"Enfim, magro": Jô Soares 1938-2022

5 ago, 13:55

Tinha 84 anos, morreu esta sexta-feira em São Paulo. A causa da morte não foi revelada. Foi eufórico, foi polémico - e ser-se polémico é mau? "Não é escândalo", diz à CNN Portugal Júlio Isidro. "Era uma pessoa que tinha opiniões fortes e controversas sobre várias coisas. Quem não toma posições tem um lugar especial no inferno", aponta Eduardo Madeira

O humorista Eduardo Madeira, que chegou a imitar Jô Soares, considera que o brasileiro foi "um grande artista em grandes domínios e era uma pessoa muito surpreendente" que "de um momento para o outro dizia coisas absolutamente hilariantes e surpreendentes". Mais: era "bonacheirão e malandro", tinha um "humor muito espontâneo".

"O Jô Soares acompanhou-me ao longo de quase toda a minha vida. Aparece primeiro com os programas da Globo, quando os programas passavam cá na altura e que nos marcam a infância. Mais à frente vi os espetáculos dele, não eram bem solos de comédia, de stand up, era também um bom romancista, e depois houve esta fase final. Foi muito importante para mim e para toda a geração. Lembro-me perfeitamente de uma vez ter tido um ataque de riso porque ele disse que quando morresse gostava que o epitáfio dele fosse 'enfim, magro' e eu achei aquilo um máximo".

O apresentador Júlio Isidro, que entrevistou o humorista brasileiro por duas vezes, recorda Jô Soares como "um humorista a sério" que era capaz de meter o "público a nu". "O Jô Soares é aquilo que eu posso chamar um verdadeiro humorista a sério porque é um humorista que, como é obrigação de todos os humoristas, é um observador do seu quotidiano, um observador dos outros, do mundo, da sociedade, e a partir daí é capaz de nos por a nú. A arte tem essa enorme vantagem que, muitas vezes e quase sempre, ultrapassa a durabilidade de cada um de nós. Portanto, o Jô Soares partiu, a obra não. A obra aqui está, particularmente para ser vista, revista e aplaudida."

Júlio Isidro, que destaca ainda que as personagens criadas pelo artista brasileiro são, muitas vezes, capazes de espelhar "algumas situações que conhecemos, algumas pessoas que conhecemos e, às vezes, algumas vezes nós próprios", lembra ainda que, além de apresentador e humorista, Jô Soares era também escritor. "A obra de Jô Soares também fica para ser lida porque o Jô Soares tem uma bibliografia grande, particularmente 'O livro de Jô: Uma autobiografia desautorizada'. São livros que vale a pena ler."

"Quem não toma posições tem um lugar especial no inferno"

Ao longo de mais de três décadas, Jô Soares entrevistou inúmeras personalidades e foi entrevistado por outras tantas. Homem de opiniões fortes e nem sempre unânimes, o apresentador chegou a ser criticado pelos comentários que fazia nos seus programas, como foi o caso da polémica com Bruna Lombardi, em que o humorista foi acusado de fazer comentários pedófilos.

Questionado sobre se a controvérsia que sempre rodeou Jô Soares marcaria a sua morte, Júlio Isidro defende que "o ser-se consensual é uma coisa, ser-se unânime é outra". "Ele foi e continuará a ser uma grande figura da cultura brasileira e da cultura portuguesa, também da língua portuguesa. Mas ser unânime, toda a gente estar de acordo com tudo aquilo que ele disse e escreveu, até lhe ficava mal. Até fica mal a todos nós. Não há nada como uma pontinha de polémica, polémica mesmo - não é escândalo, é as pessoas não estarem muitas vezes de acordo com aquilo que as pessoas públicas são capazes de revelar, de manifestar", considera.

Também Eduardo Madeira lembra que os humorista não conseguem "dizer coisas que agradam a toda a gente" e que Jô Soares era "uma pessoa que tinha opiniões fortes e controversas sobre várias coisas". "Há sempre alguém, há grupos que não concordam connosco, que não gostam de nós. Faz parte do trabalho de um artista, de um artista que tenha opiniões fortes sobre o que se passa - acaba por se ver envolvido em controvérsias e em polémicas mas faz parte da vida. Quem não toma posições tem um lugar especial no inferno (Dante). Tomar posições leva a que haja pessoas do outro lado que não gostem."

Breve biografia

Nascido a 16 de janeiro de 1983 no Rio de Janeiro, Jô Soares mudou-se com a família para a Europa com 12 anos, onde pensou seguir carreira diplomática. Mas o amor pela arte prevaleceu e Jô Soares fez carreira no Brasil como humorista, apresentador de televisão, escritor, diretor e ator, tendo trabalhado nos canais Continental, TV Rio, Tupi, Excelsior, Record, SBT e Globo.

A carreira como apresentador começou início no canal SBT, com o programa “Jô Soares Onze e Meia”, em exibição entre 1988 e 1999. No ano seguinte estreou-se aquele que seria o seu programa mais famoso, o "Programa do Jô", que esteve em exibição até 2016 na Rede Globo.

No cinema, o seu primeiro papel foi em “O Homem do Sputnik”, filme de Carlos Manga de 1958.

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