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Jim Carrey, Leonardo DiCaprio e como o duplo critério do envelhecimento masculino pode estar a chegar ao fim

CNN , Rebecca Cope
19 abr, 16:00
EUA

O escrutínio sobre possíveis procedimentos estéticos já não se limita às mulheres e está a crescer entre homens famosos, com casos como Leonardo DiCaprio e Jim Carrey a refletirem uma pressão crescente para manter uma aparência jovem

Tornou-se um passatempo popular na internet especular sobre que procedimentos estéticos uma celebridade feminina terá feito. Rostos sem rugas, firmes e luminosos são analisados por especialistas e não especialistas, resultando muitas vezes num diagnóstico que inclui lifting facial, blefaroplastia, preenchimentos ou Botox. No entanto, nos últimos meses, não são apenas as mulheres famosas cujos rostos têm sido escrutinados com tanta atenção - são também os homens.

Caso em questão: o ator Leonardo DiCaprio, de 51 anos, que fez manchetes nos Óscares deste ano não pelo seu trabalho, mas pela sua tez visivelmente menos inchada. "Ele começou a usar Gua Sha", escreveu um fã no X. "Finalmente deixou o álcool e descobriu a água. E o bigode está a garantir 40% deste regresso", disse outro, referindo-se ao novo bigode ao estilo Tom Selleck de DiCaprio. Em poucas horas, cirurgiões estéticos estavam a especular sobre o que ele teria ou não feito, com a inevitável piada de que o boné e a máscara que foi visto a usar recentemente em público serviriam para esconder uma cirurgia.

Embora a reação ao "glow-up" de DiCaprio tenha sido maioritariamente positiva, a resposta à mudança de aparência do também ator Jim Carrey, nos prémios César algumas semanas antes, não foi tão simpática. O ator de 64 anos construiu toda uma carreira com base nas suas expressões faciais elásticas, por isso, em boa verdade, foi chocante ver como o seu rosto agora parece imóvel e tenso após vários anos afastado dos holofotes. Alguns chegaram mesmo a partilhar teorias da conspiração online de que Carrey teria enviado um duplo ao evento em vez de comparecer - uma ideia ainda mais alimentada pelo imitador de celebridades e maquilhador Alexis Stone, que nessa semana partilhou uma fotografia do ator no Instagram com a legenda: "Alexis Stone como Jim Carrey em Paris." (Stone não respondeu ao pedido de comentário da CNN.)

Quando Jim Carrey recebeu o César Honorário a 26 de fevereiro, em Paris, alguns observadores nem sequer tinham a certeza de que era, de facto, ele. (Stephane Cardinale/Corbis/Getty Images)

Eles estão longe de ser os primeiros homens de Hollywood a serem alvo de rumores sobre pequenos procedimentos antienvelhecimento. Em janeiro, Bradley Cooper negou ter feito qualquer cirurgia plástica no podcast SmartLess, depois de  o terem abordado na rua a perguntar o que tinha feito. Entretanto, Ryan Gosling esteve no centro de uma fraude com Photoshop que alegava mostrar que tinha feito preenchimentos nas bochechas - apenas alguns meses depois de ter sido considerado "demasiado velho" por alguns críticos online para interpretar Ken no filme Barbie. Noutro caso, os lábios e bochechas aparentemente mais volumosos de Barry Keoghan levaram muitos a especular que teria feito preenchimentos. Numa entrevista recente à emissora norte-americana SiriusXM, Keoghan falou sobre como os insultos online sobre a sua aparência estavam a afetar a sua vida, ao ponto de já não querer "sair de casa".

Algumas celebridades masculinas admitiram recorrer ao chamado "Brotox", como o procedimento passou a ser conhecido entre homens. Joe Jonas tornou-se o rosto do Xeomin, um injetável cosmético aprovado pela FDA visto como alternativa ao Botox, em 2022, dizendo à Allure na altura: "Parecer o melhor possível vem de nos sentirmos no nosso melhor. Faço questão de priorizar práticas e rotinas que me fazem sentir a melhor versão de mim mesmo." Entretanto, Robbie Williams, Gordon Ramsay, Gene Simmons, Tom Sandoval e Simon Cowell já falaram abertamente sobre o uso de Botox.

Fora de Hollywood, mais homens também têm recorrido à cirurgia - representando 6,5% do total de procedimentos de cirurgia estética no Reino Unido, segundo a British Association of Aesthetic Plastic Surgeons. E embora tenha havido uma ligeira diminuição global nas cirurgias entre 2023 e 2024, os lifting faciais e cervicais aumentaram 26%, "sugerindo um interesse crescente em procedimentos antienvelhecimento entre homens", afirmou a associação. Nos EUA, os homens representaram 6% dos tratamentos injetáveis (incluindo Botox e Xeomin) no ano passado, de acordo com a American Society of Plastic Surgeons.

