No domingo, entre as 11:30 e as 12:45, será possível prestar homenagem ao artista no crematório do Cemitério do Alto de São João, em Lisboa, indicou fonte familiar
O artista plástico, arquiteto, pintor e ilustrador João Abel Manta morreu esta sexta-feira aos 98 anos, adiantou à Lusa fonte familiar. João Abel Manta morreu em casa, em Lisboa.
No domingo, entre as 11:30 e as 12:45, será possível prestar homenagem ao artista no crematório do Cemitério do Alto de São João, em Lisboa, indicou ainda fonte familiar.
Autor multifacetado, tem obra que vai da arquitetura ao desenho, azulejo, à pintura, ilustração, pintura e cenografia, cerâmica, tapeçaria, mosaico, ilustração, artes gráficas e cartoon. Teve uma importante atividade no domínio da arquitetura a partir do início da década de 1950, que abandonaria progressivamente em favor das artes plásticas, destacando-se como o maior cartoonista português e um dos melhores ilustradores portugueses das décadas de 1960 e 1970.
Premiada a nível nacional e internacional, a obra de João Abel Manta é sobretudo conhecida pelas caricaturas de intervenção política, durante a ditadura de Salazar, e pelas imagens que fazem parte do imaginário coletivo do 25 de Abril, que incluem os cartazes de apoio ao Movimento das Forças Armadas e de saudação da democracia.
Em 1982, depois da morte do pai, João Abel Manta abandona o trabalho gráfico e decide dedicar-se apenas à pintura. "Foi também um ato de liberdade", explica o curador. "Finalmente, sentiu-se livre para fazer aquilo que sempre tinha querido fazer", agora já sem a responsabilidade da presença do pai-pintor, e sem se preocupar em agradar ao público.
Em 2024, uma exposição em Algés mostrou a diversidade da sua obra. Na altura com 96 o artistas já não pôde acompanhar a montagem da exposição, mas a sua neta Mariana Manta Aires contou à CNN Portugal como estava a classificar o espólio do avô e o desejo que ele tinha que a sua obra fosse vista por todos.
Filho dos pintores Abel Manta e Clementina Carneiro de Moura, João Abel Manta nasceu em Lisboa em 1928 e formou-se em arquitetura. Crescendo num ambiente privilegiado, a sua consciência política despertou muito cedo. O ativismo político valer-lhe-ia a prisão em fevereiro de 1948, com duas semanas passadas em Caxias, e uma ficha nos arquivos" da polícia política da ditadura. Os desenhos que fez na prisão mostram uma janela de grades aberta para o céu, a cela com as várias camas enfileiradas, os outros presos, recostados, a ler. Pedro Maques, o curador da exposição, chamou-lhes "desenhos de melancolia e de desalento", a lápis ou a caneta, em papel de fraca qualidade, entretanto amachucados - foram feitos durante os dias sem horas que João Abel Manta passou na prisão de Caxias em 1948. Tinha 20 anos e foi detido pela PIDE, suspeito de associação ao MUD Juvenil. Apesar de não ter sido torturado e de ter saído da prisão ao fim de duas semanas, a experiência tornou-o ainda mais revoltado.
O "fantasma" de Salazar não mais o largou: "Aquela geração tinha uma enorme esperança que a ditadura acabasse após o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas, com a Guerra Fria, Salazar tornou-se um dos grandes amigos da América, e a ditadura parecia ainda mais reforçada. Esse foi um grande golpe para esta geração", explica Pedro Marques. Ao longo da sua carreira, João Abel Manta tentou analisar e fixar a fisionomia de Salazar, num exercício que o comissário considera próximo de "um exorcismo". Exemplo disso são as ilustrações de "Dinossauro Excelentíssimo", o livro de José Cardoso Pires, de 1972, mas também os muitos outros desenhos onde vemos o ditador nas várias fases da sua vida, envelhecendo, assim como o regime envelhece parecendo eternizar-se. Em 1978 publicou o livro "Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar" (1978), síntese de sofisticada ironia onde traça um quadro negro, mas preciso, daquele período da História de Portugal.
João Abel Manta começou a publicar nos jornais em 1969, quando já era um artista conceituado e premiado e sempre se recusou a receber qualquer dinheiro pelos cartoons e ilustrações que fez para o Diário de Lisboa: "Considerava que era um investimento político, desenhava para passar uma mensagem", explica Pedro Marques. "Os cartoons, os desenhos de imprensa [que ele fez nos anos 1960 e 1970] não eram feitos para si, mas com um cariz social, para que estivessem disponíveis e o povo os pudesse apreciar”, acrescenta a neta. Foi inovador na forma como juntou desenhos e fotografias e as suas ilustrações rapidamente se tornaram inconfundíveis, quer pelo traço quer pelo modo como olhava e comentava a atualidade. Muitas vezes conseguiu "enganar" o "Exame Prévio", outras vezes foi censurado. Em 1972, um poster alusivo ao Festival da Canção, no qual reinterpretava a bandeira nacional, valeu-lhe um processo em tribunal.
Desenvolveu também trabalhos críticos relacionados com a situação político-social portuguesa e tem dois álbuns editados: “Cartoons, 1969-1975” (1975) e “Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar”, obra lançada originalmente em 1978, pelas Edições O Jornal.
Nos anos anteriores e posteriores ao 25 de Abril de 1974, João Abel Manta publicou regularmente, em jornais de grande tiragem, tais como Diário de Lisboa, Diário de Notícias, O Jornal e Jornal de Letras, tendo sido o primeiro diretor de arte deste último. Estes desenhos são "a iconostase do artista", explicou Pedro Marques.
No contexto da arte pública, João Abel Mantas fez intervenções nos pavimentos de mosaico para arruamentos na Praça dos Restauradores, em Lisboa, e na Figueira da Foz, enquanto na azulejaria concebeu, entre outros painéis, o revestimento do mural da Avenida Calouste Gulbenkian, em Lisboa, aplicado em 1980. João Abel Manta foi ainda autor da série de painéis cerâmicos para o Teatro Gil Vicente (1955), em Coimbra, e dos azulejos para os edifícios da Associação Académica de Coimbra (1959).
Foi várias vezes distinguido ao longo da carreira, nomeadamente pela Fundação Calouste Gulbenkian (1961), com a Medalha de Prata na Exposição Internacional de Artes Gráficas (Leipzig, 1965) e com o Prémio de Ilustração na Exposição de Artes Gráficas de Leipzig (1975).
