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Israel recua e permite missa do Domingo de Ramos em Jerusalém

CNN , Christopher Lamb , Tim Lister
30 mar, 07:53
O Patriarca Latino de Jerusalém, Cardeal Pierbattista Pizzaballa, conduz uma cerimónia de oração para assinalar o Domingo de Ramos em Jerusalém, a 29 de março, na sequência do cancelamento da tradicional procissão do Domingo de Ramos a partir do Monte das Oliveiras, devido às restrições à reunião de grandes grupos e à guerra dos EUA e de Israel contra o Irão.

Depois de uma reação generalizada, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu afirmou ter solicitado, na madrugada desta segunda-feira, às “autoridades competentes” que permitissem ao cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino, entrar na I Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, no Domingo de Ramos, e “celebrar a missa como desejar”.

No domingo, o Patriarcado Latino de Jerusalém afirmou que a polícia israelita impediu os líderes da Igreja de entrar para celebrar a missa. Foi a primeira vez que isto aconteceu em séculos.

“Pela primeira vez em séculos, os líderes da Igreja foram impedidos de celebrar a missa do Domingo de Ramos na Igreja do Santo Sepulcro”, afirmou o Patriarcado num comunicado, este domingo. “Este incidente constitui um grave precedente e ignora a sensibilidade de milhares de milhões de pessoas em todo o mundo que, durante esta semana, voltam os olhos para Jerusalém”.

O Domingo de Ramos marca o início da Semana Santa, o período mais sagrado do calendário cristão, sendo que a liturgia de domingo comemora a entrada de Jesus em Jerusalém. Acredita-se que a igreja seja o local do sepultamento e da ressurreição de Jesus.

Esta medida surge num momento em que as autoridades israelitas restringem o acesso a locais religiosos em Jerusalém Oriental, no contexto da guerra com o Irão, incluindo a Mesquita de Al-Aqsa e o Muro das Lamentações, invocando razões de segurança. Israel conquistou Jerusalém Oriental à Jordânia na guerra de 1967 e travou várias guerras desde então, mas restrições generalizadas ao acesso a locais sagrados - particularmente durante os principais períodos religiosos - têm sido raras.

Numa declaração na rede social X, Netanyahu afirmou que “o Irão tem repetidamente visado os locais sagrados das três religiões monoteístas em Jerusalém com mísseis balísticos” nos últimos dias. Acrescentou que um dos ataques caiu a apenas “metros da Igreja do Santo Sepulcro”.

A polícia israelita também emitiu uma declaração a confirmar que aprovou um regime de oração limitado na Igreja do Santo Sepulcro, em coordenação com um representante do Patriarca Latino, na sequência de uma avaliação da situação liderada pelo Comandante Adjunto do Distrito de Jerusalém, Avshalom Peled, e outros oficiais superiores. As autoridades acrescentaram que outros locais religiosos importantes, incluindo a Praça do Muro das Lamentações e o complexo do Monte do Templo, permanecem fechados aos fiéis devido a preocupações de segurança pública.

O Governo italiano criticou a decisão da polícia de proibir o acesso à igreja e planeia convocar o embaixador israelita em Roma. O Patriarcado já tinha cancelado a tradicional procissão do Domingo das Ramos em Jerusalém devido ao conflito, que levou o Irão a disparar milhares de projéteis contra Israel.

Os dois altos responsáveis da Igreja, incluindo o cardeal Pierbattista Pizzaballa, “foram interpelados no caminho, enquanto se deslocavam a título privado e sem qualquer característica de procissão ou ato cerimonial, e foram obrigados a dar meia-volta”, afirmou o Patriarcado.

Acólitos dão início à procissão da missa do Domingo de Ramos, comemorando a entrada de Jesus Cristo em Jerusalém, no Mosteiro Franciscano Católico de São Salvador, na cidade velha de Jerusalém, a 29 de março. (John Wessels/AFP/Getty Images)

Impedir a sua entrada “constitui uma medida manifestamente irracional e grosseiramente desproporcionada”, acrescentou.

O Patriarcado acusou também as autoridades israelitas de uma “decisão precipitada e fundamentalmente errada, manchada por considerações impróprias”.