Tradicionalmente, os homens tendiam a ser valorizados pelo trabalho que faziam com os seus corpos - mas mais recentemente, o seu valor está a ser deslocado para o trabalho que fazem sobre os seus corpos.

Chris Haywood, investigador em estudos críticos da masculinidade na Universidade de Newcastle

Então, porque estamos a assistir agora a um aumento de homens a procurar estes procedimentos? Provavelmente devido a uma combinação de fatores, como o crescimento das redes sociais, as videochamadas (como o Zoom) e programas de televisão como "Love Island", que promovem uma cultura de "imagem perfeita" e se tornaram uma grande fonte de ansiedade, particularmente para homens mais jovens. Ao mesmo tempo, existe agora toda uma comunidade online masculina dedicada ao chamado "looksmaxxing", onde se tenta otimizar os traços faciais através de práticas que vão desde o "mewing" (colocar a língua no céu da boca para moldar a linha do maxilar) até transplantes capilares, cirurgia plástica e até fraturar deliberadamente o maxilar para o tornar mais definido.

Numa entrevista recente, Barry Keoghan disse que os insultos online tinham chegado a um ponto em que se estava a "esconder". (Rodin Eckenroth/The Hollywood Reporter/Getty Images)

 

 Bradley Cooper (na antestreia de gala no Reino Unido de "Is This Thing On?" em janeiro de 2026) negou ter feito qualquer cirurgia plástica, abordando rumores antigos sobre a sua aparência. (Karwai Tang/WireImage/Getty Images)

"Tradicionalmente, os homens eram valorizados pelos tipos de trabalho que faziam - pelo trabalho físico - mas mais recentemente o valor está a deslocar-se para a forma como cuidam de si próprios, como se vestem, como cuidam do corpo e como aparentam", afirma Chris Haywood. "Sim, o sucesso profissional continua a ser valorizado, mas cuidar da aparência tem vindo a ganhar cada vez mais importância."

No entanto, esta mudança entra em conflito com a expetativa ainda dominante de que os homens não devem preocupar-se com a sua aparência. Como explica Haywood, o desejo de parecer bem é visto como uma característica tradicionalmente feminina. "Embora vejamos o valor a ser transferido para a aparência, as formas mais tradicionais de ver os homens não desaparecem - continuam presentes. Por isso, o que acontece é que, sobretudo entre homens heterossexuais, estes estão atualmente a caminhar numa espécie de corda bamba", continua.

Historicamente, os homens em Hollywood beneficiaram de muito mais tolerância no que diz respeito ao envelhecimento visível. George Clooney é amplamente reconhecido como um "silver fox". Harrison Ford é descrito como tendo um ar "distinto". No entanto, a maré parece estar a mudar, com os homens a serem cada vez mais julgados pelos mesmos padrões duplos aplicados às estrelas femininas. Mas será isto necessariamente positivo? Para alguns especialistas, é sinal de que a toxicidade em torno do envelhecimento pode estar apenas a aprofundar-se.

George Clooney (fotografado na estreia em Los Angeles de "Jay Kelly", da Netflix, em novembro de 2025) tem sido descrito por fãs e pelos media como um "silver fox". (Alberto Rodriguez/Variety/Getty Images)

"Isto mostra que atribuímos valor moral à juventude, e que associamos a aparência jovem à produtividade, desejabilidade, saúde e até mérito", considera Lauren Steckles-Young, professora de estudos sociais na Universidade de Sunderland. "Assistimos a uma diluição entre ‘saúde’ e ‘beleza’, levando-nos a assumir que, se somos atraentes, somos saudáveis, e se somos saudáveis e atraentes, temos maior valor moral. As redes sociais amplificam isto ao rodearem-nos de rostos filtrados e cuidadosamente curados que fazem o envelhecimento parecer um fracasso, em vez de um processo natural. A obsessão com o antienvelhecimento reflete uma cultura que tem dificuldade em aceitar a imperfeição, a mudança ou a diversidade na aparência."

A fixação da sociedade no antienvelhecimento também incentiva uma visão que desvaloriza as gerações mais velhas, acrescenta Steckles-Young. "Quando removemos rostos envelhecidos do espaço público, perdemos uma compreensão realista do que significa envelhecer", afirma. "Cria um ciclo prejudicial em que os mais jovens temem envelhecer e os mais velhos sentem pressão para se apagarem."

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