Após Trump ter prometido durante a campanha presidencial que iria divulgar todo o acervo documental de Epstein, a administração norte-americana passou mais de um ano a tentar adiar a publicação. Que chegou agora, parcialmente: são mais de 3,5 milhões de emails, fotos e vídeos comprometedores, de um total de "mais de 6 milhões de páginas potencialmente relevantes" identificadas pelo Departamento de Justiça
As linhas temporais não contam a história toda mas costumam ser bons fios condutores. Isso é válido também no caso dos famigerados ficheiros Epstein, uma cache de milhões de documentos que inclui correspondência digital, fotografias, vídeos e outros documentos do arquivo do bilionário pedófilo que apareceu morto em agosto de 2019 na cela da prisão onde aguardava julgamento por tráfico sexual e outros crimes.
Passavam dez dias da tomada de posse de Donald Trump em janeiro de 2025 quando o recém-nomeado diretor do FBI, Kash Patel, foi interrogado sobre o acervo de Jeffrey Epstein na sua audiência de confirmação no Senado. “Farei tudo o que estiver ao meu alcance para garantir que o público americano compreende a gravidade do que aconteceu no passado”, prometeu, “e como iremos combater o desaparecimento e a exploração de crianças no futuro”.
Como aconteceu com outros aliados de Trump, a posição de Patel sobre o caso Epstein sofreu uma viragem de 180 graus. Meses antes de integrar a nova administração Trump, sugeriu várias vezes que o bilionário não cometeu suicídio, antes que foi assassinado para ser impedido de expor cúmplices de alto nível. O agora diretor do FBI também já tinha instado à publicação da suposta “lista de clientes” de Epstein, insinuando que o Departamento de Justiça estava a ocultar provas para proteger figuras do chamado “deep state” – aquele que, acredita o movimento MAGA, Trump ia expor e combater.
O mesmo pode ser dito de Trump, que durante a campanha presidencial de 2024 garantiu à Fox News que, se fosse eleito, "desclassificaria" todos os ficheiros Epstein. "Não sei tanto sobre Epstein quanto sei sobre os outros, certamente sobre a maneira como ele morreu. Seria interessante descobrir o que aconteceu ali porque foi uma situação estranha e as câmaras não estavam a funcionar, etc, etc. Mas sim, eu esforçar-me-ia bastante para desclassificar esse caso."
Administração Trump tenta encerrar assunto Epstein
A 21 de fevereiro de 2025, nem um mês depois da audiência de Patel no Senado, a chefe do Departamento de Justiça foi questionada pela Fox News sobre a suposta “lista de clientes”, ao que Pam Bondi respondeu: “Está neste momento na minha mesa para revisão”. Posteriormente, Bondi e a Casa Branca afirmaram que a procuradora-geral referia-se ao arquivo completo do milionário e não à dita lista de clientes, uma que o Departamento de Justiça e o FBI continuam a garantir que não existe.
Uma semana depois, a 27 de fevereiro, um conjunto de influenciadores MAGA foi chamado à Casa Branca para receber pastas desclassificadas com documentos do arquivo Epstein; o conteúdo trouxe poucas informações novas e toda a pompa e circunstância do evento pareceu surtir um efeito contrário algo desastroso para Bondi, com os influenciadores conservadores a expressarem frustração com a escassez de informações. As pastas tinham a etiqueta “Fase 1” colada nelas; não houve mais nenhuma fase depois dessa.
Em maio, o Wall Street Journal relatava em exclusivo que Bondi tinha informado Trump sobre “diversas" menções ao seu nome nos ficheiros, no que foi visto como um ponto de inflexão importante na forma como a administração norte-americana tem lidado com a questão, inclusive por via de declarações públicas. Na mesma semana, numa conferência de imprensa, a procuradora-geral disse que “existem milhares de vídeos de Epstein com crianças ou pornografia infantil e centenas de vítimas”.
