Os elogios a Trump, a morte de Epstein e as massagistas menores: entrevista a Ghislaine Maxwell levanta mais dúvidas do que respostas

CNN , Aaron Blake
23 ago 2025, 10:07
Esta imagem de prova de julgamento sem data obtida em 8 de dezembro de 2021, do Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Sul de Nova Iorque, mostra Ghislaine Maxwell e Jeffrey Epstein na cabana da rainha em Balmoral

Transcrição da entrevista de Ghislaine Maxwell ao Departamento de Justiça não acrescenta muito ao que já se sabe sobre Epstein. Mas há alguns pontos a salientar - sobretudo aqueles que revelam o que parece ser uma má gestão do caso por parte da Casa Branca

O Departamento de Justiça divulgou na sexta-feira as tão esperadas transcrições de uma entrevista realizada há algumas semanas com Ghislaine Maxwell, cúmplice de Epstein e condenada por tráfico sexual de mulheres.

Esta entrevista foi a forma que a Casa Branca arranjou para tentar acalmar a indignação sobre o tratamento dado aos arquivos de Epstein, que abalou a administração Trump durante semanas e fez com que mesmo os apoiantes do presidente se revoltassem.

A procuradora-geral Pam Bondi e outros funcionários criaram expectativa em torno dos documentos de Epstein, para depois recuarem nas promessas de os tornar públicos. Trump também fez uma série de afirmações falsas e enganosas que levaram as vítimas de Epstein a sugerir um encobrimento.

A administração Trump fez uma outra promessa – solicitar a divulgação dos depoimentos do grande júri, que não surtiu muito efeito. Na verdade, dois juízes sugeriram que se tratava de uma “manobra de diversão” destinada a parecer transparente, mas só nas aparência.

A entrevista com Maxwell conduzida pelo procurador-geral adjunto Todd Blanche também não acrescenta muito ao que já se sabe sobre o caso de Epstein. Mas há alguns pontos importantes que vale a pena analisar – especialmente no contexto mais amplo da má gestão do caso por parte da Casa Branca.

Eis o que ficamos a saber pela transcrição:

Maxwell não está a ser sincera, o que prejudica o exercício

Esta entrevista assinala a primeira vez que a Casa Branca faz uma divulgação de informações desta magnitude sobre o caso. Na sexta-feira, a administração Trump enviou documentos sobre Epstein a uma comissão da Câmara dos Representantes que os havia solicitado, mas que ainda não foram divulgados.

Mas esta entrevista sempre foi uma opção estranha, dado que Maxwell é uma criminosa sexual condenada e ainda aguarda decisão dos seus recursos. Quando Trump ainda estava no primeiro mandato na Casa Branca, o Departamento de Justiça chegou a descrevê-la como uma mentirosa descarada. Então, o que pode Maxwell acrescentar agora que seja realmente de valor?

Não muito, ao que parece.

As grandes manchetes referem que Maxwell não implica ninguém – incluindo Trump – em qualquer irregularidade e que Epstein não tinha uma lista de clientes. Mas essas declarações poderiam ter mais peso se Maxwell tivesse confessado os seus próprios erros e os de Epstein.

Maxwell claramente não fez isso. Na verdade, lançou repetidas dúvidas sobre essas alegações.

Negou que Epstein lhe pagasse milhões de dólares para recrutar mulheres jovens. Negou ter testemunhado qualquer ato sexual não consensual. E negou ter visto qualquer coisa “inaproprirada” por parte de “qualquer homem” – aparentemente incluindo Epstein.

“Nunca, jamais vi qualquer homem a fazer algo inapropriado com uma mulher de qualquer idade”, assegurou Maxwell. “Nunca vi situações inapropriadas.”

Outras respostas de Maxwell também colocam em causa a sua credibilidade.

Noutro caso, Maxwell afirmou que Epstein não tinha câmaras “inapropriadas” nas suas casas em Nova Iorque, nas Caraíbas, no Novo México e em Paris. Explicou que as câmaras na sua residência em Palm Beach, na Flórida, foram instaladas porque acreditavam que alguém estaria a roubar dinheiro. Mas a moradia de sete andares de Epstein em Manhattan estava equipada com câmaras, segundo noticiou o New York Times no início deste mês. Várias vítimas de Epstein referiram a existência de uma rede de câmaras ocultas.

Noutra ocasião, Maxwell indicou que não se lembrava de ter recrutado uma massagista do resort Mar-a-Lago, de Trump, aparentemente negando as acusações de Virginia Giuffre de que foi lá que Maxwell a recrutou.

“Nunca recrutei uma massagista do Mar-a-Lago para isso, tanto quanto me lembro.”

Mas, no dia seguinte, Maxwell disse uma coisa diferente.

“Não me lembro de ninguém que eu tenha recrutado. Mas não é impossível que eu tenha pedido a alguém de lá [de Mar-a-Lago].”

Se Maxwell não estava disposta a confessar os seus próprios crimes, devemos realmente esperar que ela esclareça qualquer outra coisa?

A resposta de Maxwell sobre a morte de Epstein provavelmente suscitará mais dúvidas

A entrevista de Todd Blanche a Maxwell não foi muito esclarecedora. Na verdade, ainda levanta mais dúvidas.

