Roza era uma modelo de 18 anos quando foi violada pela primeira vez por Epstein - que cumpria pena de prisão

CNN , MJ Lee e Nicky Robertson
21 jul, 09:26
Fotos de Roza Gilles. CNN
 
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A mulher admite agora, numa entrevista em exclusivo à CNN, que Jeffrey Epstein a magoou "profundamente" e que lhe deixou "a maior cicatriz" da sua vida

No primeiro dia em que Roza Gilles se apresentou para o seu novo emprego num edifício de escritórios de grande altura, no centro de Palm Beach, no verão de 2009, uma mulher estava a massajar os pés de Jeffrey Epstein.

Gilles, que tinha então 18 anos, tinha chegado recentemente aos Estados Unidos para prosseguir a sua carreira de modelo, depois de ter sido abordada nos bastidores, no seu país natal, o Uzbequistão, por um agente de modelos com ligações a Epstein. A agência de modelos colocou-a imediatamente numa situação de endividamento, cobrando-lhe milhares de dólares pelo visto e pela renda. Desesperada, Gilles pensou que seria melhor regressar à Ásia, onde tinha tido uma carreira de sucesso como modelo adolescente, mas Epstein ofereceu-lhe um trabalho de fim de semana como rececionista no seu escritório para complementar os seus rendimentos.

Já numa sala com Epstein, no interior de um escritório no 14.º andar, a mulher convidou Gilles a sentar-se ao seu lado. Enquanto Epstein lhe entregava o pé, ela reparou numa pulseira de plástico preta à volta do tornozelo, com uma pequena caixa presa que tinha uma luz intermitente. Quando perguntou o que era, Gilles diz que Epstein e a mulher se riram. De seguida, Epstein disse-lhe para tirar a camisa.

"Fiquei paralisada", recordou Gilles. "E a mulher aproxima-se e começa a desapertar os botões da minha blusa. Tira-ma, depois tira-me o soutien e sai da sala."

Nesse dia, Epstein agrediu sexualmente Gilles pela primeira vez — o início de anos de violações e abusos. Só mais tarde percebeu que o dispositivo que Epstein trazia no tornozelo era uma pulseira eletrónica e que ele estava a cumprir pena de prisão por solicitação de prostituição a uma menor.

Gilles é uma das inúmeras mulheres abusadas pelo falecido agressor sexual de menores condenado. A sua história — que partilha agora publicamente, pela primeira vez e na íntegra, com a CNN — oferece uma perspetiva clara sobre os contornos invulgares do controverso acordo judicial celebrado por Epstein em 2008, na Florida, que lhe permitiu cumprir grande parte da pena fora da prisão. Esse acordo permitiu que Epstein continuasse a abusar de jovens mulheres enquanto cumpria a pena resultante da condenação. Entre elas encontravam-se jovens modelos estrangeiras, como Gilles — e, por vezes, os abusos ocorreram enquanto um agente do gabinete do xerife do condado de Palm Beach estava na sala ao lado, contaram sobreviventes à CNN.

"Ele não parou aquilo que fazia depois de ser condenado. Continuou exatamente da mesma forma", afirmou Gilles. "Não tinha qualquer remorso. O que ele me fez magoou-me profundamente e deixou a maior cicatriz da minha vida. Nunca — nunca vou conseguir ultrapassar isto, por muito que tente."

Duas mulheres que falaram com a CNN sob condição de anonimato disseram também ter sido abusadas por Epstein no escritório da Florida Science Foundation. A organização sem fins lucrativos foi criada em novembro de 2007, pouco antes de Epstein se declarar culpado, e afirmava conceder bolsas e apoio financeiro a organizações ligadas à ciência e à investigação. As mulheres descreveram o escritório do 14.º andar como um espaço acessível por elevador e frequentemente movimentado, com visitantes e atividade durante a semana. Uma delas recordou que existiam numerosas máquinas de ruído branco — pequenas cúpulas brancas em forma de cogumelo — espalhadas pelo escritório.