O gabinete do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu afirmou que não havia “qualquer intenção maliciosa” na proibição, apenas preocupação com a segurança dos celebrantes.

“No entanto, dada a santidade da semana que antecede a Páscoa para os cristãos de todo o mundo, as forças de segurança de Israel estão a elaborar um plano para permitir que os líderes da Igreja realizem o culto no local sagrado nos próximos dias”, acrescentou o gabinete de Netanyahu.

A Polícia israelita afirmou que todos os locais sagrados na Cidade Velha de Jerusalém tinham sido “fechados aos fiéis, particularmente os locais que não dispõem de espaços protegidos de acordo com as normas, a fim de salvaguardar a segurança pública”.

“A Cidade Velha e os locais sagrados constituem uma área complexa que não permite o acesso de grandes veículos de emergência e de resgate”, afirmou a polícia num comunicado.

O número de judeus autorizados a rezar no Muro das Lamentações, em Jerusalém, foi limitado a 50 por dia, enquanto os muçulmanos foram completamente impedidos de aceder à Mesquita de Al-Aqsa desde o início da guerra, no final de fevereiro, incluindo durante todo o mês sagrado do Ramadão.

O embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, um conhecido apoiante de Israel, divulgou um comunicado no X criticando a decisão israelita, chamando-a de “uma medida exagerada e infeliz que já está a ter repercussões significativas em todo o mundo”. Huckabee observou que igrejas, sinagogas e mesquitas em toda Jerusalém “têm cumprido as restrições de 50 pessoas ou menos” por razões de segurança. “É difícil compreender ou justificar que o Patriarca tenha sido impedido de entrar na Igreja no Domingo de Ramos para uma cerimónia privada”, afirmou.

Itália condena “insulto” à liberdade religiosa

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, afirmou que o seu Governo se solidariza com o cardeal Pizzaballa e outros líderes religiosos.

“O Santo Sepulcro em Jerusalém é um local sagrado do cristianismo e, como tal, deve ser preservado e protegido”, acrescentou Meloni. Impedir que líderes religiosos entrem na igreja “constitui um insulto não só aos crentes, mas a todas as comunidades que reconhecem a liberdade religiosa”, afirmou Meloni.

O Patriarca Latino de Jerusalém, Cardeal Pierbattista Pizzaballa, conduz uma cerimónia de oração para assinalar o Domingo de Ramos em Jerusalém, a 29 de março, na sequência do cancelamento da tradicional procissão do Domingo de Ramos a partir do Monte das Oliveiras, devido às restrições à reunião de grandes grupos e à guerra dos EUA e de Israel contra o Irão.(Ammar Awad/AFP/Getty Images)

O ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Antonio Tajani, afirmou no X que a proibição era inaceitável. Tajani instruiu o embaixador italiano em Israel a apresentar um protesto ao governo e convocaria o embaixador israelita em Roma na segunda-feira.

Durante a missa no Vaticano no domingo, o Papa Leão afirmou que Deus rejeita as orações dos líderes que iniciam guerras e têm “as mãos cheias de sangue”. Acrescentou ainda que as suas orações estão “mais do que nunca com os cristãos do Médio Oriente, que sofrem as consequências de um conflito brutal e, em muitos casos, não conseguem observar plenamente as liturgias destes dias santos”.

Dirigindo-se a dezenas de milhares de pessoas na Praça de São Pedro no Domingo de Ramos, a celebração que dá início à Semana Santa que antecede a Páscoa para os 1,4 mil milhões de católicos do mundo, o pontífice classificou o conflito de “atroz” e afirmou que Jesus não pode ser usado para justificar quaisquer guerras.

No início deste mês, a Arábia Saudita, a Jordânia, os Emirados Árabes Unidos, o Catar, a Indonésia, o Paquistão, o Egito e a Turquia condenaram o encerramento continuado por parte de Israel do complexo da Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, aos fiéis muçulmanos.

Os oito Estados muçulmanos afirmaram que as restrições discriminatórias e arbitrárias ao acesso a locais de culto constituíam uma “violação flagrante” do direito internacional.

Abeer Salman e Eugenia Yosef, da CNN, contribuíram para esta reportagem.

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