Deixou uma mansão ao abandono, esqueceu um Porsche em Espanha e agora foi declarado falido

19 jan, 09:18
Jermaine Pennant (AP)

Jermaine Pennant, lembra-se? Cresceu num dos piores bairros de Inglaterra, foi contratado por dois milhões de euros aos 15 anos, jogou no Arsenal e no Liverpool, chegou a ganhar 360 mil euros por mês, mas gastou tudo numa vida de excessos. Na estreia a titular pelo Arsenal, por exemplo, diz que ainda sentia o vodka a saltar-lhe no estômago. Após deixar o futebol participou no Big Brother e fez filmes pornográficos, mas o dinheiro já não chegava e hoje está na bancarrota.

Jermaine Pennant voltou a ser notícia na semana passada: o antigo jogador, agora com 40 anos, foi declarado insolvente por um tribunal de Birmingham, após se declarar incapaz de pagar dívidas na ordem de um milhão de euros.

Entre os credores estavam as finanças, a segurança social, várias instituições bancárias e até empresas estatatais britânicas.

«Honestamente, podia ter sido bilionário que teria esbanjado tudo na mesma. Cometi demasiado erros, mas eu não sabia como lidar com as coisas e não conseguia pensar na consequência dos meus atos», admitiu por estes dias.

Na realidade, a bancarrota pessoal é só mais um episódio numa vida cheia de excessos. Foram tantos, aliás, que Pennant escreveu um livro para os contar.

Ou antes, mandou escrever. Mas já lá vamos.

Antes de mais importa dizer que Pennant nasceu em Nottingham, perdeu a mãe aos três anos para o cancro e cresceu com o pai e três irmãos mais novos.

Começou por viver num lar para sem-abrigo, até que a família recebeu uma casa num bairro social de Meadows, no sul de Nottingham: uma das piores zonas de Inglaterra e aquela que tem as pessoas com rendimentos mais baixos do país.

O pai era traficante e consumidor de droga, pelo que havia sempre armas e estupefacientes lá por casa. Com o tempo, passou a consumir mais e a traficar menos, acabando por ser condenado a quatro anos de prisão.

«Eu vivia com meu pai desde os três anos. Eu sou o mais velho de quatro. Sou eu, um irmão e duas irmãs. Eles ficaram com as suas mães, por isso era só eu e o meu pai. Ele saiu várias vezes de casa, com várias mulheres, e onde quer que ele fosse, eu ia. Nunca tive aquela figura da mãe e também não tinha um pai estável. Houve uma grande lacuna entre a infância e o meio da adolescência em que não tinha nem pai, nem mãe», contou ao The Guardian.

Quando o pai lhe ficou com a prenda de aniversário

Jermaine Pennant recordou uma vez o dia em que fez 14 anos. A avó e uns tios ofereceram-lhe dinheiro. Tudo junto dava cerca de 40 libras.  Ao ver o dinheiro, o pai perguntou-lhe quanto era e pediu-lhe que lho entregasse. Perante a relutância do filho, arrancou-lhe o dinheiro das mãos e foi comprar droga.

Pennant começou então a chorar e nunca esqueceu as palavras do pai. «Pára de chorar, não sejas estúpido. Eu vou arranjar um trabalho e depois devolvo-to.»

Nunca o devolveu.

Foi também nessa altura, quando tinha 14 anos, que o gangue de que Jermaine Pennant fazia parte se meteu num grande sarilho. Numa luta de rua, espancaram um rapaz que acabou por morrer no hospital. Pennant tinha-se escondido num restaurante e não se envolveu na luta. Seis amigos foram detidos e condenados.

Apesar de tudo, o antigo jogador consegue a esta distância ver que aqueles jovens eram amigos de verdade, que se preocupavam verdadeiramente com ele.

«Foi difícil crescer no bairro. Havia muitos crimes, muitos crimes com armas de fogo, drogas. E cada vez está pior. Nunca foi bom crescer naquele lugar, mas eu tinha amigos ao meu redor. Eu tinha 14 anos ou 15 anos e eles tinham 19, 20. Viam o potencial que eu tinha para jogar futebol e mantinham-me longe dos problemas em que estavam a meter-se.  Muitas vezes diziam-me: 'Vamos ali a um lugar agora, mas não queremos te envolvas nisto’.»

O adolescente mais caro da história do futebol inglês

Enquanto crescia neste ambiente difícil, num dos bairros mais complicados de Inglaterra, Jermaine Pennant foi jogando futebol no Notts County. O pai tinha sido jogador semi-profissional e incentivava o filho a seguir aquele caminho.