Apesar das declarações perturbadoras, o caso pareceu esmorecer durante alguns meses, até 7 de julho, quando o Departamento de Justiça e o FBI vieram garantir novamente num comunicado conjunto que não existe nenhuma “lista de clientes” de Epstein nem nenhum indício de crime na morte do milionário na prisão. Vários media e analistas viram no documento, curto e não assinado, uma tentativa da administração para encerrar o assunto.
No dia seguinte, questionado sobre o tema, o presidente irritou-se e acusou os jornalistas de “profanação”. “Ainda estão a falar de Jeffrey Epstein? Esse tipo é assunto de conversa há anos. As pessoas ainda estão a falar desse tipo? Esse crápula? É inacreditável.” (A reação ignorou dois factos: o primeiro, que a ‘questão Epstein’ foi impulsionada pela direita MAGA e pelo próprio Trump antes das presidenciais de 2024; o segundo, que nem todos os assuntos deixam de importar ao presidente apenas porque estão “no passado” – veja-se a investigação de que foi alvo no seu primeiro mandato por ligações suspeitas à Rússia de Putin ou o alegado “roubo” eleitoral que sofreu em 2020.)
Poucos dias depois, no X, Patel assegurava que as teorias da conspiração que ele próprio chegou a defender publicamente “simplesmente não são verdadeiras, nunca foram”, e Trump saiu em defesa de Bondi, num post na Truth Social. Logo a seguir, o presidente disse não entender a obsessão com o caso Epstein, “bem chato”, acusando os media de estarem a fomentar o escândalo. Questionado sobre se Bondi o avisou das menções ao seu nome nos ficheiros, contradisse o Wall Street Journal e garantiu que não existem. No dia seguinte, a 16 de julho, o “caso bem chato” passou a “farsa” arquitetada pelos democratas, disse o presidente na Truth Social, criticando os seus apoiantes que acreditam nela.
Aumenta pressão sobre a administração
Um dia depois, o Wall Street Journal revelou uma carta com frases enigmáticas emolduradas por uma mulher nua que Trump alegadamente enviou a Epstein em 2003 a desejar-lhe um feliz 50.º aniversário – “Parabéns. E que cada dia seja um novo e belo segredo", lia-se na missiva, que o presidente garantiu ser falsa, apesar de conter a sua assinatura; no dia seguinte, anunciou um processo judicial contra o jornal de Rupert Murdoch.
Passadas as férias de verão, no arranque de setembro, mais de 33 mil páginas foram divulgadas pela Câmara dos Representantes, após o comité de supervisão ter intimado o Departamento de Justiça a entregá-las. A ordem solicitava a publicação de todos os documentos, mas apenas uma parte foi entregue – a maioria ligada a processos judiciais já públicos, com poucas informações novas.
Mais dois meses e os democratas do comité divulgaram três emails selecionados de entre esses milhares de documentos do espólio Epstein. Num deles, o bilionário dizia que Trump sabe mais sobre a sua rede de tráfico sexual do que admitia publicamente; noutro, disse que Trump passou horas na sua casa com uma das vítimas; no terceiro, afirmou que Trump “sabia sobre as miúdas”.
Os republicanos do comité acusaram a oposição de agir seletivamente e, no mesmo dia, divulgaram mais de 20 mil novos documentos, incluindo milhares de emails e mensagens de texto que mostram o dia a dia de Epstein. Numa, o bilionário diz, em referência ao presidente Trump: “Sou eu quem pode derrubá-lo”.
A 14 de novembro, Trump pediu investigações ao caso, mas tendo como alvos apenas as figuras democratas mencionadas. Nos dois dias seguintes, sob crescente pressão, o presidente envia assessores ao Congresso para avisarem os republicanos de que votar com os democratas a favor da divulgação seria encarado como um “ato hostil” contra o seu governo. Os esforços fracassaram e, em conversas privadas, os legisladores do partido disseram a Trump que a pressão dos eleitores não lhes deixava alternativa.
