974 | 7.º na Vuelta de 1976 | 8.º no Tour de 1969 | 8.º no Tour de 1972 | 8.º no Tour de 1973 |
| João Almeida (6) | 3.º no Giro de 2023 | 4.º no Tour de 2024 | 4.º no Giro de 2020 | 4.º na Vuelta de 2022 * | 6.º no Giro de 2022 | 9.º na Vuelta de 2023 |
| José Azevedo (3) | 5.º no Giro de 2001 | 5.º no Tour de 2004 ** | 6.º no Tour de 2002 ** |
| Alves Barbosa (1) | 10.º no Tour de 1956 |
| Acácio da Silva (1) | 7.º no Giro de 1986 |
| João Rebelo (1) | 6.º na Vuelta de 1945 |
| Ribeiro da Silva (1) | 4.º na Vuelta de 1957 |
| Fernando Mendes (1) | 6.º na Vuelta de 1975 |
| José Martins (1) | 8.º na Vuelta de 1975 |
| Notas: | * O quarto classificado Miguel Ángel López foi desclassificado por doping. ** Lance Armstrong foi desapossado da vitória e a prova ficou sem vencedor. |