Esta foto obtida pela CNN mostra o interior do escritório de Jeffrey Epstein na Fundação de Ciências da Flórida, em West Palm Beach, Flórida. ​​​CNN

Segundo estas mulheres, Epstein parecia ter desenvolvido uma rotina para os dias em que permanecia na Florida Science Foundation. As manhãs começavam com café e um muffin e o financeiro, que se queixava de dormir mal na prisão de segurança mínima de Palm Beach Stockade, fazia regularmente sestas num futon colocado numa sala de reuniões. Uma das mulheres recorda-se claramente de ocasiões em que a pulseira eletrónica de Epstein disparava, obrigando-o a correr para o exterior para tentar reiniciar o dispositivo.

O comportamento de Epstein durante este período era caracteristicamente descarado. Tanto na sua casa em West Palm Beach como no escritório, as sobreviventes dizem que Epstein as agredia sexualmente por vezes enquanto um agente fardado permanecia nas proximidades, supostamente para vigiar o recém-registado agressor sexual. Na Florida Science Foundation, um grupo rotativo de agentes permanecia sentado junto à entrada do escritório. Duas mulheres disseram lembrar-se de pensar que os agentes pareciam ter medo de Epstein. Para elas, não havia qualquer dúvida de que era Epstein quem mandava.

No caso de Gilles, o seu encontro com um homem fardado, que acreditava ser um agente do gabinete do xerife, ocorreu numa manhã na mansão de Epstein, em West Palm Beach, onde, segundo conta, era chamada semanalmente durante o verão de 2009. Nessa manhã, desceu as escadas e viu o agente na cozinha, sentindo uma súbita esperança. "Pensei para mim: “Graças a Deus, hoje é o dia em que tudo isto vai acabar”", contou à CNN.

Observou o agente a conversar e a rir com Epstein e, depois de lhe desejar um bom dia, sair da casa — sem lhe dirigir uma única palavra.

"Depois de ver aquele agente do xerife, percebi que, acontecesse o que acontecesse, este homem nunca iria ser preso", referiu Gilles. "Este homem nunca seria travado e, por muito que gritasses ou berrasses para o universo inteiro, ninguém iria querer saber."

O controverso programa de trabalho externo de Epstein

Os relatos de Gilles e de outras sobreviventes que afirmam ter sido abusadas por Epstein enquanto este cumpria a sua pena de 13 meses levantam sérias questões sobre o controverso acordo judicial que Epstein celebrou em 2008 com o então procurador federal Alex Acosta.

Epstein começou a trabalhar "a tempo inteiro" como presidente da Florida Science Foundation em outubro de 2008, de acordo com uma revisão de 2021 ao seu programa de trabalho externo realizada pelas autoridades da Florida. Durante os primeiros seis meses, foi autorizado a permanecer no escritório da fundação entre as 10h00 e as 22h00, de segunda-feira a sábado. Em maio de 2009, esse horário foi alargado, obrigando Epstein a permanecer fisicamente na prisão apenas oito horas por dia. No mês seguinte, o programa voltou a ser expandido, permitindo-lhe trabalhar os sete dias da semana na fundação.

Nas duas últimas semanas antes de passar para prisão domiciliária, o financeiro foi ainda autorizado a visitar a sua mansão em West Palm Beach durante períodos de duas horas, à tarde.

O seu programa de trabalho externo incluía várias condições, entre elas a obrigação de se reunir apenas com associados de negócios e a exigência de usar uma pulseira eletrónica até julho de 2009. Epstein não podia manter contacto com familiares, amigos, namoradas ou menores.

Os advogados de Epstein e o gabinete do xerife do condado de Palm Beach (PBSO) chegaram igualmente a um acordo para que Epstein contratasse agentes fora de serviço — conhecidos como agentes "permit" — para permanecerem no escritório e registarem todos os visitantes. O advogado de Epstein, em nome da Florida Science Foundation, pagou ao gabinete do xerife um total de 128.136 dólares por esses agentes durante o período de trabalho externo de Epstein, segundo um relatório do Departamento de Aplicação da Lei da Florida (FDLE). O relatório acrescenta que foram analisados 494 registos de visitantes pelo PBSO e que não foram encontradas violações relacionadas com contactos não autorizados, tendo esses registos sido posteriormente destruídos de acordo com a política em vigor.