«As pessoas do Notts County queriam proteger-me e levaram-me para viver no centro de estágios, embora eu morasse a dez minutos do campo de treinos. Não queriam que me misturasse com as influências erradas. Se não tivesse entrado no futebol, poderia facilmente ter seguido o caminho errado. O clube fez muito por mim, cuidou de mim e eu adorei porque estava a jogar futebol.»

O talento do miúdo começou a dar nas vistas e vários clubes tentaram contratá-lo. Até que o Arsenal pagou dois milhões de libras quando ele tinha apenas 16 anos, batendo o recorde de transferência mais cara de um adolescente.

«Quando assinei contrato, as pessoas do Arsenal mostraram-me como me tinham acompanhado durante três anos. Mostraram as minhas marcas de progresso. A, B, C para isto, para isto e para aquilo. Estava tudo registado desde os meus 13 aos 16 anos. Não se pode dizer que não a um clube como o Arsenal.»

Estreou-se na primeira equipa com 16 anos, num jogo da Taça da Liga frente ao Middlesbrough, tornando-se o mais jovem de sempre a jogar com a camisola do clube. Um recorde que mais tarde foi batido por Cesc Fabregas.

A estreia a titular com um hat-trick e uma ressaca tão grande... que ainda sentia o vodka no estômago

Apesar disso, e apesar de fazer alguns jogos na Taça da Liga, Pennant teve de esperar dois anos e meio pela estreia na Liga Inglesa. E teve de esperar mais de três anos pela estreia a titular na Liga Inglesa: aconteceu a 7 de maio de 2003, numa vitória por 6-1 sobre o Southampton, e o miúdo fez um hat-trick.

Com uma tremenda dor de cabeça.

«Eu estava convencido que não ia jogar e muito menos ser titular, até porque nunca tinha sido titular no Arsenal. Por isso fui sair na noite anterior e tive uma grande noite. Fui a uma festa da FHM, saí às 6 horas da manhã e fui tomar o pequeno almoço a um McDonalds. Quando estávamos em estágio e vi o meu nome na equipa titular, nem queria acreditar. Estava com uma ressaca terrível e tinha de jogar. Pensei que tinha de fazer tudo para não me envergonhar.»

O primeiro golo que marcou, adianta, «foi um grande alívio».

«Aí pensei: 'OK, agora já me pode tirar. Por favor, Arsene!' Estava tão mal, só queria sair de campo. Ainda sentia a vodka às voltas no meu estômago. Acho que se conseguia sentir o cheiro a álcool no meu hálito também.»

Apesar da ressaca, Pennant fez três golos. Só que as coisas não mudaram, no jogo a seguir estava novamente no banco. E esse diz que foi o problema.

«Estive quase sete anos no Arsenal e fiz cinco jogos a titular. Lembro-me de Arsène Wenger me dizer: 'Estás muito bem, não tenho nada que dizer'. E eu pensava: 'Se ele não tem de que se queixar, porque não me dá uma hipótese?’ Admito que aí deixei as coisas escaparem. Senti que não era desejado e comecei a cometer muitos erros. Eu estava frustrado. Por isso estava sempre em festas, parecia um cão com cio. E as coisas tornaram-se um ciclo vicioso.»

A prisão de três meses e o regresso aos relvados... com pulseira eletrónica

Entre muitas festas, mulheres e excessos, o jovem acabou por ser emprestado ao Watford, ao Leeds e ao Birmingham. Até que foi preso.

Aconteceu quando em janeiro de 2005, na primeira época no Birmingham, quando teve um acidente com o seu Mercedes: foi contra um poste. Apresentava um taxa de alcool superior ao limite, claro, mas o pior é que estava proibido de conduzir desde um outro acidente. Tinha ficado com pena suspensa.

Quando foi chamado a tribunal, o jovem admitiu que tinha bebido muito, mas argumentou não saber que ainda estava impedido de conduzir: explicou que não tinha conhecimentos para ler a carta do tribunal, que tinha pedido ajuda à tia e que esta lera mal a data do fim da proibição.

O que chamou a atenção de Inglaterra: aquele jovem milionário, figura pública, internacional jovem não conseguia entender o que lia, nem sabia escrever. Um problema que um estudo feito mais tarde mostrou atingir 1,8 milhões de jovens de bairros problemáticos de toda a Inglaterra.

Foi então condenado a três meses de prisão, dos quais acabou por cumprir apenas um. Depois saiu com uma pulseira eletrónica. Tornou-se o primeiro jogador a jogar em Inglaterra com uma pulseira eletrónica.

