A recente divulgação de milhões de ficheiros dos arquivos de Jeffrey Epstein intensificou o acerto de contas público, mas também aprofundou a tragédia recorrente das suas vítimas.
E a perspetiva de que o sistema legal pudesse fazer justiça às sobreviventes pareceu recuar ainda mais.
O vice-procurador-geral Todd Blanche sinalizou no programa “State of the Union” no domingo que não haverá processos adicionais relacionados com controvérsia em torno de Epstein, o criminoso sexual condenado que morreu na prisão em 2019.
“Temos de separar essas duas ideias: o facto de os arquivos de Epstein existirem e se há alguém lá que possamos processar”, disse Blanche a Dana Bash, da CNN.
“Há muita correspondência. Há muitos e-mails. Há muitas fotografias. Há muitas fotografias horríveis que parecem ter sido tiradas pelo sr. Epstein ou por pessoas próximas dele. Mas isso não nos permite necessariamente processar alguém”, adiantou Blanche.
O Departamento de Justiça divulgou na sexta-feira mais de 3 milhões de páginas de investigações sobre o financista desonrado, incluindo vídeos, fotos e e-mails trocados com pessoas proeminentes. As revelações reacenderam o mistério sobre as amizades de Epstein com o presidente Donald Trump e o ex-presidente Bill Clinton. Trump e Clinton negam ter conhecimento dos crimes de Epstein e nenhum dos dois é acusado de qualquer irregularidade relacionada com essas ligações passadas.
Os novos arquivos também agravaram o drama em torno da família real britânica, depois de o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, ter defendido que o ex-príncipe Andrew deveria depor perante o Congresso dos EUA sobre os seus longos laços com Epstein. Numa imagem sem data, o irmão do rei Carlos III aparece debruçado sobre uma mulher ou menina no chão.
Andrew Mountbatten-Windsor, como é conhecido agora, nega todas as acusações contra ele e diz que nunca viu nada que lhe parecesse suspeito quando estava perto de Epstein.
Mas as consequências da divulgação de sexta-feira mostram como cada lote de arquivos lança novas sombras sobre a reputação de poderosas elites na política, nos negócios, na tecnologia, na realeza, no desporto e nas finanças, cuja riqueza e fama abriram acesso ao círculo de Epstein.
Vítimas sentem-se novamente traídas
A enxurrada de informações, no entanto, falha num aspeto importante. Ela contribui pouco para fazer justiça ou dar um desfecho às vítimas que foram traficadas ou abusadas por Epstein quando eram jovens e que corajosamente compartilharam as histórias dos seus traumas.
As sobreviventes de Epstein receberam uma medida de vindicação com a sentença de 2022 da sua associada Ghislaine Maxwell a 20 anos de prisão, após ter sido condenada por explorar e abusar de várias meninas menores de idade ao lado de Epstein. Mas muitas sobreviventes sentiram que a justiça foi interrompida quando Epstein cometeu suicídio enquanto aguardava julgamento.
Uma sobrevivente, Danielle Bensky, disse a Erin Burnett, da CNN, na sexta-feira, que as vítimas estão frustradas porque algumas delas foram identificadas em documentos divulgados pelo Departamento de Justiça, apesar das promessas de que seriam protegidas.
Blanche disse na manhã de sexta-feira, quando os arquivos foram divulgados, que alguns erros eram “inevitáveis” dado o volume de documentos. O Departamento de Justiça mantém um canal de e-mail para que as vítimas possam expressar as suas preocupações.
Bensky também acredita que ainda há falta de transparência por parte do Departamento de Justiça sobre quais as informações que podem ter sido omitidas nesta última divulgação.
“É um verdadeiro tesouro de informações das vítimas, então ‘O que estamos a proteger?’ é a questão para mim e para tantas outras sobreviventes”, sublinha Bensky. “Se não se está a proteger as sobreviventes, então o quê — quem é que se está a proteger?”
Muitos críticos do processo do Departamento de Justiça e das falhas mais amplas nas investigações sobre Epstein questionam como é possível que tantas mulheres digam ter sido abusadas na sua suposta rede de tráfico, mas não tenha havido processos mais abrangentes.