Em 2019, menos de uma semana depois de terem sido reveladas novas acusações contra Epstein, Acosta demitiu-se do cargo de secretário do Trabalho na primeira Administração Trump. Uma revisão do Departamento de Justiça, concluída em 2020, ao acordo de 2008 negociado por Acosta concluiu que este demonstrou "fraco discernimento", nomeadamente por não ter informado as raparigas e jovens mulheres que alegavam ter sido abusadas sexualmente por Epstein sobre a decisão de não o acusar por crimes federais. Ainda assim, a investigação não concluiu que Acosta ou outros procuradores tivessem cometido qualquer infração profissional.

Em dezembro de 2019, quatro meses após o suicídio de Epstein numa prisão de Nova Iorque, o PBSO terminou o programa de trabalho externo. O relatório do FDLE de 2021 concluiu que "não foi determinada qualquer atividade criminosa por parte de qualquer membro do PBSO relativamente à sua participação nos programas de trabalho externo ou de agentes 'permit' de Epstein".

O gabinete do xerife do condado de Palm Beach não respondeu ao pedido de comentário da CNN para esta reportagem.

À mercê de uma agência de modelos

As condições do programa de trabalho externo de Epstein tornaram jovens modelos estrangeiras como Gilles alvos perfeitos após a sua condenação.

Gilles contou que foi abordada pelo agente de modelos francês Jean-Luc Brunel, em 2008, quando se encontrava nos bastidores de um desfile de moda no Uzbequistão. Brunel apresentou-se como proprietário da agência MC2 Model Management, em Nova Iorque, e ofereceu-lhe um contrato de imediato. Gilles viria mais tarde a descobrir que Epstein era um importante financiador da empresa.

O contrato que assinou com a MC2, segundo descreve Gilles, dava à agência controlo sobre todos os aspetos da sua vida. Ficou imediatamente a dever 4.000 dólares pelo visto e 1.500 dólares por mês de renda do apartamento sobrelotado para modelos, em Manhattan, onde várias raparigas dormiam em beliches. A dívida aumentou para um valor que os seus pais, no país de origem, nunca imaginariam ganhar num ano inteiro.

Alguns meses depois da mudança, Gilles contou que começou a chorar no escritório da MC2 em Miami, diante de Brunel. A família dependia dos rendimentos que ela obtinha como modelo e, nessa altura, já acumulava uma dívida de cerca de 10.000 dólares sem conseguir trabalhos na área. Já tinha sugerido regressar à Ásia, onde tinha tido sucesso como modelo, mas a MC2 recusara essa possibilidade.

"Jean-Luc Brunel fica sentado, olha para mim e diz: "Vejo que estás muito triste, dá-me só um segundo"", contou Gilles. "Pega no telefone, liga a alguém e depois desliga. Diz: "Está resolvido. Acabei de enviar 600 dólares aos teus pais.""

Para seu espanto, poucos minutos depois, alguém tinha realmente entregue 600 dólares à sua família no Uzbequistão. "Pensei para mim: "O que acabou de acontecer?"", recordou Gilles. "Não sei para quem ele ligou. Se ligou a um amigo americano que por acaso estava lá ou se ligou a alguém do Governo e o dinheiro foi entregue."

A mensagem era inequívoca: estava completamente à mercê da agência, e isso incluía Epstein. Brunel foi encontrado morto na cela da prisão em 2022, depois de ter sido detido por acusações de violação e agressão sexual.

Gilles recebeu instruções para se deslocar a West Palm Beach, no verão de 2009, para uma sessão fotográfica. A enorme mansão branca onde a sessão decorreu pertencia a Epstein e, após o primeiro breve encontro com ele, a sua mudança definitiva para Miami foi rapidamente organizada. A proposta de Epstein para que trabalhasse como modelo durante a semana e, aos fins de semana, na Florida Science Foundation parecia-lhe não fazer qualquer sentido.