A dada altura, Maxwell concordou, pelo menos em parte, com as teorias da conspiração sobre a morte de Epstein, que muitos atribuem a suicídio.

“Não acredito que ele tenha morrido por suicídio, não”, respondeu Maxwell. Questionada sobre quem poderia ter matado Epstein, respondeu que não sabia.

Maxwell divergiu de muitas das teorias sobre a morte de Epstein, ao dizer que não acreditava que ele tivesse sido morto por estar a chantagear pessoas. Em vez disso, sugeriu que poderia ter sido um ataque não relacionado.

“Na prisão onde estou, eles matam-te ou pagam para alguém o fazer — alguém pode pagar a um presidiário para te matar por 25 dólares. Esse é o preço atual por um assassinato”, sugeriu Maxwell.

Todd Blanche fez questão de salientar essa distinção, voltando repetidamente ao assunto.

A Casa Branca disse anteriormente que Epstein morreu por suicídio, mas as informações que divulgou — incluindo um vídeo da prisão — levantaram dúvidas sobre a confiabilidade das provas.

Maxwell tem problemas óbvios de credibilidade e não teria necessariamente qualquer informação privilegiada sobre como Epstein morreu. A antiga cúmplice de Epstein garante que nunca o contactou nem o visitou na prisão. Mas uma investigação recente mostra que 60% dos norte-americanos acreditam que a Casa Branca está a “esconder informações” sobre a morte de Epstein.

Agora a principal cúmplice de Epstein aparentemente disse à administração que isso não é verdade.

Os elogios a Trump

Uma das grandes questões levantadas quando se soube da entrevista do Departamento da Justiça era se Maxwell estaria a usar esta oportunidade para ganhar alguma coisa em troca por parte da administração Trump – e estava a adaptar o seu testemunho de acordo com isso.

O seu advogado, David Markus, passou as semanas anteriores a elogiar Trump e até a sugerir um possível perdão ou intervenção legal nos seus recursos que estão em andamento.

Maxwell também foi recentemente transferida para um estabelecimento prisional de segurança mais baixa, para o qual ela, como criminosa sexual, não parece ser elegível sem uma isenção. A administração ainda não explicou o porquê dessa transferência.

E o testemunho de Maxwell não refuta exatamente que ela quer algo de Trump.

A certa altura, fez uma breve declaração para elogiar espontaneamente o sucesso político do presidente republicano.

“Só quero dizer que admiro a sua extraordinária conquista ao conseguir um segundo mandato”, salientou Maxwell, referindo-se a Trump: “E gosto dele, sempre gostei dele.”

Trump também disse coisas simpáticas sobre Maxwell, incluindo uma afirmação bizarra a desejar que fique bem - por diversas vezes - depois de ela ter sido acusada em 2020. Trump também deixou várias vezes em aberto a possibilidade de lhe conceder um perdão por volta da altura que acontecia esta entrevista a Todd Blanche, que outrora já trabalhou como advogado pessoal do presidente republicano.

Blanche explicou a Maxwell que ela tinha imunidade limitada para a entrevista, mas também fez questão de sublinhar: “Não prometo fazer nada por si.”

Nomes foram revelados e Maxwell refuta Trump

Quando o Departamento de Justiça anunciou, no mês passado, que não iria divulgar mais informações, justificou a decisão por não querer impugnar pessoas que não foram acusadas de crimes. O próprio Trump afirmou várias vezes que queria evitar isso.

Mas, curiosamente, a Casa Branca parece agora ter alterado a sua postura sobre esta matéria.

As transcrições ocultam apenas os nomes das vítimas e mantêm os nomes de pessoas conhecidas mencionadas por Maxwell e Blanche.

Isso inclui não só os nomes de Trump e do ex-presidente Bill Clinton, mas também do secretário de Saúde e Serviços Humanos Robert F. Kennedy Jr., Harvey Weinstein, um ex-congressista e muitos outros. Maxwell mencionou alguns homens que recebiam massagens, mas nunca falou de irregularidades.

Maxwell disse explicitamente que nunca observou Trump a receber uma massagem. Sobre Clinton, afirmou: “Não acredito que ele tenha feito isso.” Sobre Kennedy, respondeu: “Nunca vi nada de inapropriado com o Sr. Kennedy.”

Maxwell também pareceu refutar uma das afirmações frequentemente repetidas por Trump sobre Epstein – que o 42.º presidente era, na verdade, mais próximo dele do que Trump. Trump disse, em várias ocasiões, que Clinton visitou a ilha de Epstein dezenas de vezes – sugerindo mesmo que terão sido umas 28.

Mas isso parecia basear-se numa interpretação completamente errada das informações disponíveis. E Maxwell garantiu que Clinton nunca visitou a ilha.

“Ele nunca foi [a Mar-a-Lago]”, disse Maxwell, referindo-se a Clinton. “Ele nunca foi. E tenho a certeza disso porque não há como ele ter ido – não acredito que ele teria ido à ilha se eu não estivesse lá.”

Mas, mais uma vez, os crimes de Maxwell colocam o seu testemunho em questão. Embora negue ter visto qualquer homem envolvido em atos inapropriados, Maxwell foi condenada por participar nas ações de um homem: Epstein.

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