«Eu era o preso MX7232. Acho que nunca me vou esquecer. A prisão mudou-me. Mas poucas pessoas passam por isso e depois jogam uma final da Liga dos Campeões. Mereço algum crédito por não deixar que isso me destruísse.»

Quando foi libertado, Jermaine Pennant foi recebido por Steve Bruce, treinador do Birmingham, que acreditava nele e quis dar-lhe outra oportunidade.

O jovem somava casos de indisciplina, já tinha sido expulso de um estágio da seleção sub-21, mas Steve Bruce assinou com ele em definitivo. A resposta dentro de campo foi fantástica e um ano depois o Liverpool contratou-o.

Pagando mais de sete milhões de euros pelo passe.

No Liverpool jogou mais de 50 jogos na primeira época, disputou uma final da Liga dos Campeões que o clube perdeu frente ao Milan, e tudo parecia correr bem. Até que um fratura de stress o levou a ser operado. Quando voltou, nunca mais agarrou um lugar a titular e acabou por ser cedido ao Saragoça.

O dia em que se deixou o Porsche Cayenne abandonado em Espanha

Também em Espanha o treinador se fartou dos atrasos na chegada aos treinos e, após o terceiro atraso em duas semanas, nunca mais o convocou.

«A noite em Espanha era louca. Pareciam festas da universidade, era só jovens. Uma vez fui com Frank Songo’o [filho de Songo’o, guarda-redes dos Camarões] a uma festa a Barcelona. Tínhamos planeado apanhar o comboio de regresso a Saragoça, que nos permitia chegar a tempo do treino. Mas o comboio atrasou-se e não chegámos a tempo. Já tinham mandado o médico a minha casa ver o que se passava. O meu tradutor ligou-me a dizer que estavam loucos comigo.»

Em Espanha, Jermaine Pennant deixou também uma história para eternidade.

Tudo aconteceu no último dia de mercado, 31 de agosto, quando foi avisado que tinha de viajar rapidamente para Inglaterra para assinar pelo Stoke City.

«Tinha que apanhar um comboio para Madrid e um avião para Manchester. Então saí do Porsche Cayenne a toda velocidade e deixei as chaves no porta-luvas do carro. Mais tarde disse ao meu tradutor para ir à estação, apanhar o carro. Disse-lhe que não se preocupasse, o carro estava destrancado. O pobre estava atordoado. 'Um Porsche abandonado e aberto! Estás louco?'. Ficou lá tanto tempo que tive de pagar 500 euros de multas de estacionamento.»

Depois do Stoke City jogou na Índia, em Singapura, no Wigan, no Fury e acabou num clube semi-profissional da sétima divisão inglesa.

Uma tatuagem denunciou-o nos filmes pornográficos que fazia com a namorada

Pelo meio ainda foi despedido do Fury, depois que foi descoberto que vendia filmes pornográficos que fazia com a namorada Alice Goodwin, uma atriz que se tornou mais conhecida pelas produções para revistas masculinas.

Jermaine Pennant aparecia nos vídeos com a cara tapada, mas foi reconhecido por uma pessoa que reparou numa tatuagem na mão. O vídeo foi divulgado e em poucas horas Inglaterra não falava de outra coisa.

Mas houve mais, claro.

Em 2020, uma mansão que tinha comprado por mais de três milhões de euros perto de Liverpool foi atingida por um enorme incêndio. Nas investigações que se seguiram, a polícia descobriu que a casa funcionava para traficar droga.

Pennant foi então chamado a prestar declarações, mas a verdade é que ele só lá tinha vivido três anos. Desde que se mudara para o Saragoça que a deixara. Nos primeiros dez anos esteve arrendada, mas desde que se separara da namorada Alice Goodwin que estava abandonada. Foi então ocupada por traficantes, que a utilizavam como laboratório de droga.

Surpreendentemente, ou então não, Pennant ainda pagava a hipoteca da casa.

Foi assim, com gastos exorbitantes, muitas festas e várias namoradas – modelos, atrizes, enfim –, que o inglês esbanjou uma fortuna. Chegou a ter um ordenado de 80 mil libras por semana, o que dá cerca de 360 mil euros por mês.

Pennant conta, por exemplo, que uma vez, numa noite em Las Vegas, pagou 25 mil euros de conta do bar em bebidas para ele e para os amigos.

Depois de deixar o futebol ainda entrou no Big Brother Famosos e num outro programa de televisão, mas o dinheiro já tinha voado e os gastos continuavam altos. Por isso agora foi declarado insolvente pelo tribunal.

 

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