"Como modelo, preciso de ir a castings, construir o meu portefólio e fazer todas essas coisas, mas estão a oferecer-me um emprego de escritório e não percebo como isso vai ajudar a minha carreira", afirmou. "Estou completamente sozinha. Não tenho dinheiro e esta pessoa diz-me que, para fazer o meu trabalho, tenho de aceitar outro."

Depois da primeira agressão na Florida Science Foundation, Gilles afirma que foi molestada e violada todos os fins de semana em West Palm Beach. O pesadelo continuou mesmo depois de lhe ser permitido regressar a Nova Iorque, em 2010, quando terminou a prisão domiciliária de Epstein na Florida.

Os ficheiros de Epstein divulgados este ano pelo Departamento de Justiça estão repletos de mensagens de correio eletrónico enviadas por olheiros de agências de modelos ao agressor sexual condenado, oferecendo-lhe modelos de todo o mundo.

Duas mulheres apresentaram queixas em 2019 alegando que Epstein as tinha abusado sexualmente durante o período em que beneficiou do programa de trabalho externo. Uma das mulheres anónimas, identificada como Katlyn Doe, afirmou que foi "obrigada a envolver-se em encontros sexuais" com Epstein no escritório da fundação.

"Enquanto se encontrava no "escritório" de Jeffrey Epstein, na Florida Science Center, a autora foi obrigada a envolver-se em encontros sexuais com Jeffrey Epstein — tanto sozinha com Epstein, durante os quais manteve relações sexuais, como, numa ocasião, juntamente com outra jovem e Epstein", refere a queixa.

Escapar a Epstein

Gilles diz estar certa de que esteve na presença de outras vítimas de Epstein. Recorda-se de percorrer a mansão na Florida e encontrar raparigas que falavam pouco ou nenhum inglês. "Eram imigrantes, havia pessoas com sotaque, pessoas que falavam russo", contou. "O mesmo estava a acontecer com elas."

Roza Gilles. CNN

Só depois de a sua carreira como modelo descolar em Nova Iorque, alguns anos mais tarde, e de alcançar independência financeira, conseguiu finalmente abandonar o mundo de Epstein. Mudou-se para o Centro-Oeste dos Estados Unidos e, depois de conhecer o marido, Pat, encontrou uma nova vocação como treinadora e preparadora física.

Durante anos, Gilles manteve o seu passado sombrio em segredo de praticamente toda a gente — incluindo os próprios pais. Apesar das promessas do Departamento de Justiça de proteger as sobreviventes, ficou chocada ao ver o seu nome — bem como anos de correspondência entre si e Epstein — publicados para o mundo inteiro quando os ficheiros de Epstein foram divulgados no início deste ano.

"Era a minha história para contar. Não era algo que eu quisesse que qualquer pessoa lesse", afirmou.

Gilles diz que, ao longo do último ano, tem acompanhado outras sobreviventes de Epstein que defendem publicamente a divulgação dos ficheiros de Epstein e que o Departamento de Justiça investigue os seus cúmplices. Embora tenha sido convidada a juntar-se a esse trabalho público, afirma que ainda não se sente preparada. Quando um grupo de sobreviventes se reuniu nas escadarias do Capitólio, no ano passado, Gilles decidiu viajar até Washington, mas acabou por assistir apenas à distância.

"Elas estavam a contar as suas histórias e isso começou a destruir-me por dentro", disse. "Foi profundamente errado o Governo não me ter protegido."

Ainda assim, Gilles afirma que, à medida que continua a lidar com o seu próprio trauma, começa a imaginar um futuro em que consiga estar ao lado das restantes sobreviventes.

"Consigo imaginar-me, um dia, reunida com elas", afirmou. "Tenho um enorme orgulho em tudo o que cada uma delas está a fazer e vejo a dor delas, que é contagiante. A coragem também é contagiante, não é?"

Dugald McConnell, da CNN, contribuiu para este artigo.

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