Sem Trump, Powell seria mais um presidente da Fed, sem nada de notável que fizesse o seu trabalho ganhar protagonismo histórico. Contudo, o facto de se ter mostrado firme perante um chefe de Estado com tiques ditatoriais e de ter feito aquilo para que foi nomeado, servir os interesses do público, fará com o que o seu nome seja lembrado durante algum tempo
A mensagem publicada nas redes sociais da Reserva Federal no dia 12 de janeiro não poderia ser mais clara: o seu presidente, Jerome Powell, está farto de Donald Trump.
Numa declaração curta e concisa, Powell reagiu à ameaça de acusação feita pelo Departamento de Justiça contra a Fed, relacionada com o seu testemunho perante o Comité de Serviços Financeiros do Câmara dos Representantes em junho passado. Powell, que sempre optou por evitar um confronto público com o presidente dos EUA, não tinha outra escolha.
“Esta nova ameaça não tem a ver com o meu testemunho em junho passado nem com a renovação dos edifícios da Reserva Federal. Não tem a ver com o papel de supervisão do Congresso. (...) Esses são pretextos. A ameaça de acusações criminais é uma consequência de a Reserva Federal definir as taxas de juro com base na melhor avaliação do que será melhor para o público, em vez de seguir as preferências do presidente.”
Video message from Federal Reserve Chair Jerome H. Powell: https://t.co/5dfrkByGyX pic.twitter.com/O4ecNaYaGH
— Federal Reserve (@federalreserve) January 12, 2026
A guerra entre Trump e Powell foi quase unilateral até segunda-feira. De um lado surgem ataques constantes, ameaças de demissão e até comparações com líderes autoritários. “A minha única pergunta é: quem é o nosso maior inimigo, Jay (alcunha) Powell ou o presidente Xi [Jinping]?”, escreveu Trump no X, então Twitter, a 23 de agosto de 2019.
Muito se passou desde esse dia. Veio a pandemia, a vitória de Joe Biden nas presidenciais de 2020, o maior conflito armado na Europa desde a Segunda Guerra Mundial e o retorno de Trump à liderança dos EUA. O desdém do chefe de Estado americano por Powell manteve-se, porém, inalterado.
O grande irritante entre Trump e Powell é, como o próprio chair da Reserva Federal explicou no vídeo, a definição das taxas de juro. Trump quere-as mais baixas, em linha com uma das principais ambições expressadas durante a campanha eleitoral de 2024, a de tornar a América “acessível” outra vez – entretanto, a palavra “acessibilidade” deixou de ser um dos slogans de campanha para passar a ser uma “fraude” dos democratas.
Com taxas de juro mais baixas, os empréstimos para a compra da habitação e de carros, por exemplo, ficam mais baratos. É um convite aos consumidores para gastarem e investirem, sendo precisamente esse o impulso que Trump quer dar à economia americana para que possa crescer. Mas, com o aumento do consumo, aumenta também a possibilidade da subida da inflação.
Powell está bem ciente desse risco. A inflação nos EUA situava-se nos 2,7% em dezembro, ainda bem longe do objetivo de 2% estabelecido pela Reserva Federal. Mas há outros fatores em consideração. Ao contrário do que Trump deixa transparecer, os americanos estão a consumir – e muito. O PIB dos EUA subiu 4,3% no terceiro trimestre do ano passado face ao mesmo período de 2024, parcialmente alimentado pela subida do consumo, de acordo com o Bureau of Economic Analysis.
Mas Trump não deixa que os dados macroeconómicos ajudem à definição das suas políticas e continua a bater na tecla da descida das taxas de juro. O problema para o presidente é que Jerome Powell aparenta não ter medo de si, nem está disposto a fazer o papel que Mark Rutte, Gianni Infantino e María Corina Machado, entre outros, têm desempenhado nos últimos meses.
A história
A carreira de Powell enquanto funcionário público até à liderança da Fed foi discreta. Republicano desde sempre, serviu na administração de George H.W. Bush, primeiro como secretário assistente do Tesouro para as Instituições Financeiras e depois como subsecretário de Estado do Tesouro para as Finanças Domésticas. Posteriormente, e após quase duas décadas no setor privado, foi nomeado membro da Reserva Federal por Barack Obama, naquela que foi a primeira vez desde 1988 que um presidente nomeou um membro da oposição para aquela função.
Powell aterrou na liderança da Fed pela mão de Donald Trump em 2018. Na altura da nomeação, em novembro de 2017, Trump disse que a Reserva Federal precisava de uma “liderança forte, sólida e estável” e que Powell proporcionaria “esse mesmo tipo de liderança”.
"Ele é forte, empenhado e inteligente, e se for confirmado pelo Senado, o Jay colocará os seus consideráveis talentos e experiência ao serviço da liderança do banco central independente do nosso país”, afirmou o presidente dos EUA, então no seu primeiro mandato na Casa Branca.
Mas os elogios cedo deram lugar aos insultos pueris. Com menos de um ano no cargo, Powell cedo deixou Trump “nada entusiasmado” ao, lá está, subir as taxas de juro. "Até agora, não estou nem um pouco feliz com a minha escolha do Jay", disse Trump ao The Washington Post em novembro de 2018. Em plena guerra comercial com a China – daí a comparação acima referida com Xi Jinping -, Trump ridicularizou Powell, durante uma entrevista à Fox Business Network.
“Ele decidiu provar o quão duro é, porque não vai deixar que o intimidem? Aqui está um tipo - ninguém nunca ouviu falar dele antes. E agora, eu criei-o e ele quer mostrar o quão duro é. OK. Deixem-no mostrar o quão duro é. Ele não está a fazer um bom trabalho.”