Num sentido lato, Blanche está certa: a existência de arquivos de investigação contendo informações, algumas delas desfavoráveis, sobre os associados de um suposto criminoso não significa que essas pessoas tenham cometido algum crime. O risco de danos à reputação é o motivo pelo qual o Departamento de Justiça normalmente não divulga os arquivos quando não há acusações formalizadas.
“As vítimas querem ser indemnizadas”, referiu Blanche à CNN. “E nós também queremos isso. O procurador-geral quer isso mais do que qualquer coisa, mas isso não significa que podemos simplesmente criar provas ou inventar um caso […] que não existe.”
Legisladores indignados com não-cumprimento da nova lei pelo Departamento de Justiça
Contudo, críticos no Congresso questionam se o Departamento cumpriu integralmente uma lei aprovada após uma rara revolta republicana contra Trump. Os legisladores estão irritados com as decisões tomadas por funcionários sobre as partes censuradas.
O caso Epstein também está há muito tempo no centro de teorias da conspiração impossíveis de serem comprovadas. E a recusa do governo em divulgar os arquivos até ser obrigado a fazê-lo pela nova lei alimentou alegações de encobrimento, que as autoridades negam.
O deputado Ro. Khanna argumentou no domingo que o governo não cumpriu a lei e disse que ele, juntamente com o coautor da lei, o deputado republicano Thomas Massie, consideraria processos por desacato ou destituição contra altos funcionários se o desempenho não melhorasse. "Francamente, é um dos maiores escândalos, na minha opinião, da história do nosso país", disse Khanna ao programa "Meet the Press" da NBC.
Khanna diz que as sobreviventes ficaram zangadas com a divulgação acidental dos nomes de algumas vítimas e querem que todos os arquivos sejam divulgados. "Eles divulgaram, no máximo, metade dos documentos", destacou.
O democrata da Califórnia também afirmou que a possibilidade de novas acusações deveria ser considerada, assim como se algum associado de Epstein havia "abusado ou violado meninas menores de idade".
Khanna pede um debate mais amplo sobre pessoas conhecidas que se aproximaram de Epstein.
“Há pessoas ricas e poderosas que podem não ter cometido um crime, mas que estiveram a enviar e-mails para Jeffrey Epstein muito tempo depois de ele ser um pedófilo, a falar sobre ir à ilha dele, a falar sobre participar em festas extravagantes”, diz Khanna. “O povo americano está a perguntar: ‘Como é que os nossos riscos e poderosos estão a viver neste país? Que código moral estão eles a seguir?’”
Jamie Raskin, o principal democrata no Comité Judiciário da Câmara dos Representantes, por sua vez, disse no programa “State of the Union” que os comentários de Blanche eram “estarrecedores” e acusou o Departamento de Justiça de estar a encobrir o presidente.
O legislador de Maryland argumentou que Blanche “nunca tentou fazer a transição de advogado de defesa criminal pessoal de Donald Trump para a pessoa número 2 do Departamento de Justiça dos Estados Unidos”. E condenou a divulgação “fragmentada” dos arquivos, acusando a procuradora-geral, Pam Bondi, de se recusar a cumprir a lei que exige a sua divulgação.
No sábado, Trump argumentou que os documentos recém-divulgados eram úteis para ele, alegando que revelavam uma conspiração quando Epstein pediu conselhos ao autor Michael Wolff após uma reportagem do Miami Herald apresentar dezenas de mulheres a dizer que foram vítimas dos abusos do financeiro. "Estou a pensar no que Trump faria", escreveu Epstein a Wolff.
O presidente comentou: "Eu mesmo não vi, mas disseram-me pessoas muito importantes que isso não só me absolve, como é o oposto do que as pessoas esperavam".
Essa revelação pouco contribuirá para diminuir a intriga política em torno do relacionamento de Trump com Epstein, especialmente porque ele surge mencionado mais de mil vezes nas últimas divulgações. Os documentos contêm uma lista de alegações de agressão não verificadas contra Trump, compilada por agentes do FBI no ano passado. Há também anotações do FBI sobre uma mulher que acusou Trump, num processo, de a violar quando ela tinha 13 anos, e uma entrevista do FBI com uma das vítimas de Epstein, que afirmou que Maxwell a "apresentou" a Trump numa festa.
Não há evidências públicas de que qualquer uma das alegações contra Trump contidas nos novos documentos tenha sido considerada credível pelo FBI.
