No meio dos milhões de páginas dos ficheiros Epstein que foram tornadas públicas, aparecem emails e registos que ligam o milionário condenado por crimes sexuais contra menores a Peter Mandelson, um dos políticos mais influentes do Reino Unido
Os últimos dias têm sido um verdadeiro terramoto político para o governo britânico, que atravessa a maior crise desde que o primeiro-ministro, Keir Starmer, chegou ao poder, há pouco mais de um ano e meio - tudo por causa de Jeffrey Epstein.
No meio dos milhões de páginas dos ficheiros Epstein que foram tornadas públicas, aparecem emails e registos que ligam o milionário condenado por crimes sexuais contra menores a Peter Mandelson, um dos políticos mais influentes do Reino Unido, que Starmer tinha nomeado para embaixador em Washington há um ano.
Segundo os documentos, Mandelson terá partilhado informações confidenciais com Epstein quando estava no governo em 2008: relatórios internos que detalhavam a venda de ativos do Estado britânico para estabilizar a libra durante a crise financeira.
Mandelson demitiu-se como embaixador em setembro e deixou formalmente o parlamento britânico na semana passada.
O primeiro-ministro disse que Mandelson “traiu a nação”. Admitiu ainda que sabia da amizade entre o ex-embaixador e Epstein quando o nomeou para o cargo, mas diz que Mandelson não lhe contou a história toda.
Apesar disso, no fim de semana, o círculo mais próximo de Starmer começou a desmoronar-se - primeiro com a demissão de Morgan McSweeney, o chefe de gabinete do primeiro-ministro e depois com o diretor de comunicação, Tim Allen, a abandonar o cargo.
Mas apesar de pedidos de dentro do próprio partido para Starmer se demitir - incluindo do líder trabalhista escocês - o governo mobilizou-se em torno do primeiro-ministro, que diz que “ganhou todas as batalhas que já travou” e que não está preparado para deixar o cargo.
Mas para muitos, sobretudo para os críticos do primeiro-ministro, estar no cargo e estar no poder são duas coisas diferentes.
Um terramoto político e real
Com a família real, a história tem proporções igualmente sísmicas.
Os mesmos documentos dos ficheiros Epstein sugerem que o antigo príncipe André - Andrew Mountbatten-Windsor como passou a ser conhecido depois do irmão, o rei Carlos III, lhe retirar os títulos - terá também partilhado documentos oficiais britânicos com Epstein.
Os dois eram amigos e, na altura em que os emails foram trocados em 2010, André também era uma espécie de embaixador - era o representante especial do governo britânico para o comércio internacional.
Agora, a polícia está a investigar formalmente André.
Na segunda-feira, o palácio de Buckingham emitiu um comunicado invulgar, a dizer que o rei Carlos “tem demonstrado, através de palavras e ações sem precedentes” a sua “profunda preocupação” perante as alegações, e que o monarca está disposto a cooperar com as autoridades, se for solicitado.
André, recorde-se, foi obrigado na semana passada a sair de uma residência da Coroa em Windsor onde vivia há mais de vinte anos.
O príncipe de Gales, herdeiro do trono e sobrinho de André, também falou pela primeira vez sobre o assunto a caminho de Arábia Saudita para uma visita oficial, com um representante do palácio de Kensington a dizer que William e Kate estão “profundamente alarmados” com as revelações que continuam a surgir.