Curiosamente, o início da pandemia aproximou os dois. Para combater os efeitos da covid-19 na economia americana, a Reserva Federal tomou uma série de medidas para ajudar consumidores e empresas, incluindo a descida das taxas de juro. Não valia a pena explicar a Trump quais eram as outras medidas: ver as taxas de juro descerem deixou-o automaticamente de sorriso na cara.
"Diria que, no início, não estava satisfeito com ele [Jerome Powell]. Mas estou cada vez mais feliz. Acho que ele assumiu as suas responsabilidades. Fez um bom trabalho. Teve de flexibilizar um pouco, deixar-nos flexibilizar, deixar a economia, quero dizer, disponibilizar o dinheiro de que precisamos."
Os anos com Biden, que o reconduziu em 2021, ao leme dos EUA, foram um pouco mais tranquilos. Em julho de 2024, perante o Comité de Serviços Financeiros da Câmara, Powell disse que não se reunia com Biden desde 31 de maio de 2022. Mas o respeito pela independência da Fed durou apenas um mandato.
Ainda Trump era apenas presidente-eleito, em novembro de 2024, e já o conflito entre ambos reaquecia. Questionado em conferência de imprensa sobre se sairia da presidência da Fed caso Trump o pedisse, Powell respondeu com um lacónico “não”. Instado a elaborar, foi mais claro: “Não é permitido por lei”.
O regresso de Trump à Casa Branca trouxe de volta as ameaças e críticas a Powell, desta vez muito mais agressivas. Logo em janeiro, poucos dias após tomar posse, o presidente dos EUA criticou a Reserva Federal e Powell por terem “falhado em resolver o problema que criaram com a inflação”.
“Se a Fed tivesse dedicado menos tempo à DEI [Diversidade, Equidade e Inclusão], à ideologia de género, à energia verde e às falsas alterações climáticas, a inflação nunca teria sido um problema”, escreveu Trump na Truth Social.
Em abril, Trump referiu que o fim do mandato de Powell “não poderia chegar mais cedo”.
"Jerome Powell, da Reserva Federal, que está sempre ATRASADO E ERRADO, divulgou ontem um relatório que foi mais uma vez, e como de costume, uma completa ‘confusão’”, escreveu Trump na sua rede social.
Em julho, a imprensa americana noticiou que Trump tinha preparado uma carta de despedimento para Powell. O presidente dos EUA prontamente negou, mas deixou uma janela aberta. "Não descarto nada, mas acho muito improvável, a menos que ele tenha de sair por fraude.”
Nesse mesmo mês, a administração Trump lançou o mais forte ataque ao presidente da Fed. Russell Vought, o diretor de orçamento da Casa Branca e um dos grandes mentores do Project 2025, começou a investigar as obras de renovação do edifício da Reserva Federal, o Eccles Building. As obras foram aprovadas em 2017, ainda Powell não era presidente da instituição, mas a condução do processo, bem como a natureza das renovações, motivaram muitas críticas dos republicanos. O senador Tim Scott acusou Powell de gastar “milhares de milhões em renovações luxuosas”, incluindo “rooftops na cobertura, elevadores personalizados que se abrem para salas de jantar VIP, acabamentos em mármore branco e até mesmo uma coleção de arte privada”. A máquina MAGA estava a funcionar a 100% para forçar a saída do presidente da Fed.
Powell rebateu as acusações e a Reserva Federal publicou mesmo um texto com perguntas frequentes para desmentir alguns dos pontos levantados por Scott.
Um dos momentos mais surreais, e que trouxe a atenção para a questão das obras no Eccles Building, foi a visita conjunta que Trump e Powell fizeram ao local das renovações, a 24 de julho. Ambos de capacete branco, responderam às perguntas dos jornalistas no local. Trump começou a sua verborreia habitual, desta vez sobre os custos das obras.
“Parece que [os custos das obras] subiram para 3,1 mil milhões [de dólares]. Subiram um bocadinho ou muito. Portanto, os 2,7 mil milhões são agora 3,1 mil milhões”, disse Trump.
Powell diz que não com a cabeça. O orçamento estimado pela Fed para as obras é de 2,5 mil milhões de dólares. “Não ouvi isso de ninguém”, respondeu o líder da Reserva Federal, antes de olhar para um papel dado por Trump. “[O senhor presidente] adicionou um terceiro edifício.”
“É um edifício que está a ser construído”, retorquiu Trump. “Foi construído há cinco anos”, devolveu Powell.
Para a eternidade?
O mandato de Powell à frente da Reserva Federal termina em maio. Ainda terá direito a mais dois anos como governador mas, até agora, evitou dizer se os vai cumprir ou não.
A situação do presidente da Fed faz lembrar a de Anthony Fauci, imunologista e diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA entre 1984 e 2022, durante a pandemia. Para a história ficam as conferências de imprensa confrangedoras, incluindo aquela em que Trump, perante um cansado Fauci, sugeriu injetar desinfetante diretamente no sistema respiratório de forma a curar o coronavírus.
Ambos tinham um histórico de dedicação quase anónima à causa pública antes de entrarem em conflito com Donald Trump. A ira e imprevisibilidade do presidente dos EUA trouxeram-lhes indesejada fama e tornaram-nos alvos dos MAGA – o caso de Fauci foi particularmente grave.
Como Fauci, Powell não se deixou intimidar por Trump, pelo menos por agora, e não abdicou do seu poder para satisfazer o pedido incessante do presidente para a redução das taxas de juro.
Sem Trump, Powell seria mais um presidente da Fed, sem nada de notável que fizesse o seu trabalho ganhar protagonismo histórico. Contudo, o facto de se ter mostrado firme perante um chefe de Estado com tiques ditatoriais e de ter feito aquilo para que foi nomeado, servir os interesses do público, fará com o que o seu nome seja lembrado durante algum tempo.