Blanche afirmou no programa “State of the Union” que essas perguntas não eram especificamente sobre Trump. “Acho que as pessoas verão, ao analisarem o material que divulgámos, que houve centenas de telefonemas para o FBI com alegações feitas por indivíduos anónimos ou por pessoas que foram rapidamente consideradas não confiáveis, seja pela natureza do que diziam ou pelo facto de se recusarem a fornecer informações ou provas corroborativas, e isso faz parte dos arquivos de Epstein”, disse.
Votação sobre desacato dos Clinton aproxima-se
A próxima reviravolta na saga pode acontecer esta semana, com a Câmara dos Representantes a votar se Bill e Hillary Clinton serão considerados culpados de desacato por se recusarem a depor sobre possíveis ligações a Epstein. Os advogados dos Clinton argumentam que estão a ser injustamente escolhidos como alvos e classificaram as intimações do comité para obter os seus depoimentos como “inválidas e legalmente inexequíveis”.
Alguns democratas votaram com os republicanos do comité na moção de desacato. Mas Khanna disse ao programa “Meet the Press” que era prematuro considerar o ex-presidente culpado de desacato criminal. “Eu também disse que o presidente Clinton deveria comparecer perante o comité, mas ele deveria comparecer depois de todos os arquivos serem divulgados.”
Raskin disse à CNN que votaria para considerar os Clinton culpados de desacato apenas se Bondi enfrentar uma medida semelhante. “Lembrem-se, ela tem milhões de documentos que é legalmente obrigada a entregar por intimação emitida há meses, de acordo com a lei federal, e ela não está a fazer isso. Se eles não fizerem isso, então não estarão a levar a sério a investigação aos arquivos de Epstein, e é isso que a América quer.”
Arquivos divulgados anteriormente, em dezembro, incluíam fotos inéditas de Bill Clinton e Epstein juntos, e do antigo presidente sentado sem camisa numa banheira de hidromassagem com alguém que um funcionário do Departamento de Justiça descreveu como uma “vítima” dos abusos sexuais de Epstein.
O lote inclui comunicações frequentes entre Maxwell e funcionários de Clinton entre 2001 e 2004. Durante esse período, Bill Clinton viajou com os seus funcionários no avião particular de Epstein pelo menos 16 vezes, de acordo com uma análise da CNN.
Um porta-voz de Clinton afirmou repetidamente que o ex-presidente cortou relações com Epstein antes de o financeiro ser acusado de solicitar prostituição em 2006 e que ele não tinha conhecimento dos seus crimes. Clinton também negou ter visitado a ilha de Epstein.
O renovado foco no círculo social de Epstein surge após a divulgação de novos documentos que mencionam outros conhecidos. Os ficheiros mostram o secretário de Comércio de Trump, Howard Lutnick, a planear uma viagem à ilha de Epstein em 2012, anos depois de Lutnick ter afirmado que havia cortado relações com Epstein. Lutnick disse num podcast no ano passado que ele e a sua esposa decidiram, após um encontro em 2005, nunca mais se associar a Epstein. Mas e-mails de 2012 mostram que a esposa e a assistente de Lutnick comunicaram com uma assistente de Epstein sobre a organização de uma visita e um almoço numa das ilhas caribenhas do financeiro.
Ao ser contactado na sexta-feira pelo The New York Times, Lutnick disse: "Não passei nenhum tempo com ele" e desligou a chamada. Um porta-voz do Departamento de Comércio disse à CNN: "O secretário Lutnick teve interações limitadas com o sr. Epstein na presença da sua esposa e nunca foi acusado de irregularidades."
Da mesma forma, os documentos mostram o bilionário da tecnologia Elon Musk a tentar coordenar viagens para a ilha de Epstein em 2012 e 2013, apesar de Musk afirmar ter rejeitado as tentativas de Epstein de o convidar. Em determinado momento, Musk pergunta qual seria a ocasião para a "festa mais selvagem".
Numa publicação nas redes sociais na noite de sexta-feira, Musk disse: "Troquei pouquíssima correspondência com Epstein e recusei repetidos convites para ir à sua ilha ou voar no seu 'Lolita Express', mas estava bem ciente de que algumas trocas de e-mails com ele poderiam ser mal interpretadas e usadas por detratores para difamar o meu nome."