Para evitar uma deserção em massa, o presidente mudou de postura a 16 de novembro, dizendo nas redes sociais que os republicanos da Câmara deviam votar a favor da divulgação porque “não temos nada a esconder”. Dois dias depois, o Congresso aprovou o projeto de lei com ampla maioria, que Trump promulgou no dia seguinte. A lei dava ao Departamento de Justiça até ao dia 19 de dezembro para divulgar a totalidade dos ficheiros.
Respostas e perguntas sem resposta
No passado sábado, seis semanas depois de o prazo expirar, um ano depois de Kash Patel prometer no Senado que tudo seria divulgado e investigado a fundo, o Departamento de Justiça publicou mais de três milhões e meio de novos documentos do acervo de Jeffrey Epstein, incluindo 180 mil fotografias e dois mil vídeos. Mas o caso está longe de estar concluído.
Como têm referido vários media, à medida que os documentos vão sendo analisados, o conteúdo parece ter contribuído muito pouco para esclarecer as dúvidas e questões sobre a rede de tráfico que envolve inúmeros políticos, milionários e poderosos de todo o mundo, de Bill Gates a Noam Chomsky, do agora ex-lorde Mandelson à princesa herdeira da Noruega. Para Todd Blanche, vice-procurador-geral dos EUA, a revisão do caso Epstein “está encerrada” – “ir a festas e trocar emails com Epstein não é um crime”, disse esta semana, e, apesar de as vítimas quererem ser “totalmente ressarcidas”, isso não significa que a administração “possa simplesmente criar provas”. Ao todo, segundo a BBC, Trump é mencionado mais de seis mil vezes na documentação.
Em breve, Bill e Hillary Clinton vão ao Congresso prestar depoimentos sobre o caso, perante as inúmeras referências ao antigo presidente dos EUA. Já o atual presidente considera que está totalmente “ilibado” pelo conteúdo do arquivo Epstein e defende que “chegou a hora de o país seguir em frente e deixar para trás” este assunto. A meio da semana, questionado sobre os erros cometidos pelo Departamento de Justiça neste processo, por não ter ocultado dezenas de nomes e fotos de vítimas, o presidente perdeu a compostura com Kaitlan Collins, jornalista da CNN Internacional.
“Ela [Kaitlan Collins] é uma mulher jovem – acho que nunca a vi sorrir, conheço-a há dez anos e acho que nunca vi um sorriso no seu rosto”, disse Trump em tom sarcástico, classificando-a como “a pior repórter”. Em resposta, Collins recordou o chefe de Estado de que estava a interrogá-lo sobre crianças e jovens vítimas de tráfico e abusos sexuais, ao que Trump ripostou: “Sabe porque é que você nunca sorri? Porque sabe que não está a dizer a verdade.”
A verdade no caso Epstein pode nunca vir a ser conhecida. Mas vale a pena lembrar que, apesar de todas as suspeitas – e de vários países europeus já terem aberto investigações criminais relacionadas com o que foi divulgado, da Polónia à Letónia ao Reino Unido –, nos EUA ainda não surgiu nenhuma investigação ou acusação formal ligada ao que os documentos revelam. E, até agora, a única pessoa detida no âmbito do caso foi uma mulher: Ghislaine Maxwell, parceira de Epstein no esquema, que foi condenada a 22 anos de prisão em 2022 – e que, em documentos entregues em tribunal em dezembro, acusou a procuradoria federal de ter fechado "acordos secretos" com 25 outros alegados cúmplices do bilionário para escaparem a processos judiciais.
Com a administração Trump a considerar o assunto encerrado, imagens de vítimas seminuas ainda disponíveis online e a muito aguardada audiência de Maxwell no Congresso marcada para a próxima segunda-feira, há uma “questão importante e sombria” que se sobrepõe a todas as outras, aponta Marina Hyde no Guardian: “O que significa para mulheres e meninas poderem ver claramente que vivemos num mundo onde muitos dos homens mais ricos e poderosos do planeta simplesmente não se importam o suficiente com a exploração que elas sofrem? Ou pior”.